Zé Pedro (1956-2017)

Zé Pedro e os Xutos: a cronologia do início de uma banda

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O Observador publica um excerto do livro "Aqui: Xutos & Pontapés", de Rolando Rebelo. Entre 1955 e 1981, como Zé Pedro ajudou a criar o maior grupo da história do rock português.

“Aqui: Xutos & Pontapés!” foi editado em 2014. Neste livro, com coordenação e textos de Rolando Rebelo, é recordada a história da maior banda do rock português. Desde o nascimento dos músicos às primeiras gravações, dos álbuns que construíram o sucesso do grupo às dúvidas e hesitações. Dos pequenos palcos aos concertos em grandes arenas. E nesta história, Zé Pedro é um dos nomes fundamentais. O Observador publica um excerto do livro que recorda o caminho inicial da banda e o papel do guitarrista.

“Aqui: Xutos & Pontapés!”, de Rolando Rebelo (Oficina do Livro)

1955
2 de Fevereiro — Nasce José Leonel dos Santos Pinto Perfeito (Zé Leonel) na Póvoa de Santa Iria.

1956
13 de Setembro — Nasce José Pedro Amaro dos Santos Reis (Zé Pedro) em Lisboa. É o terceiro filho, o primeiro rapaz de sete irmãos.

1957
30 de Agosto — Nasce Carlos Nascimento (Gui).

1958
29 de Julho — Nasce Carlos Eduardo Cardoso Ferreira (Kalú), no Porto, o quinto filho de 13 irmãos.

1960
Nasce António Manuel Lopes dos Santos (Tim), em Ferreira do Alentejo.

1962
14 de Agosto — Nasce João Manuel Pereira Cabeleira. Devido à carreira militar do pai (oficial do exército), Zé Pedro muda-se com a família para Timor. A viagem é feita por barco com escala em Goa, Índia, Singapura, Hong-Kong e Macau antes de chegar a Díli, Timor.

Gui frequenta os cursos musicais patrocinados pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde toma contacto com diversos instrumentos musicais, tais como o metalofone e a flauta. Gui frequentará esse curso até aos 8 anos de idade.

1963
Regresso de Zé Pedro e família a Lisboa.

1965
Tim muda -se com a família para Almada. Zé Pedro passa os Verões com a família na Praia do Alemão, Portimão.

1967
Tim entra para o orfeão do colégio. Também começa a entrar em pequenas peças teatrais. «Foi quando percebi que havia uma outra maneira de estar no outro lado da cortina.» Tim.

1968
O pai de Zé Pedro é transferido para a Guiné. Zé Pedro fica em Lisboa mas nas férias voa num avião militar para se reencontrar com a família. Kalú senta-se pela primeira vez numa bateria, no casamento dos seus tios, no Casino Estoril. Tim recebe dos pais o seu primeiro instrumento musical, uma harmónica.

1969
Gui e o irmão frequentam o Colégio Marista, até ao ano de 1972.

1971
Mudança de Kalú do Porto para Lisboa, pelo facto de o pai ter adquirido uma fábrica de cortiça no Montijo. Na companhia do pai, Zé Pedro vai à primeira edição do Cascais Jazz, onde assiste ao concerto de Miles Davis, Keith Jarret, Ornette Coleman e Charles Haden.

1973
Tim recebe a seu primeira guitarra trazida de Espanha pelos pais. Adquire as primeiras noções de guitarra com os escuteiros, dos quais faz parte. «Aos 13 anos percebi logo que queria ser músico.» Tim.

1974
Kalú compra a sua primeira bateria, uma Tama Singstar, a João Pereira Coutinho, por cinco contos (25 euros). Para a pagar arranja trabalho, primeiro a embalar fruta e em seguida a descascar alhos.

«Eu era bem comportado. Só me meti em sarilhos uma vez e foi por andar à “pêra”! Mas uma das memórias mais engraçadas foi no 25 de Abril quando íamos à escola para não ter aulas. Era uma alegria. E depois havia as miúdas. Nessa altura ia -se aproveitando para desbravar caminho.» Tim.

