O cardeal patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, alertou esta quinta-feira que “persistem entre nós formas agudas de fragilidade e pobreza” que “não podemos desistir de superar” enquanto sociedade, e para o “enfraquecimento legal” na proteção à vida humana.

Muitos continuam sem abrigo: há quem o não tenha e há quem deixe de o ter, sem alternativa capaz. Há quem não encontre trabalho, quem o tenha precário e quem o perca, para si e para sustento dos seus. Há quem tenha teto e comida, mas não tenha vizinhança nem companhia… “, referiu Manuel Clemente na homilia cujo texto foi publicado na página do patriarcado de Lisboa, e proferida esta quinta-feira na Missa Crismal na Sé de Lisboa.

O cardeal patriarca afirmou que “estas e outras são carências à espera de Evangelho” e que “não nos podemos acomodar”, apelando para uma resposta da sociedade. “O que houver a melhorar, melhoremos; o que houver a corrigir, corrijamos; onde ainda tardar, comecemos. No esforço comum duma sociedade solidária, a nossa linha só pode ser a da frente. A ‘solidariedade’ é um dos princípios permanentes da Doutrina Social da Igreja”, lembrou Manuel Clemente.

O cardeal patriarca de Lisboa apelou ainda para a solidez dos matrimónios, dizendo que a fragilidade dos casamentos é uma das causas do empobrecimento da sociedade.

A fragilidade e a rotura de tantos casamentos é hoje em dia uma inegável causa de empobrecimento afetivo e material, para os próprios, os filhos e os parentes, além de enfraquecer a sociedade em geral”, afirmou Manuel Clemente.

O cardeal patriarca defendeu ainda mais apoio “às vidas que se geram”, desde a conceção à morte, referindo que cada vida deve ser “acolhida e amparada desde a sua conceção pelos progenitores e pela sociedade, como tem de ser”. “Muitos dos dramas que infelizmente se sucedem nesta matéria seriam evitados ou minorados com maior convicção do valor inviolável da vida humana, tanto no campo humanitário como no da própria lei”, defendeu o patriarca de Lisboa.

Manuel Clemente destacou o “trabalho incansável” de grupos cristãos e “de outras pessoas de boa vontade” que “oferecem alternativas concretas e positivas para que mulheres em dificuldade levem por diante a sua gravidez”, considerando-os um exemplo para o Estado e para a sociedade do “verdadeiro progresso”. O cardeal estendeu o elogio aos que “acompanham vidas fragilizadas pela idade e pela doença e desenvolvem cuidados paliativos, rumo a uma sociedade que se torne toda ela ‘paliativa'”.

“Superemos o mal com o bem, a aflição com o apoio, o enfraquecimento legal com o reforço das convicções — que depois nos levarão a leis mais respeitadoras da vida humana, no arco completo da existência de cada um. Sabendo que tal exige uma solidariedade mais atenta e concreta, de que as comunidades cristãs devem ser, com as famílias, uma primeiríssima escola”, disse Manuel Clemente.