Há qualquer coisa nos elementos que Humberto Coelho levou ao Campeonato da Europa de 2000: um ainda joga (Quim, 41 anos); mais de metade são treinadores, principais ou de guarda-redes (Jorge Costa, Rui Jorge, Paulo Sousa, Sá Pinto, Sérgio Conceição, Pedro Espinha, Abel Xavier, Costinha, Beto, Paulo Bento, Capucho e Secretário); os outros, à exceção de Vítor Baía, Fernando Couto e Figo, estão ligados diretamente ao futebol, seja como dirigentes (João Vieira Pinto, Rui Costa, Pauleta e Nuno Gomes), comentadores (Vidigal) ou empresários (Dimas).

Gorada a hipótese Marco Silva, que assinou pelo Watford, falava-se de dois elementos que estiveram nessa prova há 17 anos, em que Portugal caiu apenas nas meias-finais frente à campeã França no prolongamento, para o FC Porto: Sérgio Conceição e Paulo Sousa. Mas o antigo jogador dos dragões foi sempre a prioridade, num processo longo, que foi sendo tratado com o sigilo possível e que culmina agora com o desfecho “esperado”.

O que se passou desde a saída de Nuno Espírito Santo

A saída de Nuno Espírito Santo, sobretudo depois da derrota por 3-1 com o Moreirense, era uma inevitabilidade. E a rescisão foi célere, também porque na órbita do antigo treinador dos dragões estava já a possibilidade de agarrar o projeto do Wolverhampton, equipa do Championship com fortes ligações a Jorge Mendes. Aliás, foi mais rápido Nuno a assinar pelos ingleses do que os dragões a fecharem o seu sucessor.

Na mesa existiam três rumos possíveis para Pinto da Costa, líder do FC Porto e a pessoa que, no final das contas, assume a decisão do novo técnico. 1) opção por um treinador português que estivesse na Primeira Liga, conhecesse bem o Campeonato português e tivesse alguma experiência, o que remetia para Jorge Jesus e Pedro Martins; 2) escolha de um técnico português que conhecesse também a realidade nacional mas estivesse agora no estrangeiro, como Marco Silva, Paulo Sousa, Carlos Carvalhal ou Sérgio Conceição; 3) seleção de um nome estrangeiro, com currículo e uma mente “não formatada” à realidade portuguesa, como Eduardo Berizzo, Claudio Ranieri, Mircea Lucescu ou Luciano Spalletti.

Sabendo-se que Jorge Jesus ia permanecer no Sporting e tinha uma cláusula de 16 milhões de euros, esta espécie de amor antigo caiu. Tal como Ranieri, que coloca a prioridade noutros campeonatos e projetos. Marco Silva era um nome que agradava à estrutura azul e branca, que até estava livre do acordo com o Hull City e da cláusula anti-rivais que tinha assinado quando saiu do Sporting (termina a 30 de junho deste ano), mas a forma como começaram a sair detalhes na imprensa sobre a duração do contrato e a exigência de garantias arrefeceu o interesse. Quando foi anunciado o vínculo com o Watford, o antigo técnico de Estoril, Sporting e Olympiacos não era prioridade. E Sérgio Conceição estava na frente.

Os dias passavam e o FC Porto foi vivendo à sombra do que ia acontecendo no mundo do futebol. Ele era a possibilidade de Jesus ir para o PSG (que algumas partes ligadas a este processo também iam sabendo por conversas cruzadas… e negando), ele era a transferência milionária de Bernardo Silva, ele era a final da Taça de Portugal. No meio de tudo isto, Sérgio Conceição teve uma última reunião com os responsáveis do Nantes e veio de férias para Portugal, tendo aproveitado para jantar com o empresário e amigo Luciano d’Onofrio e estar com outros amigos ligados ao futebol. Estávamos na última semana de maio. Pouco depois, foi contactado. Hoje, dia 6 de junho, o Nantes anunciou a saída e confirmou a ida para o Dragão. Num timing que também não foi o que se esperava inicialmente.

“Apesar de toda a confiança e apoio que o clube e os seus adeptos manifestaram para com o treinador, e não obstante o contrato até 2020, Sérgio Conceição fez sentir à direção a sua vontade irreversível de se juntar ao FC Porto no imediato. O Nantes não teve outra escolha que não a de aceitar a decisão inesperada, apesar do prejuízo considerável que ela causa“, explicou o clube francês em comunicado no site oficial.

“Merci”. E uma sentida carta de despedida ao Nantes

Pouco depois do anúncio do Nantes, o próprio Sérgio Conceição quebrou o longo silêncio sobre o assunto, deixando uma carta de despedida aos adeptos do clube francês. “Merci” dizia a sua conta oficial do Twitter como introdução para a missiva de dez parágrafos que selou a saída para o FC Porto após seis meses na Ligue 1.

“O meu silêncio ao longo dos últimos dias explica-se, principalmente, pelo facto de estar em férias, junto da minha família. À parte da magnífica experiência que tive convosco nos últimos meses, também tive de gerir a minha ausência com aqueles que, neste momento, necessitam de mim”, escreveu, dirigindo-se diretamente aos dirigentes e adeptos do emblema gaulês. Depois acrescenta os motivos pessoais que o levaram a abandonar França e que diz ter discutido com o presidente do Nantes. “Lamento a novela que se gerou em redor do meu futuro. Antes de tudo isso, a minha situação pessoal fez-me considerar deixar o futebol por uns tempos, uma possibilidade que foi discutida com o meu amigo Waldemar Kita”, escreveu, acrescentando que estará para sempre “grato pela vossa confiança e pelo apoio. Aquilo que dei ao Nantes deixa-me de consciência tranquila”.

