A penúltima etapa da Volta a Portugal teve dois vencedores inequívocos (Raúl Alarcón e Amaro Antunes) mas a história não ficou por aí. Tanto que, esta terça-feira, dia em que Alarcón confirmou a vitória na mítica prova nacional e Gustavo Veloso fechou com um triunfo no contrarrelógio, ainda se comentava sobretudo o que se passara na véspera. E sobretudo numa perspetiva de futuro: como será possível combater o domínio da W52 FC Porto no pelotão nacional que foi ainda maior este ano? É que, até nos últimos 20 quilómetros de prova, os dragões conseguiram colocar cinco corredores no top-10 da etapa…

Alejandro Marque, um dos possíveis chefes-de-fila do Sporting Tavira depois da lesão de Joni Brandão, fez ontem o primeiro sprint nas palavras. O antigo vencedor da Volta, em 2013, que descolou dos primeiros lugares em Fafe e tem corrido com uma fratura numa costela, acusou Amaro Antunes de ter traído o companheiro de equipa na W52 FC Porto Gustavo Veloso. “Eu ia ao lado do Gus [Gustavo Veloso] quando ele pediu para baixarem o ritmo e, logo a seguir, o Amaro atacou. O Amaro traiu o Gustavo”, atirou o espanhol contratado pelos leões este ano.

Marque sabe do que fala. É certo que também não deixou de fazer críticas à inércia que equipas como a Efapel ou o Boavista terão revelado na tentativa falhada de perseguir a dupla azul e branca após o ataque, mas o discurso entroncou sobretudo no episódio entre Veloso, um dos seus melhores amigos e com quem preparou a Volta na Galiza, e Amaro Antunes, companheiro de equipa no ano passado na LA Alumínios.

E também Gustavo Veloso, mesmo reconhecendo que teve um dia mau, também se queixou dos aspetos negativos de ter sempre os holofotes apontados a si. “Não é fácil liderar uma equipa sem ser o líder da corrida, levar com a pressão para retirar a pressão a outros, pensar na equipa sempre antes dos objetivos pessoais. No final, tudo isso pesa e já são cinco anos seguidos com essa pressão. Tudo afeta, sou humano e perdi a Volta”, comentou.

Rinaldo Nocentini acabou a etapa a dizer que “os dois da frente estavam noutra categoria”. “A correr como correram hoje podiam estar no World Tour”, salientou. À noite, o italiano que tem sido de novo o melhor do Sporting Tavira, deixou algumas críticas no ar… sem querer ser polémico. “Hoje ‘parada’ dura… Estava muito bem, mas há uns ovnis que voam. Fiz quinto, mas desci para a quarta posição na geral. Prefiro não comentar porque não quero parecer polémico mas convido-vos a rever a etapa. Sinceramente, estou sereno porque em certos compromissos eu não vou”, escreveu na sua conta oficial do Facebook.

Buonasera … oggi tappa tosta.. stavo molto bene, ma ci sono degli UFO che volano ????… ho fatto 5 .. ma sono sceso in…

Posted by Rinaldo Nocentini on Monday, August 14, 2017

Amaro Antunes, o homem que “rebocou” Raúl Alarcón para o triunfo da Volta e que venceu a nona etapa, rematou com uma resposta aos críticos. “O Nuno [Ribeiro] dizia-nos que havia um minuto de vantagem e que tínhamos de apertar porque o entendimento não era o melhor lá atrás e chegámos aos cinco minutos, que não estava à espera porque os rivais estavam fortes. Muitas pessoas diziam que a equipa estava desunida, mas provámos uma vez mais que quando chega a altura da verdade, estamos unidos”, argumentou.

Gotzon Udondo, da Euskadi, foi o primeiro corredor a sair para o contrarrelógio de 20,3 quilómetros de hoje em Viseu, mas as grandes decisões ainda iriam demorar quase duas horas. Gustavo Veloso, que queria marcar tempos para o camisola amarela e terminar da melhor forma a Volta, deu mais de 40 segundos de avanço a Damien Gaudin (26.00,72), que na altura tinha o melhor registo do dia. E acabou por ser o melhor da etapa, com 15 segundos a menos do que o companheiro de equipa Raúl Alarcón. Ao todo, a W52 FC Porto ganhou seis das dez etapas da competição, sintomático do domínio dos azuis e brancos.

