O Benfica terminou o estágio na Suíça com uma pesada derrota frente ao Young Boys, por 5-1, depois de uma primeira vitória frente ao Neuchâtel Xamax (2-0). Os jornais de domingo explicavam sobretudo o que tinha corrido mal para um resultado tão desnivelado, mesmo tratando-se de um encontro particular. E a partir daí? Vejamos: só nomes de guarda-redes já vamos em seis; dispensas ou empréstimos mais que muitas (até porque falta ainda intregrarem-se a 100% os internacionais); contratações, além do reforço na baliza, um lateral direito pelo menos. Do futebol em si, pouco; do possível regresso de Mitroglou à equipa, alguma coisa; de Seferovic, quase nada.

Foi dos pés do suíço que nasceu a melhor coisa do jogo entre os encarnados e o Betis: o primeiro golo, aos 15 minutos, com um fantástico chapéu que não deu hipóteses ao guarda-redes sevilhano.

O internacional suíço, originário de uma família de Sanski Most, na Bósnia, que emigrou para a Suíça no final dos anos 80, nasceu em Sursee, onde cresceu com alguns miúdos portugueses. Como contou ao jornal A Bola, “todos lhe dizem que fez uma boa escolha porque, à exceção de um que torcia pelo FC Porto, são todos do Benfica”. Gosta de Ronaldo, mas o seu ídolo é Ibrahimovic. Em miúdo, no Lucerna, o pai dava-lhe cinco francos por golo quando estava ainda nas camadas jovens; agora, depois de ter passado por Grasshopers, Fiorentina (para onde deu o salto depois de ter sido o melhor marcador no Mundial Sub-17, apontando mesmo o golo que decidiu a final), Neuchâtel Xamax, Lecce, Novara, Real Sociedad e Eintracht Frankfurt, chegou ao Benfica.

Haris Seferovic. Andou na lista de Jorge Jesus mas agora é jogador do Benfica

Porquê este mini-mini-mini resumo de quem é Seferovic? Porque vamos ouvir falar muito dele. O avançado chegou a custo zero à Luz, mas mostra uma assinalável empatia com Jonas na frente (foi o brasileiro que fez a assistência para golo, tal como tinha acontecido há uma semana com o Neuchâtel Xamax) e uma percentagem de eficácia boa: em duas hipóteses para alvejar a baliza, fez um golo e viu Adán negar-lhe outro.

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Ficha de jogo

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Betis-Benfica, 1-2

Jogo particular (Algarve Football Cup)

Estádio do Algarve, em Faro/Loulé

Benfica: Júlio César; Pedro Pereira (Aurélio Buta, 46′), Luisão (Lisandro López, 46′), Jardel, Hermes (Eliseu, 86′); Fejsa (Samaris, 72′), Filipe Augusto (Chrien, 86′); Cervi (Diogo Gonçalves, 58′), Rafa (Carrillo, 72′), Jonas (João Carvalho, 58′) e Seferovic (Mitroglou, 72′)

Treinador: Rui Vitória

Golos: Seferovic (15′ e 50′) e Sergio León (33′)

Ação disciplinar: nada a registar

A nível ofensivo, o Benfica fez uma boa primeira parte. Jogar sem Pizzi no meio-campo não é a mesma coisa, até porque o modelo de jogo montado por Rui Vitória está muito assente nas características do internacional português naquela posição ‘8’, mas Jonas e Rafa podiam ter aumentado a vantagem nos 45 minutos iniciais. Voltamos agora ao início do texto e a algo que se falou realmente muito durante a semana: o setor defensivo das águias.