1975
Hélder Batista, pai do Tim, constrói -lhe uma guitarra. Começa a tocar em festas na Zambujeira e na Moita.

«O meu pai quis fazer -me uma guitarra, porque gosta muito de tábuas, de madeiras e de guitarras… e tem jeito! Então pedi -lhe que me fizesse um baixo, mas ele foi à Custódio Cardoso Pereira e os gajos meteram—lhe na cabeça de que os baixos não se podiam ligar às estereofonias de casa porque lixavam aquilo tudo. Então ele fez uma guitarra… azul!» Tim

João Cabeleira começa a debitar os primeiros acordes na guitarra acústica da irmã. Em Espanha, o ditador Franco executa os últimos cinco opositores ao regime. Uma onda de revolta invade a capital portuguesa, que culmina no assalto à embaixada de Espanha. Zé Pedro é um dos intervenientes, embora tenha um papel de espectador.

1976
Zé Pedro compra a sua primeira guitarra, uma Kawai, a um estrangeiro que precisava de dinheiro, e também uma bicicleta, tudo por quatro mil escudos (cerca de 20 euros). Começa a escrever crítica musical no suplemento «Mosca», do Diário de Lisboa. O editor era Luís Sttau Monteiro e, entre outros colaboradores, encontrava -se José Cardoso Pires.

1977
Zé Pedro ingressa na Escola Superior de Meios de Comunicação, no curso de Jornalismo. Durante o Verão, Kalú e Zé Pedro, embora não se conhecendo na altura, vão ao festival Montde Marsan, no sul de França. Do cartaz fazem parte os Clash, os Damned, Lou Reed, entre outros. Os dois vêm a fervilhar de ideias… Tim recebe o seu primeiro baixo.

Zé Pedro e Zé Leonel conhecem -se em Setembro. «Já conhecia o Zé Leonel, que andava com uma das minhas irmãs. A seguir começam os Faíscas, influenciados pela onda punk e pelos Sex Pistols. Nessa altura, o Pedro Ayres estava sempre a picar -me para eu formar uma banda e foi aí que pusemos um anúncio na «Música & Som» a pedir um baterista e apareceu o Kalú. (…) Era eu, o Kalú, o Zé Leonel e um amigo de uma namorada que ele tinha em Almada (já tinha acabado com a minha irmã), que era o Tim.»

Zé Pedro, que entretanto fora baptizado com o nome de Podrezinho, por ter escrito num estojo de uma guitarra esse nome, e Pedro Ayres Magalhães travam amizade e assinam sobre duas mortalhas coladas e assinadas a sangue, que um dia vão ser grandes na música.

«…espetei um alfinete de dama na boca e muitas vezes andava de cara pintada, por causa do filme do Kubrick, “Laranja Mecânica”, onde o gangue andava assim meio pintadolas… Quando ia de autocarro sozinho para as noites dava -me imenso gozo, porque as pessoas não tinham a coragem de me olhar de frente, assustavam-se muito! E então virava -me de frente e estavam todos a olhar para mim! E isso dava-me um gozo tremendo. Eu era lingrinhas mas tinha este poder de assustar as pessoas. Uma boa maneira de assustar as pessoas era ter um alfinete de dama na boca.» Zé Pedro

1978
Zé Pedro começa a colaborar com o programa «Rock em Stock», da autoria de Luís Filipe Barros, na Rádio Comercial. Zé Pedro, Paulo Borges e Zé Leonel sonham fundar uma banda rock. Surgem os primeiros nomes desde a Delirium Tremens, que depois passa a Beijinhos e Parabéns, para acabar em definitivo em Xutos & Pontapés.

«Os Xutos & Pontapés foram uma banda que nasceu num café, no Areeiro. E era uma banda que praticamente não existia… era uma banda de Lisboa. As diferenças entre as bandas do Porto e as de Lisboa, segundo o Rui Reininho, é que as bandas do Porto estão a ensaiar na garagem, a trabalhar, e as de Lisboa, estão no café a dizer que têm uma banda. Os Xutos eram assim no início: uma banda que não tocava peva. Tinham só uma música que era “Beijinhos e Parabéns” e o resto do tempo era “Pró caralho com a Polícia”. O instrumental da banda era duas guitarras e um garrafão. E, como boa banda de café de Lisboa, já tinha técnico de luzes, maquilhadores, condutor… tudo menos a banda. Um dia o fenómeno ganhou tal envergadura, que um dos gajos disse que a banda dele seria Beijinhos e Parabéns, o que irritou o Zé Pedro.