Alejandro Marque terminou na terceira posição mas, na outra luta do dia (quiçá a única dúvida em termos de classificação), o Sporting Tavira voltou a não cumprir os objetivos, com Rinaldo Nocentini a falhar o assalto ao terceiro lugar que se manteve com Vicente de Mateos, do Louletano-Hospital de Loulé.

“O resultado neste crono mostra que fiz tudo bem, mas basta ter um dia mau para se perder e também é isso que torna o ciclismo tão bonito. Mas fiquei feliz pelo Raúl, é quase um filho em termos desportivos”, disse Gustavo Veloso na flash interview da RTP. “São palavras importantes vindas dele. É um grande companheiro mas sobretudo um grande amigo. Nunca competimos contra nós próprios, tentámos fazer o melhor possível. No final, conseguimos o mais importante que é a vitória”, atirou o vencedor da prova, Raúl Alarcón.

O FC Porto conseguiu a 14.ª vitória individual na Volta a Portugal (Fernando Moreira, em 1948; Dias dos Santos, em 1949 e 1950; Moreira de Sá, em 1952; Carlos Carvalho, em 1959; Sousa Cardoso, em 1960; Mário Silva, em 1961; José Pacheco, em 1962; Joaquim Leão, em 1964; Joaquim Sousa Santos, em 1979; Manuel Zeferino, em 1981; Marco Chagas, em 1982; Rui Vinhas, em 2016; e Raúl Alarcón, em 2017) e somou o 15.º triunfo por equipas (1948, 1949, 1950, 1952, 1955, 1958, 1959, 1960, 1964, 1969, 1979, 1980, 1981, 2016 e 2017).

Uma nota final para Rui Sousa, que fez esta tarde os últimos 20 quilómetros da carreira. Saiu pela porta grande, com um triunfo em Fafe antes de arrumar de vez as bicicletas e recandidatar-se à Junta de Freguesia de Barroselas e Carvoeiro, no concelho de Viana do Castelo, mantendo-se também como empresário de sucesso que comercializa aves exóticas. Aos 41 anos, quando cruzou a linha da meta e ergueu a bicicleta, recebeu a maior salva de palmas do dia. E merecida: é de Rui Sousas que se escreve a história da Volta a Portugal. “Há uma sensação de tristeza por sair deste grande espetáculo mas de satisfação porque, ao fim de 20 anos, senti o respeito do público e dos adversários”, disse o corredor da Rádio Popular Boavista no final.

A classificação da décima e última etapa da Volta a Portugal foi a seguinte:
1.º Gustavo Veloso (W52 FC Porto), 26.00
2.º Raúl Alarcón (W52 FC Porto), a 15s
3.º Alejandro Marque (Sporting Tavira), a 18s
4.º António Carvalho (W52 FC Porto), a 24s
5.º Vicente de Mateos (Louletano-Hospital de Loulé), a 36s
6.º Ricardo Mestre (W52 FC Porto), a 41s
7.º Damien Gaudin (Armée de Terre), a 44s
8.º Théry Schir (Vorarlberg), a 53s
9.º Rinaldi Nocentini (Sporting Tavira), a 57s
10.º Amaro Antunes (W52 FC Porto), a 1.07m

Assim, o top-10 da Volta a Portugal em bicicleta de 2017 ficou assim ordenado:
1.º Raúl Alarcón (W52 FC Porto), 41.46.14
2.º Amaro Antunes (W52 FC Porto), a 1.23m
3.º Vicente de Mateos (Louletano-Hospital de Loulé), a 5.25m
4.º Rinaldo Nocentini (Sporting Tavira), a 5.54m
5.º Alejandro Marque (Sporting Tavira), a 7.10m
6.º António Carvalho (W52 FC Porto), a 7.25m
7.º João Benta (Rádio Popular Boavista), a 7.54m
8.º Henrique Casimiro (Efapel), a 8.11m
9.º Sérgio Paulinho (Efapel), a 8.36m
10.º Krists Neilands (Israel Cycling Academy), a 9.35m

As restantes classificações desta Volta a Portugal de 2017 foram as seguintes:
Classificação por equipas: W52 FC Porto
Classificação da montanha: Amaro Antunes (W52 FC Porto)
Classificação dos pontos: Vicente de Mateos (Louletano-Hospital de Loulé)
Classificação da juventude: Krists Neilands (Israel Cycling Academy)