“Meu nome é Jards Anet da Silva… Ou melhor … Da Selva … Ou pior … Da Silva”. Assim começa Aprender A Nadar, segundo álbum de Jards Macalé, nova tentativa de sucesso, e segundo fracasso de vendas. O nome na identidade do carioca é mesmo Jards Anet da Silva, e pelo Brasil também é chamado de Macao, Maldito e até Batman. Mas é sobretudo conhecido como Jards Macalé, o compositor de “Vapor Barato” e tantos outros sucessos na voz de gente ilustre como Gal Costa. Ou melhor, como o tipo por detrás de Transa, a obra-prima de Caetano Veloso. Ou pior, como o compositor de sambas desordenados e irrequietos, sucessivos fracassos e total incompreensão do público. Ou melhor, vamos perguntar ao próprio como se define, em sua casa. “A melhor definição é… Jards Macalé”, responde de sorriso maroto ao Observador no Rio de Janeiro, garantindo que independentemente da designação, vai estar dia 25 em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois.

“Alfama ainda está lá?”, pergunta com saudade, lembrando a única visita a solo português, em 1971, depois de gravar com Caetano Veloso o álbum iluminado da carreira do baiano. “Fui de convite para Londres, não de refúgio como Caetano e Gil, mas a coisa já estava insuportável no Brasil”, explica sobre a histórica gravação de Transa. “Fiz a direção musical e alguns arranjos, o disco foi totalmente pensado como de grupo.” Enquanto Caetano se concentrava em traduzir a solidão em disco e Jards abençoava as canções de refúgio com o distinto toque de violão, uma baiana tinha ficado com a ingrata missão de tropicalizar sozinha o Rio de Janeiro. “O meu grande parceiro e amigo Wally Salomão fez com Gal Costa a conceção do Fa-Tal e sugeriu ela gravar nossas canções, que acabaram vendendo muito.” Nesse álbum, Gal encontrou também sua maior expressão artística, tornando as músicas de Jards reconhecidas por todo o Brasil, e pressionada até hoje a cantar sempre “Vapor Barato”, “Hotel das Estrelas” ou “Mal Secreto”. Macalé ainda nem tinha um disco em nome próprio e já estava diretamente envolvido em dois momentos paradigmáticos da música popular brasileira. Sucesso garantido, certo? Errado. “Eu nunca pensei em fazer a música para o sucesso”, justifica. “Durante toda a minha carreira tive dificuldade para conseguir gravar e ser acessível, e no entanto, é tudo acessível.”

Nos anos 70, Jards lançou a solo três álbuns pilares para entender a periferia da música brasileira, um nicho experimental onde pessoas melancólicas cantam melodias quebradas, e foi apenas nas vozes de mulheres que essas canções receberam alguma consideração. “Tenho um prazer ainda maior por ver esses canções terem virado sucessos em vozes de mulher”, garante, lembrando não apenas Gal, mas também Maria Bethânia, Clara Nunes e Nara Leão. Faz sentido, foi na voz de sua mãe que teve o primeiro contacto com o mundo estranho do cancioneiro brasileiro, subversivos de uma época esquecida, como Gordurinha e a sua amante analfabeta, que Jards depois revisitou: “Ela é bonitona, bem feita de corpo/E cheia da nota, mas escreve gato com J/Escreve saudade com C”. “A minha mãe tocava piano, tinha excelente sentido de harmonia e cantava todo o reportório da Rádio Nacional na década de 30 a 50”, conta sobre a infância na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio. Rodeado por música, absorvia o jeito supremo do carioca se expressar, de ouvido colado às paredes. “Havia um morro atrás de minha casa, o morro da Formiga, que tinha batucadas constantes, e meu vizinho era Vicente Celestino, um dos grandes cantores da época, vivia completamente dentro da música.”

Jards Macalé é conhecido como o compositor de inúmeros sucessos cantados por gente ilustre. © André Seiti

“A vontade de pegar violão foi aos 15 anos de idade”, conta sobre o período de adolescência em Ipanema. “A vizinha tinha aulas de violão e deixava a porta aberta, quando terminava as lições pedia o violão emprestado e repetia o que ouvia.” Por ali começou o seu grande romance com o instrumento mais respeitado do Brasil, decidiu viver daquilo e começou uma formação musical na prestigiada Pro Artes, com grandes virtuosos como César Guerra-Peixe. “Mas minha grande formação começa com Severino Araújo da Orquestra Tabajara, que mostrou as primeiras orquestras”, explica com grande respeito, “e me disse um dia, ‘você gosta de música meu filho? Então vai ser copista da Tabajara’”. Na mão aprende essa coisa de ler e escrever música dentro das catacumbas do Theatro Municipal, meia dúzia de centavos por compasso e um punhado de ideias que o levariam para a origem da MPB como a conhecemos.