No meio da conversa, e como a moda e a atitude punk era a dos pontapés e dançar aos chutos, disse -lhe que poderia chamar -se Chutos e Pontapés, o que agradou ao Zé Pedro.

Fui o padrinho do nome. Ainda fizemos mais uns três ensaios onde mandávamos a polícia para o caralho, até que o Zé Pedro, farto daquela brincadeira, decidiu inverter, colocando mais guitarras e menos garrafões. Colocou um anúncio no jornal… e é assim que aparecem os Xutos que nós conhecemos hoje em dia. A maior parte das bandas nasce num café de bairro, os Xutos nascem através dum anúncio.» Gimba

«Começámos por nos chamar Delirium Tremens. Foi no Verão de 1978. Era eu, o Kalú, o Paulo Borges e o Zé Leonel. Fizemos um único ensaio, mais nada. Depois, ainda em 1978, passámos a chamar-nos Beijinhos & Parabéns, mas também nunca actuámos ao vivo. Em Janeiro de 1979, fixámos definitivamente o nome para Xutos & Pontapés.» Zé Pedro

A escolha do nome é feita tendo em conta dois critérios. Zé Pedro lê numa entrevista de Joe Strummer (The Clash, uma das bandas referência dos Xutos) que uma banda que tenha cinco letras no nome é mais propensa para o sucesso. O segundo critério foi aperceber, ao consultar uma enciclopédia sobre bandas rock, que quase não havia bandas que começassem pela letra X… Xutos… sendo finalmente baptizados por Gimba como Xutos & Pontapés.

«Quando entrei e conheci o Zé Pedro, realmente o nome era Delirium Tremens. Até estava escrito com spray na caixa da guitarra. Mas depois aquilo não andou. Tinha de ser qualquer coisa com um «&», e o primeiro nome tinha de ter cinco letras por causa dos Clash. Então o Gimba lá se saiu com os Xutos.» Kalú

Gui compra o seu primeiro saxofone em Março. Zé Pedro, que na altura agia como manager dos Faísca (banda liderada por Pedro Ayres Magalhães e que era a banda-referência dos punks de Lisboa) e que, devido a um problema interno, ficara sem o baterista. Emanuel Ramalho, coloca um anúncio na Música & Som com o seguinte texto: «Baterista e baixista precisam -se para grupo punk».

Kalú, que tocava com o irmão mais velho na Outra Banda, tenta a sua sorte e liga duas vezes, sendo sempre atendido por Lena, a irmã mais velha de Zé Pedro: «O Zé Pedro não está.» Kalú telefona pela terceira vez dizendo: «Vocês decidam -se lá que eu tenho mais que fazer do que estar a aturar isto, há muitas bandas por aí», desligando o telefone de seguida. Zé Pedro liga -lhe sabendo das suas chamadas, e diz -lhe: «Altamente, foste o primeiro gajo a mandar vir ao telefone, deves ter mesmo o perfil que nós
queremos».

O anúncio era para resolver a falta de baterista nos Faísca. Mas, uma vez que esse problema estava resolvido com o regresso de Emanuel Ramalho, é «aproveitado» por Zé Pedro e Leonel. O encontro para conhecer Kalú é marcado para a cervejaria Trindade, ponto de encontro habitual às sextas e sábados à noite. Kalú informou de antemão que iria com uma T -shirt vermelha do Lou Reed. O que aconteceu foi que, com algumas «bebidas a bordo», Zé Pedro e Leonel esqueceram -se totalmente do encontro, apenas relembrado pela visão da T -shirt de Lou Reed, ficando a observar e a gozar com a impaciência de Kalú, que tentava descobrir quais os elementos da banda.

«Quando nos conhecemos na cervejaria Trindade sentimos logo, tanto eu como ele, que havia uma química. Ficámos ali um bocado a falar… E criou -se logo uma boa cumplicidade entre os dois. Tanto que nem foi preciso ouvi -lo tocar.» Zé Pedro

Tim é convidado por Zé Leonel para ser o baixista, a peça que falta para completar o puzzle inicial, enquanto Paulo Borges sai da banda.