“Surgiu a oportunidade de de continuar a trabalhar e a viver o futebol, enquanto posso tomar conta da minha principal prioridade, a mulher que me acompanha desde os 18 anos. Por uma questão de saúde, mais do que nunca terei de estar presente todos os dias”, rematou, a propósito das razões pessoais que já antes tinha invocado.

As três razões fundamentais para a escolha de Sérgio Conceição

Havia uma forte barreira na intenção de assegurar a contratação de Sérgio Conceição: a cláusula de seis milhões de euros que existia no contrato com o Nantes. Mas quando pessoas próximas do treinador assumiram que iriam tentar baixar esse montante, nomeadamente a Doyen, que trabalha com o antigo internacional, o cenário começou a ficar um pouco mais aliviado. Os próprios dirigentes do clube francês percebiam o que estava prestes a acontecer: na semana passada, segunda-feira diziam que era impossível sair, apesar do interesse do FC Porto; na terça-feira queixavam-se que o técnico estaria a forçar a saída do clube; a partir de quarta, já se começaram a resignar. Ou seja, há quase uma semana que estavam preparados para este cenário.

O treinador já tinha abordado questões pessoais que podiam levar à saída e consequente regresso a Portugal, ainda antes da rescisão de Nuno Espírito Santo. Os responsáveis do Nantes, sobretudo o presidente, mantiveram o forte ataque através da imprensa local. Houve outra razão para isso: o líder do clube gaulês está numa situação frágil perante os sócios e adeptos, pelo que este seria um golpe duro até em termos internos. No entanto, Sérgio Conceição saiu mesmo e tudo ficou fechado numa reunião realizada numa unidade hoteleira do Porto na passada sexta-feira. O salário nunca foi problema.

Sérgio Conceição queria o FC Porto, o FC Porto queria Sérgio Conceição. Por três razões: 1) apesar de não ter ainda títulos como treinador, tem feito bons trabalhos por onde passa e destaca-se pela capacidade que tem para unir os grupos de trabalho em torno do objetivo; 2) está familiarizado com o Campeonato português, aposta nos jogadores formados no clube e conhece bem a estrutura azul e branca, sobretudo o que falta em relação aos tempos em que ganhava títulos atrás de títulos pelos dragões; 3) é um treinador com uma personalidade e mentalidade muito próximas da linha comunicacional que o FC Porto adotou ao longo da temporada.

Assim, e nos últimos dias, Pinto da Costa, Luís Gonçalves e Sérgio Conceição, mesmo sem a oficialização do acordo, foram começando a agarrar em algumas pastas mais urgentes: a definição da pré-temporada, os jogos particulares até à estreia oficial, os jogadores dispensados que terão de encontrar colocação e os possíveis reforços. Era uma inevitabilidade que estava presa apenas por detalhes.

O percurso como treinador ainda sem títulos…

Aos 42 anos, Sérgio Conceição leva já cinco projetos na carreira como treinador principal, depois de ter sido adjunto do Standard Liège em 2010/11. Daí seguiu para o Olhanense, onde esteve em 2012 e 2013, até rumar à Académica. A boa temporada em Coimbra em 2013/14 (oitavo lugar, depois da 11.ª posição na época anterior) valeu-lhe o bilhete para Braga, terminando a Primeira Liga no quarto lugar e perdendo de forma inglória a final da Taça de Portugal para o Sporting no desempate por grandes penalidades.

Começando a temporada de 2015/16 sem clube, assinou pelo V. Guimarães no final de setembro, substituindo Armando Evangelista, que tinha subido da equipa B quando Rui Vitória rumou ao Benfica. Com a equipa em situação complicada, conseguiu encetar uma boa recuperação e acabou no 10.º lugar.

Acabou por não ficar na Cidade Berço por opção própria, aguardou por um novo projeto e teve a primeira experiência no estrangeiro ao serviço do Nantes. Que correu bem: entrando em dezembro para o lugar de René Girard quando o conjunto ocupava o 19.º e penúltimo posto da Ligue 1, encetou uma grande recuperação na tabela e acabou na sétima posição. A prestação valeu-lhe uma renovação de contrato até 2020… que ficou no papel.

… após 12 troféus conseguidos como jogador

Formado na Académica, Sérgio Conceição assinou o primeiro contrato pelo FC Porto como júnior, em 1991. Após acabar a formação, foi cedido a Penafiel, Leça e Felgueiras (onde trabalhou com Jorge Jesus) antes de regressar às Antas para dois anos de sucesso. Em 1998, é vendido à Lazio.

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Os cinco anos e meio que passou em Itália como jogador, entre Lazio, Parma e Inter antes de voltar a meio da época de 2003/04 ao FC Porto, acabaram por despertar o gosto pelo treino. Jogou ainda três anos no Standard Liège e outros tantos no PAOK Salónica (pelo meio teve uma curta aventura nos Emirados, pelo Qadsia) antes de assumir a carreira de técnico, como adjunto na Bélgica. Antes, já depois de ter acabado a carreira, teve uma curta experiência como diretor desportivo do PAOK, onde tinha pendurado as botas.

Venceu uma Taça das Taças e uma Supertaça Europeia pela Lazio, além de três Campeonatos, uma Taça de Portugal e uma Supertaça pelo FC Porto e um Campeonato, duas Taças de Itália e uma Supertaça transalpina pela Lazio. Foi ainda vencedor da Segunda Liga portuguesa, em 1994/95, pelo Leça.

Na Seleção principal, esteve presente no Campeonato da Europa de 2000, onde fez o célebre hat-trick frente à Alemanha na fase de grupos (3-0), e no Mundial de 2002, depois do Europeu Sub-21 de 1996.