António Guterres vai estar esta quarta-feira, pela primeira vez, a discursar no Parlamento Europeu como secretário-geral das Nações Unidas, tendo como fundo um cenário complexo do ponto de vista internacional: continua a crise dos refugiados, a administração Trump alterou os equilíbrios estratégicos e a União Europeia continua a ser um anão político, cada vez mais frágil desde o Brexit e que treme de cada vez que há eleições em países relevantes, como aconteceu agora em França. O deputado social-democrata Paulo Rangel considera que a visita do português surge numa fase de “apagamento” do seu mandato como secretário-geral das Nações Unidas, apenas seis meses depois de assumir funções. Para o socialista Carlos Zorrinho, a presença de Guterres em Estrasburgo representa um momento de “elevada importância política”.

António Guterres vai discursar durante cerca de meia hora no plenário do Parlamento Europeu, ao final da manhã de quarta-feira. Logo a seguir, está prevista uma conferência de imprensa conjunta com o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani. O social-democrata Paulo Rangel admite que o secretário-geral da ONU possa trazer dois temas fortes na agenda: os refugiados, por um lado, já que se trata de assunto “a que está muito ligado”, desde logo pelos seus dez anos de experiência como Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR); além disso, antevê o eurodeputado, Guterres poderá querer chamar a atenção para a “situação de fome em África”, em particular na zona da Somália.

Em Estrasburgo, onde estará pela primeira vez frente aos eurodeputados eleitos pelos 28 Estados da União Europeia, o secretário-geral da ONU poderá aproveitar para “captar aliados” no combate aos diferentes desafios humanitários da atualidade, procurando alcançar diplomaticamente um “atitude mais aberta” para a concessão de apoios.

Ainda assim, a visita, defende Rangel, não se pode desligar das repercussões que a atualidade política em Washington tem tido no seio das Nações Unidas. O eurodeputado social-democrata considera que a presença de Guterres no Parlamento Europeu “é relevante” para o próprio responsável máximo das Nações Unidas, que “está numa situação de um certo apagamento, porque a situação com Donald Trump [na Casa Branca] é bastante diferente difícil”. Em Estrasburgo, Guterres precisa de “criar pontes e laços com a União Europeia” para minimizar a menor disponibilidade da Administração Trump para agendas humanitárias (o que, na prática, se traduz em redução de contribuições para os cofres da organização).

“Mais curioso” está Rangel para ouvir o que Guterres vai dizer da própria União Europeia. Espera-se um “elogio” e o “reconhecimento” dos progressos e matéria de refugiados, por exemplo, mas a verdade é que esse próprio dossiê suscitou (e suscita) tensões entre diferentes Estados e até entre diferentes famílias políticas no Parlamento Europeu (com os eurocéticos à cabeça, avessos à concessão de mais ajuda e defensores de um cerrar das portas externas do continente).

Há, ainda, o tema “Brexit” – ou a incógnita, num momento em que se aproximam o início formal das negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia. Guterres é “um convicto europeísta”, lembra Rangel. “Quero ver como ele aflora o tema”.

Paulo Rangel e Carlos Zorrinho foram eleitos pelos partidos portugueses com maior representação nas instituições europeias. E foram ambos convidados para estar presentes no almoço que o presidente do Parlamento Europeu vai oferecer a António Guterres. A confirmarem-se as previsões de Rangel, Guterres contará com a mão estendida dos socialistas europeus no apoio às Nações Unidas. Para Zorrinho, presidente da delegação portuguesa da família dos Socialistas e Democratas, trata-se de “uma visita com elevada importância política, num contexto em que a UE é uma aliada fundamental para a concretização da agenda da ONU”.

Espero verificar um grande alinhamento entre as prioridades da ONU expressas por Guterres e as prioridades definidas na declaração de Roma no que diz respeito às linhas condutoras de uma globalização sustentável e focada nas pessoas”, diz Carlos Zorrinho.

O socialista não ignora o “simbolismo” da deslocação de Guterres a Estrasburgo. “É um europeu e um português” que, aliás, foi primeiro-ministro de Portugal já em plena fase de integração país da comunidade europeia.

Além do almoço oferecido pelo presidente Antonio Tajani, Guterres participa ainda num encontro com os presidentes das várias comissões do Parlamento Europeu, numa passagem por Estrasburgo que não deverá demorar mais de cinco horas. É a primeira vez que o atual secretário-geral das Nações visita o Parlamento Europeu.