“Joe Sullivan, o ex-procurador que é um dos homens fortes da Uber.” Era assim que começava o perfil do responsável pela segurança da tecnológica não cotada mais valiosa da história que esteve para sair no especial “Os 25 oradores que não pode perder na Web Summit de 2017” que o Observador publicou a 5 de novembro. Uma revisão de última hora na agenda das intervenções de cada um fez-nos passar de 25 para 24. Na véspera do arranque da maior conferência de empreendedorismo e tecnologia da Europa, o nome de Joe Sullivan deixou de aparecer no painel de oradores.

Duas semanas depois, a Bloomberg avança que Joe Sullivan foi despedido da Uber na sequência do ciberataque que comprometeu os dados de 57 milhões de pessoas. O ataque ocorreu em outubro de 2016, mas a empresa — na altura sob a liderança de Travis Kalanick — optou por silenciar os hackers com 100 mil dólares, em vez de reportar o que aconteceu às autoridades. Um ano depois, já sob a administração liderada por Dara Khosrowshahi, uma investigação ao departamento de Sullivan põe a descoberto o segredo que Kalanick quis guardar dentro de portas.

A Uber pagou 100 mil dólares para os hackers apagarem os dados (nomes, emails e números de telefone) das 57 milhões de contas a que tiveram acesso em outubro de 2016. Um ano depois foi a própria Uber que informou o procurador-geral de Nova Iorque sobre o que se tinha passado, denunciando o caso às autoridades. O iraniano que lidera a tecnológica desde agosto pediu a demissão de Sullivan assim que teve conhecimento do resultado da auditoria pedida ao departamento de segurança e despediu o advogado que reportava diretamente a Sullivan, Craig Clark.

Uber escondeu ciberataque que expôs dados de 57 milhões de utilizadores

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À Bloomberg, nenhum dos dois quis prestar declarações, mas num comunicado enviado por email, Khosrowshahi afirmou que “enquanto não pode apagar o passado, posso comprometer-me em nome de todos os empregados da Uber que vamos aprender com os nossos erros” e já contratou novos nomes. Matt Olsen, antigo conselheiro da Agência Nacional de Segurança (NSA) e diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, é o novo consultor da Uber para aspetos relacionados com segurança. Khosrowshahi também contratou a empresa de cibersegurança FireEye para investigar o ataque.

Trabalhou oito anos no Departamento de Justiça dos EUA

Desde 2015 que Joe Sullivan era o homem responsável pela segurança da Uber. Antes de entrar para o executivo da startup que está avaliada em 68 mil milhões de dólares, esteve entre os executivos de topo do Facebook, durante seis anos. Era ele quem liderava a equipa responsável pelos procedimentos de segurança da rede social presidida por Mark Zuckerberg. Quando chegou ao Facebook, já tinha trabalhado nos departamentos de segurança e jurídicos de empresas como o eBay e PayPal durante sete anos.

Mas a história de Sullivan começa bem longe do ambiente tecnológico de Silicon Valley: no Departamento de Justiça norte-americano, onde durante oito anos foi procurador assistente do Ministério Público para o distrito Norte da Califórnia e um dos pioneiros na luta contra crimes praticados na Internet. Quando Sullivan entrou para a Uber, Travis Kalanick procurava um líder que ajudasse a redefinir a segurança da plataforma e dos dados gerados pelos utilizadores .

“Não me podia lembrar de ninguém melhor para esse papel do que Joe Sullivan. Não podia estar mais entusiasmado por ter Joe Sullivan na nossa equipa”, escreveu Kalanick no comunicado que foi lançado em 2015, sublinhando que era uma “oportunidade para construir a cultura de uma organização jovem, mas crescente e continuar a construi-la dentro das iniciativas de segurança que fazem parte da espinha dorsal do sucesso da Uber”.

Novo presidente da Uber pede desculpa pelos erros que a empresa cometeu

Em 2017, Travis Kalanick foi obrigado a sair da liderança da Uber, na sequência de várias notícias que punham a descoberto uma cultura de trabalho agressiva, sexista e com situações de assédio sexual. A Uber enfrentava também um processo judicial interposto pela Google e a divulgação do vídeo em que se via Travis a discutir com um dos motoristas fizeram com que, em agosto, Dara Khosrowshahi assumisse a liderança da empresa, afastando Travis das tomadas de decisões.

Em abril do ano passado, o presidente dos EUA, Barack Obama, escolheu Joe Sullivan para fazer parte de uma comissão que tinha por objetivo pensar num reforço da segurança nacional, tendo em conta os ciberataques. O comité foi formado por 12 pessoas que deviam pensar numa estratégia de combate aos ciberataques, ficando encarregues de fazer recomendações sobre as ações a tomar na próxima década. Este comité foi pensado para ser incluído no Plano de Ação Nacional de Cibersegurança.

Esta terça-feira, saiu da empresa depois de Dara Khosrowshahi ter descoberto que o seu departamento pagou 100 mil dólares para silenciar piratas informáticas que roubaram dados de 57 milhões de contas.