No dia 22 de Dezembro, na Senófila, um centro de música em Lisboa, dá -se o primeiro ensaio da banda com Zé Leonel na voz (de batom nos lábios e com os olhos e as orelhas pintadas de verde), Zé Pedro na guitarra, Tim no baixo e Kalú na bateria, que chega atrasado 20 minutos devido a uma avaria da sua moto. Ensaiam dois temas “Morte Lenta” e “Sacaninha”. «Kalú: Tocam em binário ou quaternário? Zé Pedro: Pode ser quaternário…»

1979
Kalú entra para o Serviço Militar Obrigatório, prestando serviço no Regimento de Artilharia de Lisboa (Ralis). Pedro Ayres Magalhães telefona a Zé Pedro, convidando a sua banda para tocar na festa comemorativa dos 25 anos do Rock ́n ́Roll, que seria igualmente o concerto de despedida dos Faísca. Zé Pedro fala de imediato com Zé Leonel, Tim e Kalú (mais difícil de contactar por se encontrar no quartel).

Todos concordam em tocar, reservando uma sala por uma hora para ensaiar «perto da hora do jantar».

A 13 de Janeiro é a estreia da banda nos palcos.

Zé Pedro, ouvindo provocações dos sentinelas do Ralis devido à sua pose e indumentária, espera que Kalú saia do quartel para o seu primeiro fim -de -semana livre e com dores nas costas após a injecção que tinha apanhado. Kalú fica a saber do concerto que será dado daí a horas e seguem os dois para um rápido ensaio na Senófila.

Encontram António Variações a cortar o cabelo no rés-do-chão, enquanto sobem para o primeiro andar. Apresentam -se com o nome de Xutos & Pontapés Rock’n’ Roll Band na sala dos Alunos de Apolo, englobados nas comemorações dos 25 anos do Rock and Roll. Zé Leonel distribui speeds Fringanor pela banda. Às três da manhã, Tim, Zé Pedro, Kalú e Zé Leonel sobem ao palco que por detrás tinha a seguinte inscrição: «O rock and roll é uma música feita por cretinos e para cretinos», uma frase de Frank Sinatra.

Tocam quatro temas originais: Morte Lenta, Dados Viciados, Guerrilheiro Urbano e Sacaninha em seis
minutos. A lenda tinha nascido…

«Para aquele concerto nos Alunos de Apolo, não levámos quase nada. Os amplificadores eram os dos Faíscas, que estavam a acabar, tal como a bateria. O Kalú levou só as baquetas. Naquela altura os Xutos quase não tinham instrumentos. Eu tinha uma guitarra, não me lembro se o Tim já tinha o baixo e o Kalú tinha uma bateria feita à mão.» Zé Pedro

«Toquei com um baixo emprestado. Recebemos caché, cerca de 18 contos… deu cerca de seis ou sete contos a cada um. Quando acabámos de tocar aqueles minutos de fúria intensa, as pessoas que supostamente nos tinham ido ver estavam no bar porque pensavam que tínhamos só ido fazer o teste de som, portanto não houve grandes reacções. O Pedro Ayres cumprimentou -nos, claro. Depois agarrámos no nosso grupo e saímos dali para o Cais do Sodré, para festejar.» Tim

«Perguntaram -me no final se já tinha acabado o concerto ou se estávamos a afinar as guitarras.» Kalú

«Na sala do baile era a maior loucura… aquilo era um baile punk, porque o punk estava mesmo no auge. Nessa altura havia muito Fringanor na cabeça do pessoal. Era a droga da moda. Os Faíscas até se mordiam todos. A dança era uns encontrões, chutos e pontapés mesmo. Nessa altura o pessoal tinha aversão a jeans, que era o que os freaks usavam. Já bastante tarde eles (os Xutos) apareceram, já nem me lembro se foram anunciados. Deviam estar muito speedados porque tocaram tudo o que tinham para tocar em menos de dez minutos e bastante mal tocado, diga -se. Mas o punk era uma cena tão nova que as pessoas apesar de estarem a curtir a festa do rock and roll deram um salto para a actualidade quando chegaram os Xutos.»
Gimba

«Banda pós -punk que pode chegar longe se trabalharem mais… estoiraram com o som do ano 2000, as cabeças da seita que não paravam de dançar desde o início.» João Menezes Ferreira, «A Idade do Rock», canal 4 FM (programa de rádio).

Excitados com o resultado do concerto, decidem marcar novo ensaio na Senófila para o dia seguinte. Devido às dificuldades financeiras, é acordado que todos contribuem para pagar não só a sala de ensaio, como as despesas de deslocação de Tim, que vive em Almada, e tem de atravessar o Tejo no cacilheiro.

