Videojogos

“Uncharted: O Legado Perdido”. Uma aventura esculpida em ouro

"Uncharted: O Legado Perdido" chega às lojas no dia 23 de agosto mas o Rubber Chicken já o jogou de uma ponta à outra. O veredicto é simples: é o melhor jogo deste verão.

Uncharted: The Lost Legacy/ Sony Interactive Entertainment

A atual proximidade dos videojogos com o cinema é inquestionável. As semelhanças de linguagem e de lógicas de produção, associadas à aprendizagem que mais de cem anos de cinema podem trazer a um meio “adolescente” como os videojogos, permitem que exista uma espécie de descendência quase direta entre uma forma de arte e a outra. A exímia cinematografia de Uncharted: O Legado Perdido é um dos maiores e melhores exemplos desta ligação.

Há dois anos falávamos da “legitimidade” de “entrar” numa série através de um spinoff e não do “ramo principal”, seja nos videojogos ou na televisão. A realidade é que este Uncharted: O Legado Perdido é um stand-alone em linha de continuidade com Uncharted 4, mas a fazer prova de que é possível explorar este mundo exclusivo da PlayStation sem o protagonismo de Nathan Drake.

O facto de esta ser uma série com alguma longevidade pode assustar alguns iniciados, que evitam mergulhar naquilo que imaginam ser “o meio da história”. Mas tal como Infamous Second Son: First Light provou que um spinoff forte pode criar interesse para conhecer a história principal, também O Legado Perdido, que é o primeiro Uncharted que joguei até agora, criou uma verdadeira vontade de conhecer toda a série que lhe antecedeu.

Desde os primeiros minutos que a equipa da Naught Dog nos mostra que não precisamos de ter jogado os anteriores para usufruir e compreender a totalidade deste jogo. A forma como as duas protagonistas nos são apresentadas está magistralmente bem conseguido e gera uma empatia instantânea com as personagens.

Em especial Chloe Frazer, a “verdadeira” protagonista no sentido em que é, das duas, a única que controlamos, e que está soberbamente interpretada pela atriz Claudia Blake. Chloe está tão bem construída dentro do seu tom mordaz de ladra/caçadora de tesouros com óbvios problemas emocionais na relação com o seu pai, um arqueólogo que dedicou a sua vida ao estudo do império Hoysala, que é uma verdadeira show stealer desde que aparece no ecrã.

É na multiplicidade interpretativa de Chloe que reside a nossa ligação com ela, entre a sagacidade típica de uma caçadora de tesouros e a mordacidade de Harrison Ford com o seu Indiana Jones (onde o género se inspira, de forma óbvia) e o contraste com a seriedade e rigidez militarística da sua companheira de armas, Nadine Ross, interpretada por Laura Bailey — que foi uma das antagonistas de Uncharted 4. A completar o elenco está o antagonista, Asav, interpretado pelo ator Usman Ally que, com a sua representação, consegue levar o vilão cliché de filme de ação para algo mais substancial.

A apresentação visual de Uncharted: o Legado Perdido é de cortar a respiração, mesmo sem uma PS4 Pro e “apenas” a jogar numa TV HDR (ainda que já tenhamos visto a diferença de jogar em 4K, com um resultado exponencialmente mais impressionante), com detalhes verdadeiramente deslumbrantes em todos os pequenos momentos que compõem esta exploração da cultura indiana. E quem se surpreende com as maravilhas visuais não somos apenas nós, também Chloe reage ao que vê com deslumbramento, permitindo-nos captar esses momentos no seu smartphone.

Os diálogos e as interações entre as personagens são dos momentos mais inteligentes e deliciosos do jogo, ultrapassando o mero enchimento de tempos mortos, fazendo dos muitos períodos que decorrem durante a condução verdadeiras linhas de crescimento de personagem e da relação entre elas. Como indicado na nossa entrevista, se tivermos de interromper um diálogo porque existe uma cena de ação, quando as personagens estiverem novamente em “tempos mortos” de condução, uma delas irá retomar a conversa com um “eu estava a falar de quê?” ou um “pois, estavas a falar do teu pai”, entre muitas outras formas perfeitamente naturais de diálogo, que apesar de scripted soam perfeitamente fluídos e coesos para cada situação.

Com os conhecimentos da cultura Hoysala de Chloe e da busca das duas personagens pela mítica Presa de Ganesh, existem uma série de momentos pedagógicos em que Chloe “ensina” a Nadine características artísticas da cultura Hoysala, ou mesmo explicações de esculturas através das narrativas mitológicas da cultura indiana. Todos estes momentos são tão naturais quanto dar um passo em frente, e a forma como surgem no jogo aproximam do cinema todas estas interações entre as duas personagens, existindo silêncios apenas quando e onde eles fazem sentido.

A fluidez de movimentos de todos os personagens, em especial Chloe e Nadine, é verdadeiramente surpreendente. Seja nas muitas sequências de escaladas com momentos de tensão de paredes que desabam ou em saltos quase sobre-humanos (com referências pelo próprio elenco) que parecem dobrar as leis da Física, mas em especial nas sequências de ação, seja de combate furtivo ou de luta corpo a corpo, em que a miríade de movimentos interpretados pelos personagens pertencem ao espectro da coreografia cinematográfica.

Sendo este um jogo de ação e aventura, as sequências de batalha contra os insurgentes revolucionários indianos que procuram a Presa de Ganesh levam a muitas sequências de troca de tiros que, assim como grande parte das sequências de ação e do tom de todo o jogo, bebem dos bons filmes do género dos anos 90. É claro que podemos ter uma postura mais silenciosa e eliminar os nossos inimigos de forma furtiva, algo que o layout da selva indiana de todo o jogo permite e, independentemente da forma como “atacamos” o combate, Nadine (controlada pelo computador) auxiliar-nos-á, e virá ao nosso socorro se alguém nos agarrar, ou avisar-nos-á da presença de algum inimigo que não estejamos a ver.

A forma como a personalidade das personagens interfere na ação é curiosa, tanto na impaciência de Nadine quando demoramos a resolver os puzzles dos templos Hoysala, lembrando-nos ora que estamos a demorar muito ou que já experimentámos determinada solução, seja pela preocupação de Nadine para que encontremos cobertura do fogo inimigo.

Uncharted: O Legado Perdido é facilmente jogado de uma ponta à outra em menos de oito horas, mas a sua duração já era conhecida até pelo preço, 39,99€. A contribuir para isto é que foram retirados todos os elementos habituais para “encher chouriços” que a maioria dos jogos mainstream hoje têm, e o número de objetos colecionáveis é relativamente curto. É claro que a componente multiplayer (para quem gosta dela) estende esta duração virtualmente até ao infinito, mas é a experiência da história que o torna no grande jogo deste verão.

Este é mais um passo em frente nos videojogos, em especial no género aventura e ação. Com uma linhagem cinematográfica e com duas soberbas protagonistas, nomeadamente Chloe Frazer, que com a empatia que cria tem todas as condições para continuar uma série por si só. Com uma apresentação visual deslumbrante e típica das criações da Naughty Dog, num jogo que nos prende do início ao fim e sem fait divers para preencher espaços vazios, Uncharted: O Legado Perdido é mais do que obrigatório para qualquer detentor de uma PS4.

Ricardo Correia, Rubber Chicken

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