Quem passear pela Madison Avenue por estes dias vai tropeçar num vestido, no mínimo, diferente. Está exposto no meio da rua, não dá para experimentar, mas quem o fez fala português. E não, não foi Joana Vasconcelos. A autora chama-se Filipa Mota, tem 20 anos e mudou-se para Nova Iorque para estudar design gráfico na School of Visual Arts. Depois de dois anos de curso a desenhar em frente a um computador, viu duas peças suas chegarem à rua: um vestido e uma clutch.

“O feedback que tenho recebido é incrível. Sempre que estou ao pé da peça, pessoas que não conheço param e fazem perguntas”, conta Filipa, natural de Leiria. O vestido, bem mais complexo do que que bolsa, demorou duas semanas a fazer. Tinha de criar algo fora da caixa. Pegou num objeto vulgar e transformou-o numa obra de arte. “A primeira coisa em que pensei foi na maneira como os dentes de garfos, quando encaixados, parecem um zipper”, afirma. Aplicou a lógica ao fecho da mala e só depois foi desafiada por Kevin O’Callaghan, professor de Design 3D, conhecido por gostar de expor trabalhos dos seus alunos fora das paredes da universidade, a fazer o vestido.

Tudo começou com esta clutch. Depois de perceber que os dentes dos garfos podiam ser um fecho, Filipa usou-os como franjas de um vestido © Divulgação

De repente, os dentes dos garfos já não eram um fecho, mas sim uma franja contínua. Começou assim a caça aos talheres. Filipa Mota passou pela Ikea e por várias outras lojas de decoração, incluindo algumas de segunda mão. Nunca tinha pensado no quão difícil seria comprar quase 400 garfos. A lista de materiais não ficou por aí. A estudante de design gráfico usou ainda 59 colheres e duas conchas de sopa, cuja aplicação salta bem à vista. Em vez de desenhos em 3D, a portuguesa trabalhou numa oficina de carpintaria.

Em 28 candidaturas, Filipa foi um dos 14 alunos selecionados para expor numa das artérias mais movimentadas de Manhattan, no âmbito do One-of-a-Kind Luxury. O evento junta não só as peças de jovens talentos do design, mas também mobiliza algumas das grandes marcas com loja na Madison Avenue, entre elas Bottega Veneta, Hermès, Chopard e Dolce & Gabbana. No total, são 36 e foram desafiadas a escolher uma peça de culto que está à venda até dia 15 de novembro.

Filipa Mota tem 20 anos, é de Leiria e está no terceiro ano de Design Gráfico na School of Visual Arts, em Nova Iorque © Divulgação

A mesma data marca o final da exposição no passeio da avenida. A peça de Filipa, a única portuguesa a participar, está exposta mesmo em frente à Dolce & Gabbana de Upper East Side e a universidade já estabeleceu contactos com museus e galerias para que as criações dos aspirantes a designers continuem a poder ser vistos pelo público. Enquanto isso, a estudante portuguesa redesenha o seu futuro como designer. A experiência longe dos computadores fê-la pôr as mãos na massa e ver o design de sets de televisão, teatro e cinema com outros olhos.