Tim é convidado para integrar o então dueto, Grupo 2, tocando instrumentais de improvisação, composto por Américo Cardoso e Francisco Macedo, e dão cerca de sete a oito concertos durante a Primavera.

João Cabeleira compra a sua primeira guitarra eléctrica, uma Hondo, por 4500 escudos (cerca de 22 euros), resultado de muito esforço e das poupanças das prendas de Natal e de aniversário.

Maio
Novo concerto no dia 5, integrado nas festas dos finalistas do liceu D. Pedro V, que comemorava igualmente o Maio de 68, em França. Do cartaz também constavam bandas como os Raios e Coriscos, Minas e Armadilhas e os Aqui d’El Rock. Quando começam a tocar o tema Guerrilheiro Urbano Zé Leonel, num acto de raiva, atira um gravador avariado para o chão e arremessa as peças contra a audiência, que as vai retribuindo. O concerto é interrompido com a invasão de palco. Com o dinheiro ganho na bilheteira, e após terem pago os estragos feitos na sala, Zé Leonel convida a audiência para irem para a Feira Popular.

«Eu estava lá todo encolhido a um canto para ninguém me ver. O ambiente era intimidante. Era só malta com correntes, cabelos em pé e blusões pretos. A sorte foi que apareceu um amigo meu a quem me juntei.» Hélder Baptista, pai do Tim Tocam em vários concertos nos arredores de Lisboa. Os cachés são pagos de diversas formas: numa concentração motard em São Pedro de Sintra são pagos com frangos assados, e num cacilheiro recebem como pagamento um garrafão de água -pé. Na Feira de Artesanato no Estoril, concerto arranjado por Kalú e Zé Leonel, recebem 50 contos (250 euros) por duas actuações, acabando apenas por tocar num dia devido às letras e ao comportamento da banda em palco. Zé Leonel rasgara a camisa ao Zé Pedro e dava cambalhotas perante uma audiência na sua maioria composta por famílias e turistas.

Agosto
Nos dias 6 e 7 dão os seus primeiros concertos fora de Lisboa, a abrir para os UHF, em Vila Viçosa, onde Zé Leonel rasgou umas calças de cabedal em pleno palco. O promotor do concerto fugiu para Espanha, não pagando a ninguém, nem bandas, nem bombeiros, nem forças de segurança.

Setembro
Nos dias 8 e 9 tocam na boate do Casino na praia de Santa Cruz. Zé Leonel entra de maiô em palco. «Qualquer dia havemos de abrir para os Rolling Stones» diz Zé Pedro a Kalú, enquanto tentam dormir em cima do palco.

«Eu e o Zé Pedro fizemos uma vez uma jura num concerto na praia de Santa Cruz, logo no início. Dormimos no palco e tudo. De manhã estava um frio descomunal, e o senhor estava lá a preparar uma feijoada para a malta comer.

Prometemos um ao outro que íamos ser a maior banda de Portugal! Foi uma jura daquelas!» Kalú

1980
Janeiro
Dia 26, no Laranjeiro, os Xutos & Pontapés fazem novamente a primeira parte para os UHF.

Fevereiro
No dia 23 é a vez de abrirem o concerto de Wilko Johnson, no Pavilhão do Belenenses, perante 4500 pessoas.

Tocam durante 45 minutos, com um som que deixa muito a desejar, não só pela falta de condições sonoras do pavilhão, mas também pela maneira como geralmente a produção trata as bandas nacionais.

Não dão as mesmas condições da banda principal, o que se reflecte depois na reacção do público às bandas que fazem as primeiras partes, geralmente atirando objectos para o palco. Zé Pedro consegue inverter isso ao dedicar o tema Caso Arrumado a Bon Scott, vocalista dos AC/DC, recentemente falecido. A reacção do público acaba por ser muito positiva assim como a crítica especializada, apesar de ainda os mencionar como Chutos & Pontapés. No final do concerto, Zé Leonel rasga o cheque de dez contos (cerca de 50 euros) relativo ao caché, alegando que tinham acordado pagar em dinheiro.

