José Sócrates sugeriu a Paulo Azevedo, presidente da Sonaecom e filho de Belmiro Azevedo, que o diário Público fosse vendido ao grupo Lena. Na verdade — segundo contou Paulo Azevedo aos investigadores, no âmbito da Operação Marquês em 2015, numa conversa revelada esta quinta-feira pela revista Visão –, o então primeiro-ministro disse apenas ao dono do Público que tinha um “excelente comprador” para o jornal, mas que ele teria de falar com Armando Vara. Seria então depois o vice-presidente do BCP que lhe iria indicar o nome. O comprador era o Grupo Lena, que está no centro da investigação judicial ao ex-primeiro-ministro.

Paulo Azevedo contou ainda aos investigadores, segundo a revista, que José Sócrates lhe ligava várias vezes “zangado” com notícias que saiam no jornal Público. O presidente da Sonaecom respondeu que não se intrometia nas questões editoriais. Já quanto à venda, confessou ao primeiro-ministro que estava interessado, desde que o comprador tivesse “credibilidade” e “independência política“. Isto porque ter um jornal já não se enquadrava na estratégia do grupo.

O filho de Belmiro de Azevedo ainda foi à sede do BCP falar com Armando Vara, embora tenha achado desde logo “muito estranho” ser o ex-ministro socialista o intermediário. Este indicou-lhe então o Grupo Lena e Paulo Azevedo nem quis ouvir mais, já que achava que o mesmo não tinha a credibilidade que desejava, nem garantia a continuidade da independência do jornal.

O procurador Rosário Teixeira, conta ainda a Visão, terá insistido com Paulo Azevedo para perceber porque a ponte com o Grupo Lena seria feita com Vara. O líder da Sonae ainda terá sugerido que seria, eventualmente, por ser o BCP a financiar a operação, mas como o assunto parou ali, nada mais soube.

Aos investigadores, Paulo Azevedo não terá situado no tempo o momento, mas terá sido entre 2008 e 2009, já que foi o período em que Vara esteve no BCP. Ora, nesse período o Público escreveu várias histórias desagradáveis para o primeiro-ministro. Os projetos na Guarda (onde Sócrates teria assinado trabalhos de outros técnicos), a compra casa no Edifício Heron Castillo, na rua Braamcamp, em Lisboa, por apenas 235 mil euros (que rondaria metade do preço de mercado daquela casa). Isto claro, depois do caso ter divulgado o caso da chamada licenciatura em 2007.

A Visão falou com Paulo Azevedo e José Sócrates. O empresário não quis dar mais detalhes, o antigo primeiro-ministro disse ser falso que “alguma vez” tivesse sugerido a Paulo Azevedo que falasse com Armando Vara para vender o jornal Público.