A conferência Microsoft Build (#MSBuild), que decorre até sexta-feira em Seattle (EUA), destina-se a programadores e à apresentação técnica das linhas orientadoras da marca. Mas neste segundo dia ficámos a conhecer algumas das novidades que farão parte da próxima atualização do Windows 10, bem como as inovações relacionadas com outra vertente na qual a Microsoft está a apostar em força: a Realidade Mista.

Contudo, vamos ter de começar pelos conceitos. Isto porque no primeiro dia da conferência deixámos no ar a ideia de que a Inteligência Artificial (IA) e a integração entre sistemas só estaria completa a partir do momento em que diferentes dispositivos e ecossistemas tecnológicos (Windows, Android, iOS, etc) fossem capazes de comunicar, de facto, uns com os outros. Pelo lado da Microsoft, esta quinta-feira foi dado mais um passo nesse sentido. Não foi uma certeza, mas ficou clara a intenção de que é possível ter dispositivos diferentes a “falar” uns com os outros — independentemente da marca ou sistema operativo.

Na apresentação (keynote) deste segundo dia, Terry Myerson, vice-presidente da Microsoft e o responsável pelo desenvolvimento do software, sublinhou que “o poder da criação” é a força motriz da empresa e que é por ele que está a ser pensado o futuro do ecossistema Windows. Daí o investimento em ferramentas de programação mais intuitivas e multiplataforma, capazes de ser utilizadas por um número crescente de pessoas.

Apesar da componente técnica comum dirigida a programadores (são mais de cinco mil os aqui presentes, este ano) e onde é preponderante o palavreado específico da área, nesta segunda keynote o foco foi para o utilizador, para a parte “visível” da tecnologia. Houve anúncios e demonstrações práticas de encher o olho, algumas delas a merecer destaque.

Windows 10 Fall Creators Update

O Windows 10, que já está instalado em mais de 500 milhões de dispositivos, vai receber no final do ano uma nova atualização que teve como destaque um novo (e poderoso) editor de fotografia e vídeo: Windows Stories Remix. Trata-se de um programa multiplataforma capaz de utilizar o 3D e a Realidade Mista (conceito que relaciona a Realidade Aumentada e Virtual) e que toma partido da colaboração entre utilizadores. Isto quer dizer que qualquer pessoa que construa uma figura ou animação, por exemplo, pode partilhá-la com toda a comunidade (recebendo os devidos créditos por isso).

Este programa de edição de vídeo não só nos pareceu facílimo de usar, como inclui uma ferramenta a que chamam “remix” (remistura). Ela seleciona as melhores imagens e constrói um vídeo automaticamente (nada de novo aqui) mas permite a criação de histórias colaborativas, ou seja, vários utilizadores (de qualquer sistema operativo) podem acrescentar imagens. Depois a IA escolhe as melhores e seleciona (cria) a banda sonora adequada (uma função/tecnologia chamada Groove).

Toda esta automação demonstrou ser eficaz, mas não se pense que as opções ficam encerradas no algoritmo. É possível editar manualmente o que se quiser e, pelo que nos mostraram, a IA vai-se “adaptando” às nossas instruções. A demonstração foi muito aplaudida e deu ênfase às vantagens da criação colaborativa (remix community).

7 fotos

O próximo Windows 10 vai incluir outras funções, não menos interessantes:

  • Timeline: vai permitir “andar no tempo” nos documentos, projetos ou aplicações;
  • Pick Up Where You Left Off: através da assistente Cortana será possível manter a continuidade do que estamos a fazer entre dispositivos e sistemas operativos (a ler ou escrever um texto no preciso ponto onde o deixámos, por exemplo);
  • Clipboard: a capacidade de copiar e colar entre dispositivos e sistemas operativos. No futuro será possível fazer “colar” de “cópias” antigas;
  • OneDrive Files on Demand: permite criar e aceder a um ficheiro sem nunca o descarregar para a memória do dispositivo (computador, tablet ou smartphone). A demonstração sublinhou que nada fica em “cache”, ou seja, tudo acontece mesmo na Cloud, é lá que fica a informação. O PC ou o telemóvel são apenas dispositivos para lhe ter acesso, o que é particularmente útil na gestão de armazenamento de espaço.

Estas novas funcionalidades trabalham com tecnologias de base chamadas Fluent Design e Microsoft Graph, plataformas de programação que permitem a unificação e utilização do ecossistema Windows em Android e iOS – o macOS ficou de fora, evidentemente. Algumas demonstrações práticas foram feitas com um iPhone, uma manobra clara de querer chegar a mais utilizadores. A Microsoft não só está a melhorar o ecossistema, está também a aumentar a capacidade de crescimento, na medida em que começa a poder ser usada em (quase) todo o lado.

O Windows e os outros

A dar seguimento e força a esta linha de raciocínio, a Microsoft apresentou no #MSBuild duas novidades interessantes. Primeiro, relacionadas com a Apple: o iTunes vai estar disponível diretamente a partir da Windows Store e foi lançada oficialmente a ferramenta Project Rome (SDK) que permite, por exemplo, programar a relação de continuidade das aplicações Windows em ambiente iOS.

Em segundo, o Linux (sistema operativo open source), também vai estar na loja de aplicações da Microsoft, através do Ubuntu.

A realidade enche-se de hologramas

A Microsoft acredita que a Realidade Mista (conceito que relaciona a Realidade Aumentada com a Realidade Virtual) vai transformar a nossa relação com a tecnologia, não só no entretenimento mas, sobretudo, no âmbito profissional. Esta tecnologia já está implementada na versão atual do Windows 10, mas o objetivo é potenciar o uso nos HoloLens.

As aplicações práticas são muitas, nomeadamente no campo da engenharia, construção, design e medicina. São já mais de 70 mil os conceitos aplicados aos HoloLens, que o mesmo é dizer, à tecnologia dos hologramas. Há por aqui, na exposição, alguns exemplos que nos deixaram a sensação clara de que o caminho está a ser bem feito: a qualidade de imagem é muito boa, as imagens (hologramas) aparecem à nossa frente de uma forma vívida e dinâmica, sem distorcer a perceção que temos do espaço em volta.

Durante a keynote desta manhã, a Microsoft e o Cirque Du Soleil demonstraram em palco as vantagens de conseguir projetar hologramas (através dos óculos) no espaço, permitindo deste modo desenvolver conceitos virtuais antes de os aplicar à realidade – com uma inegável comodidade e vantagem económica.

[Neste breve vídeo é possível ver “os dois lados”: quem está em palco vê imagens que quem está na assistência não consegue ver]

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Para finalizar, a Microsoft apresentou novos controladores de movimento para utilizar com os HoloLens. Funcionam sem configurações complicadas, isto porque os sensores necessários para determinar a posição espacial já estão instalados nos óculos. Já se encontram em pré-venda e vão estar disponíveis no verão, em separado ou em conjunto com os óculos da HP e da Acer, com os preços a começar nos 299 dólares e a terminar nos 399 doláres.

O Observador viajou a Seattle a convite da Microsoft Portugal.