«Um gajo a querer ir para os copos e fica agarrado a um
cheque!?» Zé Pedro

«Os primeiros a actuar foram os Xutos & Pontapés que, se bem que recebidos com as vaias com que as nossas audiências habitualmente premeiam os grupos portugueses, se vieram a impor sem grande discussão à maioria do público. Com inteligência, a banda optou por um rock pesado, bem marcado e com a força rítmica a que as condições do recinto obrigam.» António Figueira, O Dia Zé Pedro é pressionado pelos restantes membros da banda para melhorar a sua execução na guitarra. Com a ajuda de Celeste Rodrigues (irmã de Amália Rodrigues) e do resto da banda, aplica -se diariamente e consegue
melhorar a sua técnica.

Março
No dia 21, concerto na Escola de Artes Decorativas António Arroio com os Minas e Armadilhas. No bilhete
pode ler -se «Chutos e Pontapés». Dão uma série de concertos na zona de Lisboa, mas todos os membros ainda mantêm os seus empregos; Zé Pedro na Copimaq, Zé Leonel na Companhia de Telefones, Kalú na fábrica de cortiça do pai, no Montijo, enquanto Tim estuda para o curso de Agronomia. Os ensaios mantêm-se na Senófila, religiosamente às terças -feiras, durante os próximos três anos, pagando 200 escudos por hora pelo aluguer. Zé Leonel começa cada vez mais a faltar aos ensaios, o que faz com que Tim assuma o papel de vocalista nos ensaios. Tim chega inclusive a ir a casa de Zé Leonel, motivando -o a aparecer, assim como a compor.

Desses encontros nascem vários temas como Dantes, Longe de Ti, À Minha Maneira e Viuvinha, mas nada surte efeito. Zé Leonel afasta -se cada vez mais da banda. Um teclista é testado, mas não chega a concluir o ensaio. São convidados por Manuel Cardoso, dos Tantra, para gravar nos seus estúdios. É -lhes proposto a gravação de um single, desde que mudem o nome da banda. Todos recusaram.

«Podemos nunca gravar um single, mas o nosso nome há-de ficar sempre este.» Zé Pedro

1981
Fevereiro
Entrada de Francis, que tocava na Outra Banda, juntamente com Kalú e Tim, que temporariamente substituiu o baixista, devido a uma lesão na mão. Irá ocupar o lugar de segundo guitarrista. Tim, com o dinheiro ganho na Outra Banda, investe num novo baixo.

«Fazia falta alguém, então lembrei -me do Francis.» Kalú

Tocam num festival de bandas, promovido pela Faculdade de Direito, em conjunto com os Street Kids e a banda que estaria na génese dos Rádio Macau, os Crânio.

Março
No dia 11, tiram a licença de músicos profissionais após exame no Sindicato dos Músicos, onde se cruzam com Jorge Palma.

Dois concertos no Alfeite, novamente com os UHF. Francis acerta acidentalmente no pé de Zé Leonel com um dardo, nos camarins. Os concertos não decorreram da melhor maneira nas duas vezes que Zé Leonel e Francis estiveram em palco.

«Foi um concerto muito mau. Só fizemos mais um ensaio
com o Zé Leonel e depois ele saiu.» Tim

«Eu estava tão envergonhado nesse concerto! Queria ter uma banda rock e o resultado era aquilo! Era um com uma fita no cabelo a fazer solos na frente com os olhos fechados, o Zé Leonel andava descalço porque tinha o pé inchado por causa do dardo. Um amigo do Tim tinha inventado umas panelas para fazer fumos. Era a vergonha total! Aquilo era tudo o que eu detestava na geração anterior, eu sempre fui contra os fumos! Quando vi aquilo fui para o pé do Kalú e não me mexi durante o concerto todo, estava a morrer de vergonha. Ainda tropecei no Zé Leonel que andava de gatas não sei bem a fazer o quê!» Zé Pedro

Zé Leonel anuncia a sua saída, por desinteresse. Não aparecia nos ensaios, numa altura em que a banda estava cada vez mais comprometida. Os ensaios eram algo de religioso, e inclusive ajudavam Tim nas despesas de deslocação.

«A saída do Zé Leonel foi o resultado de um afastamento natural.» Tim

«Zé Leonel, por loucura e por outras coisas… começa a perder a dedicação.»
Zé Pedro

Abril
É Tim quem toma o lugar de Zé Leonel e estreia -se como vocalista num concerto no Estabelecimento Prisional de Tires. A saudação «Boa noite, aqui Xutos & Pontapés» foi proferida pela primeira vez pela voz de Zé Pedro. A sala de ensaios é agora em Pedrouços.

