Marcelo Rebelo de Sousa coloca o Governo de Costa no lugar, avisando que só faltam dois anos para o fim da legislatura e que quem embarca no “diz que disse especulativo não entendeu, nem entende nada do que se passou em Portugal nas últimas semanas“. O Presidente da República reagiu assim com dureza esta quinta-feira às notícias que dão conta que o Governo ficou “chocado” e “surpreendido” com as suas duras declarações após os incêndios de 15 de outubro. Falando num tom quase paternalista, após assistir a um exercício militar na ilha da Terceira nos Açores, Marcelo Rebelo de Sousa atirou ao primeiro-ministro, dizendo que “é preciso compreender que chocado ficou o país.

Marcelo explicou que em relação ao que se passou “há duas maneiras de encarar a realidade: uma maneira é o diz que disse especulativo de saber quem ficou mais chocado, se foi ‘a’ com o discurso de ‘b’, ou se foi ‘b’ com o discurso de ‘a’ [a do Governo]. Depois há uma segunda maneira que é a de compreender que chocado ficou o país com a tragédia vivida, com os milhares de pessoas atingidas. Um país que esperou uma palavra dirigida às vítimas e que espera com urgência a reparação [a do Presidente]”.

O Presidente lembrou — puxando novamente dos galões de quem é primeira figura do Estado e de quem tem um mandato até 2021 — que “faltam menos de dois anos para o fim da legislatura. Deste Parlamento e deste Governo. Portanto, eu entendo que a forma correta [de encarar a realidade] é a segunda. E que quem olha para a realidade no diz que disse especulativo, não entendeu, nem entende nada do que se passou em Portugal nas últimas semanas.” Depois nada mais quis dizer sobre o assunto. Já tinha dito tudo. Com dureza.

Uma newsletter do ministério da Administração Interna com um link para um artigo em que o Presidente era chamado de “jumento do dia”, um artigo no jornal oficial do PS em que o Presidente é acusado de “populismo”, aos quais se juntaram uma manchete num jornal de referência (o Público) a dar conta de que o Governo ficou “chocado” com o discurso de Marcelo, fizeram o Presidente voltar a subir o tom.

Em contraciclo com as fontes governamentais que falaram ao Público, o ministro da Defesa Azeredo Lopes fez questão de dar uma declaração que se aproxima mais do Presidente do que do Governo. Questionado sobre este deteriorar de relações em Belém e S. Bento, o ministro Azeredo Lopes afirmou:

Obrigado por perguntarem. Eu não fiquei nada chocado com o discurso do Presidente”.