Olha que coisa mais linda, deve ter pensado Jards quando entrou na casa do novo amigo, Dori Caymmi, filho de Dorival. “Era a febre da bossa e estavam lá todo dia Baden Powell, João Gilberto, Os Cariocas, Tom Jobim, Vinicius…”, recorda animado, “então comecei batendo na porta das pessoas e pedindo para assistir os ensaios”. Além de ser o amigo que todos queremos ter, Dori era ainda um excelente violinista e foi um dos músicos que começou o espetáculo Opinião de Augusto Boal, famoso pelo texto contra a ditadura militar, e a voz da charmosa protagonista, Nara Leão. “Acabei pegando esse trabalho do Dori e, coincidentemente, a Nara Leão fica cansada daquilo e chega diretamente de Salvador a Maria Bethânia, com 17 anos, que fica hospedada lá em casa”, diz de olho arregalado. Quem conhece a história da MPB, sabe que este é um momento de viragem, quando esses baianos ganham coragem de viajar para a cidade maravilhosa, conceber movimentos artísticos e, no caso de Jards, acompanhar Maria Bethânia no Opinião e depois, no quase tropicalista Recital na Boite Barroco. “Fui tropicalista sem ser tropicalista”, confirma.

“Não sei até hoje quem inventou de colocar essa música no Festival Internacional da Canção”, nos conta o músico conhecido também por Batman, apelido que colou depois de fazer a prestação mais infame possível num concurso televisivo, em 1969. “O José Carlos Capinam fez uma paródia com o gibi do Batman”, explica sobre “Gotham City”, uma das primeiras parcerias com o poeta, “e ele comentava o panorama da ditadura militar através da cidade de Gotham”. Com Rogério Duprat, o pai sinfónico do tropicalismo, e os psicadélicos Os Brazões, entrou no palco do Maracanãzinho vestido de capa e com a devida introdução super heróica de na na na na na. Imagine se em vez de “Amar Pelos Dois”, Salvador Sobral tivesse aparecido em Kiev aos gritos histéricos de, “Cuidado! Há um morcego na porta principal”. “O apresentador disse: ‘agora com vocês Jards Macalé, um dos maiores violinistas do Brasil’, e entra aquela gente estranha com o tema do Batman, levei a vaia logo ali”, diz sobre o seu grande momento de ribalta. “Dormimos anónimos e acordámos famosos, no dia seguinte só dava primeira página de jornal!”

Além de Capinam, Wally Salomão foi o outro poeta que mais colaborou com Jards, peça fundamental para o álbum homónimo de 1972. Na bagagem estavam as colaborações com Caetano, Gal, Bethânia, e ainda a exposição nacional de “Gotham City”, e com os seus colegas letristas começou a desenvolver o esperado primeiro álbum. O resultado foram canções de uma beleza desconcertante, total experimentação sonora do ritmo brasileiro, aos soluços, altos e baixos, de trás para a frente, em completo movimento liderado pela voz única de Macalé. Não era bossa, nem samba, nem rock, ou como ele próprio canta em “Mal Secreto”, “não preciso de gente que me oriente”. Além dessa indefinição de corpo – “é Jards Macalé”, nos sugere sempre o próprio – as letras eram quase anti cariocas, de uma melancolia e tristeza profunda. “Aquele momento, eu tinha uma melancolia muito grande, era um período muito pesado, parecia que as coisas não tinham saída’, confessa, “mas depois essa melancolia se revelava como energia, uma espécie de reação para continuar melancólico”. A energia se traduz melhor em “Let’s Play That”, com letra do tropicalista Torquato Neto, que impõe: “Vá, bicho, desafinar o coro dos contentes”. O álbum não era propriamente de digestão fácil e em pouco tempo foi retirado do catálogo, sendo hoje considerado imprescindível. Este primeiro capítulo triunfal vai mesmo ser a base do concerto em Lisboa, um trio com Pedro Dantas no baixo, Maurício na bateria e Zé Vito na guitarra (que vai inclusivamente fazer um concerto a solo no dia 27, no Café Tati, em Lisboa).

“Meu segredo é que sou um rapaz esforçado”, canta também em “Mal Secreto”, outra parceria com Wally Salomão de 72. A insistência e esforço levam os dois amigos a criar um conceito para um segundo álbum mais ambicioso, a “morbeza” romântica. “Queríamos apresentar toda a coisa melancólica dos sambas canções, e um exemplo do que queríamos fazer é o Vicente Celestino, que cantava, ‘eu ontem rasguei teu retrato em frente aos pés de outra mulher’, uma coisa pesada e exagerada”. Nesse estranho e fascinante álbum, Aprender a Nadar, Jards se apresentava, “Distinto público, vou ficar aqui exposto a audição pública como: o faquir da dor”, para depois suceder várias vinhetas de ruídos e ideias dispersas que ficam pairando no ar. “Os programas de rádio tinham muitas vinhetas, sobretudo nos comerciais, e eu queria pegar isso e dar informações pequenas, imediatas, cápsulas de música.” No lançamento do álbum, Jards decidiu mergulhar dentro da inóspita baía de Guanabara, numa espécie de boicote, que de certa forma o álbum já fazia, quando no fim, e depois de muito drama de “morbeza” romântica, acaba tudo às gargalhadas. “O Jorge Mautner dizia que eu não facilitava, que de repente entortava o violão e as harmonias”, justifica sobre o segundo fracasso de vendas, “mas meu comportamento pessoal com as gravadoras também não era fácil”.

