As relações entre os Estados Unidos e o Irão já há muito que são motivo de preocupação. As disputas motivadas pelo poderio nuclear (e não só), já fizeram correr muita tinta e, desde a tomada de posse de Donald Trump, o panorama mais tranquilo que Barack Obama havia conquistado dissipou-se, trazendo à tona os problemas que tardam em ser bem resolvidos. Curiosamente, e segundo relata a BBC, uma das áreas de negócio que mais tem sofrido nos últimos tempos é a dos frutos secos. A do negócio dos pistachios, mais concretamente.

Estados Unidos e Irão são as potências mundiais com papel mais preponderante no multi-bilionário negócio dos pistachios, controlando, em conjunto, há mais de dez anos, cerca de 70% a 80% da produção anual. Tendo isto em conta, não é de estranhar que esta área seja muito suscetível às oscilações diplomáticas entre ambas as nações, de tal modo que é frequente influenciarem todo o comércio internacional deste fruto seco.

Durante os últimos quarenta anos, os agricultores iranianos têm sofrido com a pressão de várias sanções, tarifas e restrições ao acesso a apoios financeiros internacionais. Apesar dos pistachios em si não estarem na lista de produtos sancionados, as limitações financeiras impostas dificultam a comercialização deste produto. Este foi cenário durante muitos anos mas em 2016, porém, tudo mudou com o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), programa promovido por Barack Obama que visava o levantamento de uma série de sanções comerciais.

De um momento para o outro o petróleo iraniano voltou a circular pelas veias do mercado internacional e, os pistachios seguiram o mesmo caminho, rapidamente ganhando destaque nos mercados além-fronteiras.

O efeito Trump

Bons ventos começaram-se a fazer sentir, mas tudo voltou a mudar assim que Trump assumiu a presidência. Em menos de nada, o recém-eleito governante disse que o JCPOA foi o “pior” negócio alguma vez feito pelos EUA e no início de outubro pediu ao Congresso que o reavaliasse de forma a perceber se ele era, de facto, proveitoso para o país do Uncle Sam.

Num discurso recente, Donald Trump chegou a dizer que este tratado comercial dava “à ditadura iraniana” uma linha de apoio económico e político, sem sequer limitar o “sprint” de Ahmadinejad rumo ao desenvolvimento de armas nucleares.

Escusado será dizer que estas notícias suscitaram o pânico na industria do pistachio iraniano, levando Hojat Hassani Sadi, o diretor-adjunto da Iran Pistachio Association, a dizer que se as sanções regressassem, voltava com elas o ambiente de “competição injusta e desigual”.

A início de tudo

A indústria do pistachio no Irão é milenar, ao contrário do que acontece nos EUA, que só começou a plantar as primeiras sementes (que vinham da região da antiga Pérsia, curiosamente), nos anos 30, tendo essa produção apenas disparado quando os EUA cortaram laços com esse país do médio-oriente e começaram (juntamente com os seus aliados) a implementar sanções económicas, muito por culpa da crise de reféns de 1979.

Durante esses tempos o mercado norte-americano explodiu, havendo muitos agricultores (especialmente na Califórnia) a adotar este cultivo. Em 2014, o tempo quente e seco que assolou os EUA esteve na origem da primeira grande crise em solo americano, reduzindo para metade o número de plantações e afetando gravemente os lucros de 2015 (ano em que esses frutos secos foram vendidos), que ficaram perto dos 1.4 mil milhões de dólares (cerca de 1,2 mil milhões de euros, segundo conversão atual). Quem é que gostou disto? Os agricultores iranianos, claro.

A competição de preços

O preço dos pistachios tem subido desde 2002. Richard Matoin, o diretor-executivo da American Pistachio Growers (APG) atribui esse aumento a dois fatores: o facto do mundo começar a reconhecer as propriedades benéficas deste fruto seco e a crescente procura por snacks saudáveis.

O aumento da procura vindo da China também foi essencial para o crescimento dos preços. Entre 2008 e 2013, as importações chinesas de pistachios norte-americanos aumentaram 146%, de acordo com a APG.

Em 2014, a seca que assolou a Califórnia fez com que o preço destes frutos secos aumentasse consideravelmente, notícias que foram bem recebidas pelo Irão, que, em contraponto, teve um excelente ano agrícola e conseguiu ultrapassar os norte-americanos no mercado Chinês. Por muito que a influência do clima tenha o seu peso, este crescimento revela outro fator essencial: a localização geográfica do Irão.

Apesar das sanções serem um fator determinante neste gigantesco jogo de tabuleiro, o Irão afirma que os seus pistachios tem algo que os americanos não conseguem ter: um sabor específico e bastante popular.

Apesar de tudo isto, o Irão mantém-se firme como o segundo maior produtor mundial de pistachios, embora não esconda a sua enorme vontade em conseguir ultrapassar os seus adversários ocidentais.