Imigração, ambiente e política europeia. À entrada para o último dia de negociações para a formação do próximo Governo alemão, Angela Merkel admitia que ainda existem “sérias divergências” entre a sua CDU, o Partido Democrático Liberal (FDP) e os ambientalistas do Partido Verde. Ninguém quer provocar uma nova ida às urnas – sobretudo com um possível (novo) reforço eleitoral da extrema-direita a pairar sobre a mesa das negociações – mas há pontos-chave da discussão que se estão a revelar difíceis de conjugar entre os vários protagonistas. São as horas derradeiras para Merkel, que não quer deixar escapar o quarto mandato na liderança do país.

A chanceler alemã está confiante no fumo branco até ao final do dia. “Ninguém precisa mais de um acordo que Merkel”, escrevia esta quarta-feira o Süeddeutsche Zeitung. “Afinal, é ela quem quer ser reeleita chanceler” e igualar os 16 anos de Helmut Kohl na liderança do Governo alemão.

Mas não é apenas essa ambição pessoal que está em causa neste processo de negociações de que o SPD se arredou – Martin Schulz fez questão de deixar essa posição clara logo em setembro, ele que trocou o Parlamento Europeu pelo objetivo de derrotar Merkel e acabou por colher o pior resultado de sempre para os sociais-democratas, com 20,6% dos votos.

A forçar o diálogo entre partidos que têm posições muitos distantes em vários pontos da discussão está o salto eleitoral do AfD na noite de 24 de setembro. Há mais de 60 anos que a extrema-direita não conseguia um único assento no Bundestag, o parlamento alemão. Mas essa tradição, muito apoiada na memória viva da génese política da Segunda Guerra Mundial, morreu. Agora, a Alternativa para a Alemanha é a terceira força mais representada, com 12,6% dos votos, e nenhum dos outros partidos quer contribuir para uma eventual subida desse número.

Para que as eleições antecipadas não passem de um cenário temido a uma realidade inevitável, a “coligação Jamaica” – nome de batismo inspirado nas cores dos vários partidos sentados à mesa – tem de chegar a um entendimento até ao final do dia. É esse o prazo-limite dado por Angela Merkel para que, até ao final do ano, haja um novo Governo em funções.

Quais são, então, os pontos da discórdia?

Migração: fechar portas a refugiados?

Para muitos analistas, Merkel continua a pagar o preço de ter aberto as portas da Alemanha aos já dois milhões de refugiados que chegaram do norte de África e Médio Oriente ao continente europeu desde 2015.

Segundo o Deutsche Welle, as divergências sobre qual deve ser nos próximos anos a posição de Berlim quanto ao acolhimento de novos migrantes suscitou, até há pouco, divergências entre a própria CDU e a sua força-irmã da Bavária, a CSU. Para a União (nome da coligação), o número de novas entradas por razões humanitárias deve ficar fixado nos 200 mil para a próxima legislatura, mas a mensagem forte é a de que o próximo Governo terá de condicionar fortemente a entrada de novos migrantes.

No jogo dos números, a FDP coloca esse universo entre 150 mil e 250 mil requerentes de asilo. De uma forma ou de outra, impor um limite à entrada de cidadãos que cruzem o Mediterrâneo rumo à Europa representa um problema aos olhos dos Verdes, ao dificultar a reunificação de famílias. O grande argumento do lado dos ecologistas – impassíveis neste ponto desde o início das conversações – para contestar esse bloqueio a mais entradas baseia-se na ideia de que a reunificação permite combater o tráfico humano.

Outro ponto, ainda sobre a imigração, prende-se com a construção de centros de asilo. A CDU/CSU defende a existência de um centro por estado, onde os requerentes de asilo seriam colocados enquanto os seus processos fossem analisados. Os Verdes não parecem dispostos a aceitar esta ideia.

Ambiente: Alemanha mais verde?

As centrais de energia são um dos pontos mais sensíveis entre os temas em aberto. Para os Verdes, o princípio é este: encerramento de todas as instalações que funcionem com recurso a carvão, e são 20 espalhadas pelo país. “Não faz qualquer sentido do ponto de vista económico”, respondeu a CDU/CSU.

À União juntam-se os Liberais, sob o argumento de que encerrar estas centrais energéticas pode por em risco a disponibilização de energia em vários pontos da Alemanha. O número aceitável para estes protagonistas fica-se pela metade da proposta dos Verdes: 10 centrais encerradas.

A discussão sobre o encerramento das centrais energéticas não surge do nada. Todos os partidos reconhecem a necessidade de reduzir a pegada poluente da Alemanha, o gigante industrial europeu, para que possam ser atingidas as metas de 2020. O compromisso saído da cimeira de Paris, em 2015, fixa uma redução da pegada ecológica de 40% face aos valores de 1990.

O diferendo está no caminho que é necessário percorrer para lá chegar. Se, para os Verdes, a redução de emissões de dióxido de carbono tem de ficar algures entre as 90 e as 120 toneladas, para a CDU e para a FDP, esse corte só precisará de alcançar as 32 a 66 toneladas.

Europa: mais poderes para Bruxelas?

No plano europeu, as divergências multiplicam-se: da posição que Berlim deve ter quanto a futuros planos de resgate financeiro à própria ideia de criação do lugar de ministro das Finanças da zona euro e à existência de um orçamento europeu comum, defendidas pelo presidente francês Emmanuel Macron.

Num ponto, há acordo: a Alemanha é pró-europeia. A partir daí, tem sido cada um por si e é assim que todas as partes se sentam esta quinta-feira à mesa para o sprint final que possa chegar a um entendimento suficiente para a formação de um Governo com uma configuração nunca tentada a nível federal.

Se a ideia de um super-ministro das Finanças colhe apoio juntos dos Verdes, os Liberais travam a fundo: o líder do FDP, Christian Lindner, rejeita liminarmente a passagem de mais poderes para Bruxelas, ainda para mais quando se perspetiva um cenário em que esse ministro possa ter poderes para gerir o orçamento da zona euro – ao mesmo tempo, a figura de Lindner não colhe particular entusiasmo no centro de poder europeu e a própria possibilidade de o líder dos liberais vir a assumir a pasta das Finanças em Berlim é encarada com cautela.

Ainda que vaga na referências às competências que uma figura assim poderia ter, Merkel já se manifestou favorável à criação do cargo. E os Verdes, apoiantes de um reforço da integração do projeto europeu, também são favoráveis à ideia.

Outra fissura no bloco que se pretende criar com as discussões do último mês e meia: a forma que vai adotar o plano de resgates de países da zona euro que venham a debater-se com uma crise financeira, como na última década aconteceu com a Irlanda, Grécia, Portugal e Chipre. O FDP quer que a responsabilidade seja imputada aos próprios Estados. Se a crise for fruto de políticas internas seguidas pelos Governos que venham a passar por dificuldades, esses países ficariam impedidos de aceder a qualquer mecanismo de apoio comunitário.

O relógio está a contar. E Merkel quer resultados até ao final do dia, ainda que as negociações — que se preveem intensas — possam arrastar-se até às primeiras horas desta sexta-feira.