Paris continua em modo homem, Hugo Costa nunca deixou de estar. Na sexta-feira, já se notava o showroom desfalcado. Muitas peças tinham seguido para o fitting do desfile que, no sábado, trouxe jornalistas e curiosos à Maison des Métallos. A apresentação da coleção voltou a fugir aos cânones do desfile convencional, naquela que foi a terceira vez que o designer do Norte deu provas de talento na cidade de todas as modas, trazido pelo Portugal Fashion.

“A marca está mais madura, mais consistente. Não tendo sido pensada comercialmente, esta coleção tem um sentido comercial mais apurado”, conta Hugo Costa enquanto os modelos posam para dezenas de máquinas fotográficas e telemóveis. “Don’t Fish My Fish!” é o título de uma coleção que tem história por trás, mas também uma mensagem para o mundo da moda. Em pesquisa, o designer encontrou os moken, um povo nómada original da China, mas que hoje se concentra na Tailândia. Um reduto continua a passar oito meses por ano no mar, a viver daquilo que os moken sempre viveram, a pesca. Um estilo de vida ameaçado pelas intenções do governo tailandês em confiná-lo em reservas, mas também pelo sistema de quotas de pesca dominado pelas grandes companhias. Dos moken veio a grande inspiração para a próxima primavera-verão. A base de trabalho de Hugo Costa continua lá, através de materiais mais técnicos, mas o criador quis explorar novas combinações. “Há uma presença dos clássicos, um toque muito mais seco que nos transporta muito para o vestuário deles, muito natural, através do linho e de muito tecido próprio da camisaria”, acrescenta.

E é no salão principal da Maison des Métallos, banhado a luz natural, que tudo acontece. Os 15 modelos, escolhidos num casting feito em Paris, começam por desfilar, contornando a grande instalação que está no centro. A estrutura foi trabalhada pela revista Dsection em parceria com o designer. É branca, tal como a sala, e para criar os compartimentos foram usados 100 metros de rede de pesca, vindos diretamente da Póvoa de Varzim. Durante cerca de duas horas, o aparato fez as delícias das objetivas, a expressividade dos modelos também.

Nos bastidores, Hugo Costa finaliza os coordenados antes do desfile começar. © Gregoire Avenel

“Don’t Fish My Fish!” traz também uma mensagem. “Um recadinho”, como lhe chama Hugo Costa. No grande oceano que é a moda, as grandes companhias não têm quotas definidas por governos, mas engolem o mercado dos pequenos pescadores. “É a comparação perfeita. Quando aparece algo fresco, ou é imediatamente captado por grandes grupos que querem fazer parte do negócio, ou então vemos as empresas de fast fashion a colocarem-no nas lojas, 15 dias depois”, remata, num apelo ao respeito pelo trabalho criativo.

Paris, todo o ano

Na sala, há jornalistas, convidados e Antony Dang, consultor e dono do Idao Showroom, onde as peças de Hugo Costa se mostram à cidade por estes dias. Ele é a personificação dos novos objetivos da marca. “Estamos numa fase de investimento, ainda por cima depois de uma altura em que mudámos de showroom. Perdemos algumas vendas, mas ao mesmo tempo conseguimos juntar-nos à pessoa certa para trabalhar a marca neste momento. Nós andávamos à procura de showroom e descobrimos o dele e ele andava à procura de marcas e já tinha pensado na nossa”, afirma Hugo.

Antony passará a tratar das vendas da marca em Paris, mas, até ao fim do ano, ainda há muito para fazer. “Agora, temos de estar mais em Paris. Paris não pode existir no nosso projeto duas vezes por ano, tem de existir com algumas iniciativas que nos aproximem da imprensa”, explica o autor. Os planos, para pôr em marcha brevemente, envolvem um relações públicas, peças disponíveis para produções, press days e sample sales. Os passos parecem fundamentais para o crescimento da marca, mas longe de Hugo deixar de desfilar no Porto, onde se apresenta duas vezes por ano, no Portugal Fashion.

O Observador viajou para Paris a convite do Portugal Fashion.