«Comecei a escrever outro tipo de letras e a preparar -me ais após para esse papel. Nessa altura passei para o meio do palco para esse papel. Nessa altura passei para o meio do palco e, como se sabe, o Cabeleira entra mudo e sai calado, o Gui, se puder esconde -se atrás da bateria, o Zé Pedro entrou numa de duríssimo e não falava nada… eu era o único anormal capaz de dizer alguma coisa, ou então uns grunhidos do Kalú que às vezes saiam lá de trás. Foi uma transição que fui aprendendo.» Tim

Aparição no concurso televisivo «Ou Vai ou Taxa», com apresentação de António Sala, em directo desde Albufeira. Zé Pedro salta para cima do piano de Shegundo Galarza durante a emissão. Nessa noite, são impedidos de entrar na discoteca 7 1⁄2, onde o porteiro embirra especialmente com a fita na cabeça de Kalú.

Não fora a intervenção do gerente, amigo de Lenny, a irmã de Zé Pedro, não entravam. Já lá dentro, com os holofotes na sua direcção, foram apontados como a grande banda punk nacional.

Agosto
Participam no concurso «Só Rock» mas não passam as primeiras eliminatórias e gravam para a RTP o tema Submissão.

Gravam uma cassete com o tema Sémen no balneário do Pedrouços Atlético Clube.

«Gravámos uma cassete num balneário de um clube de futebol, no Pedrouços, para dar ao António Sérgio. Era um balneário pequenino. O Tim tocava em cima dos bancos, ao pé dos cabides e o Zé Pedro no chuveiro.» Kalú

Zé Pedro encontra -se com o radialista António Sérgio, responsável pela divulgação da música alternativa, sendo uma referência de culto entre as vozes da rádio. O radialista, ao ouvir as gravações entregues por Zé Pedro, apercebe -se do diamante em bruto que são os Xutos & Pontapés. Como António Sérgio tem planos para abrir uma editora combinam gravar em conjunto. Zé Pedro promete enviar uma gravação com mais qualidade. São marcados novos encontros tendo em vista a celebração dum contrato discográfico. Os Xutos, nervosos, receberam na sua nova (e pequena) sala de ensaio, os executivos da futura editora.

Novembro
É criada a etiqueta Rotação, uma subsidiária da editora Rossil, dando continuidade ao projecto de António Sérgio.

Acordam com os Xutos a gravação do primeiro single. Pela primeira vez entram num estúdio de gravação, o Angel Studios, considerado um dos melhores na altura. As gravações ocorrem em dois fins -de -semana, altura em que o estúdio se encontra mais vazio.

A banda faz a sua primeira entrevista nos écrans televisivos no «Porque Hoje é Sábado», da RTP, numa reportagem onde, para além de entrevistas com os músicos, se revelavam imagens dos ensaios. A reportagem é inserida num leque de programas que debatia assuntos da actualidade portuguesa. Este
programa tinha como tema o conflito geracional, ao que se seguia um debate com convidados ligados a diversos sectores da sociedade. Alguém disse nesse debate que «esses coitados não vão chegar a lado nenhum». Ainda nesse mesmo sábado a banda dá uma entrevista ao programa «Meia de Rock», da Rádio Renascença.

Dezembro
É lançado o primeiro single Sémen/Quero Mais, com a produção de António Sérgio.

«Foi a primeira experiência de estúdio, estávamos entre o nervoso e o excitado. Tocávamos juntos há três anos, dávamos concertos, mas uma coisa era “fazer um exame” e passar para o papel o que se tinha aprendido.» Zé Pedro

A fotografia da capa é tirada no pavimento da Praça de Espanha, molhando o chão para de seguida pintar o X, sendo que os ténis eram do Kalú. No Rock Rendez Vous dão um concerto como suporte do lançamento. Devido à letra de Sémen, a sua passagem é dificultada pela maior parte das rádios.

No dia 20 é organizada uma maratona de rock pelo jornal Musicalíssimo, em Vila Franca de Xira, no Pavilhão do Cevadeiro, na qual fazem parte do cartaz os Xutos & Pontapés. São premiados pelo programa de rádio «Rolls Rock», da Rádio Comercial, como a Banda Revelação. A passagem de ano é feita numa festa a bordo dum barco no rio Tejo.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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