Esta é a história de uma rivalidade que marcou o final da década de 70 e o início dos anos 80 no mundo do ténis e do desporto em geral. Mas esta é também a história de uma rivalidade que tinha tudo para nascer de dentro (jogadores) para fora (sociedade), mas que nasceu de fora para dentro, via imprensa e fãs. E a história de como duas figuras que eram a antítese nos courts e completos opostos como pessoas se tornaram grandes amigos até hoje.

Foi em Wimbledon, em 1980 e 1981, que Björn Borg e John McEnroe disputaram duas das mais emblemáticas finais de sempre em Grand Slams. No primeiro jogo, o sueco conseguiu o quinto título consecutivo depois de ter perdido o tie break do quarto set por inusitados 18-16, mas ter ganho o decisivo set por 8-6; na partida seguinte, o americano vingou a derrota ganhando o primeiro de três troféus na relva sagrada do ténis. E foi também em Wimbledon que, em 2011, três décadas depois, apresentaram a coleção de roupa interior ‘Bjorn loves John’. Que era, em resumo, mais uma faceta do duelo agora com dois grandes amigos que desenharam dois boxers cada para ver quem vendia mais, com parte das receitas a reverterem para a Fundação John e Patty McEnroe.

Agora, os dois ícones voltam a estar em lados opostos na primeira edição da Laver Cup, uma espécie de Ryder Cup do ténis entre Europa e o resto do Mundo que se começou a disputar esta sexta-feira na O2 Arena, em Praga, na Rep. Checa. E com nomes como Rafael Nadal, Roger Federer, Alexander Zverev, Marian Cilic, Dominic Thiem, Tomás Berdych (Europa), Sam Querrey, John Isner, Nick Kyrgios, Jack Sock, Denis Shapovalov e Frances Tiafoe (Resto do Mundo). Mas Borg e McEnroe, os capitães dos dois conjuntos em ação, continuam ainda a ser figuras incontornáveis no mundo do ténis.

Björn Borg e John McEnroe, os capitães das equipas da Europa e do resto do Mundo na primeira Laver Cup

Tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, foram durante anos o bom e o mau, o herói e o vilão, dependendo da visão e da opinião de cada um. E a sua grande amizade é mesmo a prova de como os opostos se podem atrair.

Björn Borg era o gelo (e ainda hoje é um pouco, como se percebe nas suas intervenções públicas), a parte mais racional deste choque de titãs. Mas também ele tinha latente uma parte muito emocional, como se viu com a prematura retirada em 1983. Nascido em Estocolmo há 61 anos, era fascinado por uma pequena raquete de ouro que o pai tinha após ganhar um torneio de ténis de mesa e tornou-se um dos maiores tenistas de sempre, com seis vitórias em Roland Garros e cinco em Wimbledon (perdeu as quatro finais do US Open que disputou e nunca passou da terceira ronda no Open da Austrália). Ganhou 64 títulos e foi número 1 do ranking.

Björn Borg começou a ganhar Grand Slams aos 17 anos e venceu Wimbledon cinco vezes seguidas até à derrota em 1981

O sueco tinha um estilo de jogo cerebral, calculista, com um topspin eficaz que inspirou todas as gerações futuras. Era tudo menos rebelde, mas o cabelo loiro e comprido fazia as delícias de inúmeras fãs que chegavam a invadir o campo só para poderem abraçá-lo. Após a reforma, teve uma vida de excessos com episódios envolvendo drogas e, segundo a ex-mulher Loredana Bertè, uma tentativa de suicídio. Quase se afundou na bancarrota mas recuperou, recompôs-se e tem hoje a sua marca de roupa, estando ligado a inúmeras iniciativas humanitárias. E com um episódio curioso: quando pensou em vender os troféus e duas raquetes usadas em Wimbledon, foi o americano, a par de Jimmy Connors e Andre Agassi, que o conseguiu convencer a deixar cair a ideia.

John McEnroe era o fogo (e ainda hoje é um pouco, como se percebe nas suas intervenções públicas), a parte mais emocional deste choque de titãs. Mas também ele tinha latente uma parte muito racional, como se viu quando conseguiu quebrar o reinado do sueco em Wimbledon em 1981. Nascido em Wiesbaden, na Alemanha (o pai estava no país pela Força Aérea), foi com apenas um ano para Nova Iorque e aos oito já jogava ténis, ganhando cinco vezes Wimbledon e em quatro ocasiões o US Open (não passou das meias-finais no Open da Austrália e dos quartos em Roland Garros). Ganhou 78 títulos e foi o número 1 do ranking.

John McEnroe perdeu a final de 1980 frente a Björn Borg mas venceu no ano seguinte o primeiro de três troféus em Wimbledon

O americano, com aquele estilo muito rock and roll de cabelo comprido e fita na cabeça, era um jogador fantástico, com uma esquerda fulminante, mas que atraía fãs (e o oposto) pela rebeldia com que protestava decisões dos árbitros – o que lhe valeram inúmeras chamadas de atenção, pontos perdidos e até expulsões – ou partia raquetes para atirar cá para fora a sua fúria. Após a reforma, montou uma banda de rock mais a sério para manter a sua paixão pela guitarra, entrou em inúmeros talkshows (também teve o seu, sem sucesso), séries e filmes e é agora comentador televisivo, dedicando ainda muito tempo à Fundação que tem com a mulher, a cantora Patty Smith. E com um episódio curioso: foi o sueco que o desafiou para reeditarem o seu duelo… no desenho de roupa interior.

Björn Borg e John McEnroe podiam ser completas antíteses em tudo, mas tiveram sempre em comum o enorme respeito mútuo. E foi a partir daí que nasceu uma das mais fortes e improváveis ligações no mundo do desporto. Uma ligação igual à que conseguiram entre os fãs do ténis e o jogo nos anos em que se defrontaram em court.