Com André Almeida lesionado, Pedro Pereira teve a oportunidade de reclamar um lugar no plantel e a coisa voltou a não ser brilhante. Não é mau jogador, mas ainda precisa de enquadrar-se melhor na equipa. Provavelmente, de rodar. Ainda assim, e apesar das melhorias em relação à derrota com o Young Boys, o que se voltou a ver foram algumas falhas pouco habituais nos últimos dois anos: demasiado espaço entre linhas, dificuldades nas ocupações de espaços em transições, até algumas lapsos de marcação no seguimento lances de estratégia. Isto no encontro que marcou o regresso da dupla Luisão-Jardel à titularidade.

A reação de Rui Vitória no banco perante a facilidade com que o Betis conseguiu trabalhar o golo do empate, por intermédio de Sergio León, expressou esse descontentamento com a situação.

Muitos guarda-redes têm sido apontados ao Benfica nos últimos dois dias: Mile Svilar (Anderlecht), Vaclik (Basileia), Zoet (PSV), Tatarusanu (Fiorentina) e Consigli (Sassuolo). Um irá provavelmente lutar com Júlio César pela titularidade na baliza encarnada. Mas é na lateral direita que está o principal enfoque dos problemas: não é fácil substituir Nélson Semedo (e tudo o que conseguia dar à equipa) e a solução não parece que vá ser interna. E até na zona central, não era de admirar que pudesse chegar mais um central capaz de ocupar a vaga de Lindelöf (que mais não seja por prudência, tendo em conta possíveis lesões de Luisão e Jardel).

Recomeço da segunda parte, boa troca de bola no corredor central, grande passe de Rafa a explorar a profundidade e a defesa subida do Betis e 2-1 para o Benfica, aos 50 minutos. De quem? Seferovic, claro, que teve uma boa receção orientada para fazer uma cavalgada até à área contrária e rematar colocado para o bis no encontro.

Nas últimas temporadas, a Luz tem sido invadida por uma série de ‘ics’ que fazem diferença, cada um à sua maneira (além de Fejsa, o Midas que ganha Campeonatos em qualquer equipa que esteja): o exímio recuperador Matic, o veloz Markovic, o promissor Jovic, o criativo Zivkovic (Mitrovic e Djuricic não pegaram). Tudo menos um goleador. Pelo menos até esta temporada: chama-se Seferovic. E parece apostado em ganhar lugar na equipa.

E neste pingue-pongue de bom e menos bom, lá voltamos uns parágrafos acima a retomamos a questão defensiva. Porque, após sofrer novo golo, o conjunto de Sevilha passou a esticar-se mais explorando espaços que no Benfica campeão não existiam, fosse em transições, fosse em ataque organizado. Aurélio Buta, jovem da equipa B, foi chamado ao lugar de Pedro Pereira (e esteve bem), Lisandro substituiu Luisão, mas ainda existiram alguns lapsos coletivos que por pouco não deram hipótese a Sergio Léon de empatar de novo o encontro.

Aos 72′, num lance onde foi tirando vários jogadores do caminho pelo corredor central, o esquerdino Fabián Ruíz ainda acertou no poste da baliza de Júlio César. Mas não mais o Betis chegaria com perigo à baliza do Benfica a não ser nos descontos (remate de Nahuel ao lado, aos 90+4′), até porque as substituições promovidas por Rui Vitória a meio-campo deram outra dinâmica à equipa. Seriam mesmo os encarnados a verem uma bola a bater na trave após livre direto de Filipe Augusto (85′). Os espanhóis remataram mais vezes (11-9) e tiveram mais posse de bola (58%-42%), mas não conseguiram inverter o resultado.

Depois da derrota frente ao Young Boys, o Benfica melhorou um bom bocado a nível ofensivo e um bocadito no plano defensivo. Mas só mesmo um bocadito: se este jogo mostrou aquela equipa capaz de fazer golos com relativa facilidade e explorando bem as deficiências contrários (que no caso dos sevilhanos eram os passes em profundidade para as costas da defesa), não conseguiu recuperar, por exemplo, a formação campeã que sofreu apenas um golo em transição rápida durante 34 jogos do Campeonato. E é isso que Rui Vitória vai agora trabalhar.