Mais clicks e menos tijolos. Este é o lema, que soa melhor em inglês — more clicks, less bricks –, que o presidente da Caixa Geral de Depósitos acredita ser mais válido do que nunca, na área da banca. Paulo Macedo defende que os cortes de custos na banca foram, e continuam a ser, um fator decisivo para a rentabilidade das instituições financeiras, “porque os clientes dizem-nos que não estão disponíveis para pagar [muito] por serviços bancários” e porque “os millennials preferem ir ao dentista do que ir ao banco”.

Na análise de Paulo Macedo, a banca nacional vive num contexto de excesso de liquidez — como na generalidade dos países da zona euro, fruto da política monetária –, tem capacidade de financiamento e bons rácios de capital, o que ainda há poucos anos não era o caso. Ao mesmo tempo, contudo, as empresas estão a procurar pouco crédito porque, sobretudo em alguns setores, fizeram uma redução da dívida e uma acumulação de liquidez que reduz o apetite por crédito.

“Hoje em dia temos empresas com valores de liquidez extremamente elevadas e um outro conjunto que continua com problemas de liquidez”, notou Paulo Macedo, acrescentando que “o investimento está com algum crescimento”, o que está a ajudar a economia. Contudo, o crescimento do investimento não é igual em todos os setores: “temos um decréscimo forte na construção, mas estamos a ver alguma melhoria do investimento na indústria e da parte da agricultura, e alguns setores dos serviços”. Isto é uma “composição de crescimento do investimento muito distinta das últimas décadas, com um menor efeito do investimento na construção e agora, no que diz respeito ao crédito, temos uma composição porventura mais virtuosa mas ainda muito ténue“.

As declarações foram proferidas em Lisboa, numa conferência promovida pela Caixa Geral de Depósitos: “A Economia Portuguesa em Debate. A primeira sessão deste ciclo de conferências, na Culturgest, dedicou-se ao tema da Poupança, Investimento e Financiamento da Economia.

Quem quer crédito? A banca tem os “cofres cheios”

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Paulo Macedo, que defende que as baixas taxas de juro criam uma situação de “clara transferência de margem da banca para as empresas”, sublinha que a “redução de custos foi essencial para permitir alguma rentabilidade futura da banca”. Contudo, as reduções de custos continuam a ser “essenciais porque o que os clientes nos dizem é que não estão disponíveis para pagar comissões“.

Esse efeito é ainda mais verdadeiro nas gerações mais novas, diz Paulo Macedo, já que a geração conhecida como millennials [os que têm hoje até cerca de 35 anos, segundo algumas definições] “diz-se que prefere ir ao dentista do que ir ao banco”. É por isto que a Caixa Geral de Depósitos está a apostar, por exemplo, em iniciativas como a abertura de contas universitárias sem recurso a papel (exclusivamente online, através de um iPad). Além da digitalização, a simplificação de produtos deve ser uma prioridade dos bancos.

E, além das gerações mais jovens, Macedo acrescentou, também, que “vivemos num país onde 70% das pessoas entregam o IRS pelo computador”. Com todos estes fatores em jogo, a banca convive com exigências regulatórias cada vez maiores, tem, também, de investir em inovação tecnológica — o que já é uma realidade: “no banco já temos robôs, sem braços nem pernas, que executam tarefas repetitivas de análise de dados 24 horas sobre 7 dias“, diz Paulo Macedo.

BCE continua a achar que há demasiados bancos na Europa e demasiados bancos em Portugal

Por outro lado, Paulo Macedo falou sobre a concorrência das chamadas fintech, um tema que já tinha falado na véspera numa conferência organizada pelo Jornal Económico e pela PwC. Macedo acredita que haverá concorrência “nas franjas” em áreas mais imediatistas, mas a banca vai continuar a conseguir fomentar “relações duradouras”, baseadas nos depósitos — uma área onde as fintech não podem entrar, a menos que se sujeitem à regulação e supervisão associada a essa atividade.

“Numa conferência de ontem [a do Jornal Económico e PwC] falaram no caso de um responsável de uma fintech conheceu alguém e, após alguns minutos de conversa, entregou-lhe um cartão de crédito e tornou-o, logo ali, cliente da empresa. Ora, se nós fizéssemos isso desta forma teríamos uma contravenção e uma multa, porque não estávamos a cumprir os requisitos de know your customer [conheça o seu cliente]”.

No painel sobre o futuro da banca, outros participantes além de Paulo Macedo também falaram sobre a importância da redução dos custos — sobretudo porque, nas palavras de Paulo Macedo, “o BCE continua a achar que há demasiados bancos na Europa e demasiados bancos em Portugal”. Foi o caso de Ricardo Arroja, economista, que lembrou que até ao período da troika, ser bancário era uma “boa decisão de carreira”, o que “pode ter levado a um certo relaxamento”.

“Houve um problema de gestão e porque o crédito foi encaminhado para setores menos rentáveis. E estamos atrás da curva, continuam atrasados no longo caminho de ajustamento que a banca tem de fazer. Porque continuamos a ter 45 balcões por cada 100 mil habitantes. N a média da zona euro é de 28. “Este número diz tudo, a banca vai continuar a emagrecer”, avisou o economista.