O último álbum dos anos 70 foi Contrastes, desta vez refletindo na génese do samba a velha dualidade de alegria e tristeza. “Na capa tem uma índia branca e um mulato que sou eu, era o branco e preto, um caldeirão musical de contrastes, que faz parte da conceção do próprio Brasil”, define, “não o contraste de embate, mas a riqueza das diferenças”. A letra de Ismael Silva, que dá nome ao disco, define na perfeição: “Existe muita tristeza/ Na rua da alegria/ Existe muita desordem/ Na rua da harmonia”. Além de Ismael, retornaram os parceiros de sempre, como Wally, concebendo a génese conjunta que faz uma canção de Jards. “O segredo para uma boa parceria é empatia e uma profunda amizade, reconhecimento um do outro, e muita leveza”, explica. “Quando Wally trouxe “Vapor Barato”, ele disse, ‘vê lá se isso dá pra musicar’, e em 15 minutos estava pronta”, conta, “e essa coisa louca teve sucesso inicial com Gal, e sumiu, depois pegaram no filme Terra Estrangeira e sumiu, e depois o Rappa fez sucesso novamente”.

No caminho ainda teve uma longa relação com o cinema brasileiro, fez a banda sonora para os criadores do Cinema Novo, como Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, e musicou projetos de grandes artistas plásticos — ainda hoje podemos ver em exposições a obra de arte “Macaléia”, homenagem de Hélio Oiticica. Porém, para a imprensa e editoras, o destino de Macalé já estava selado, e tinha um nome: maldito. “As gravadoras não sabiam como nos catalogar dentro daquele cenário mais conservador de tocar e apresentar, não era brega, nem romântico, então fizeram uma marca de discos barata que baixava o custo de produção”, diz sobre a sua carreira e de colegas como Mautner, Luiz Melodia e Itamar Assunção. “Nos chamavam os malditos, que não eram aceites pelo mercado.” Para Jards, a glória até podia ter chegado em 1973, quando organizou uma espécie de Live Aid brasileiro, chamado Banquete dos Mendigos, com toda a gente imaginável, desde Chico Buarque a Milton Nascimento. Obviamente, a ditadura não deixou o álbum ser lançado. “A censura segurou e foi proibido em todo território nacional”, lamenta, sendo lançado na íntegra somente em 2015. “Era um período em que as pessoas eram estranhíssimas, não sabíamos como poderíamos agir, era uma repressão diária física e psíquica.” A única hora sagrada era na praia, escondidos por Ipanema. “Eram as dunas do barato, um território livre para tomar ácido e trepar o diabo”, garante, “mas depois saíamos pra calçada e começava a depressão”.

Os anos 80 foram de quase total obscuridade, entrando de tal forma no personagem anti-carioca, que canta “vamos à praia pegar conjuntivite”. Porém, aos poucos, sobretudo com Let’s Play That (1994), parceria com Naná Vasconcelos, começou a ressurgir no cenário e a encaixar no sistema atual, tocando em todo um lado um pouco e lançando álbuns em ritmo paciente. Hoje, é reverenciado pela nova geração de experimentais e em comunhão compartilham os mesmo palcos, seja Ava Rocha, Metá Metá, Romulo Fróes ou Ricardo Dias Gomes, que faz a abertura nesta estreia lisboeta. “O tempo ficou a meu favor”, garante Macalé satisfeito. No contra tempo está somente o Brasil de 2017, mergulhado numa profunda crise social, económica e política. “Estamos vivendo um cenário horrível, e infelizmente a história do Brasil ainda não se resolveu no sentido da sua própria independência.” Alguma sugestão? “O lema positivista de Auguste Comte era amor, ordem e progresso, mas quando fizeram a república brasileira cortaram a palavra amor e sobrou só ordem e progresso”, esclarece. “Podemos mudar isso e, quem sabe, nascer sob a égide de uma bandeira com amor pode melhorar um pouco nossa história.”

“Meu nome é Jards Anet da Silva”. E Macalé? Esse apelido recebeu nas jogatanas do bairro, que segundo consta, jogava quase tão mal como o Tião Macalé, conhecido nabo do Botafogo. Depois recebeu o apelido ainda mais perverso de Maldito. No fim, aceitou os dois. Um rápido Google demonstra que esse tal de Tião, camisa 8 do Botafogo, foi duas vezes campeão e até internacional da canarinha, ou seja, não podia ser assim tão nabo, quem sabe, até seria um craque maldito, jogador fundamental do miolo das peladas brasileiras, como o nosso Jards Macalé.