Tudo aconteceu na quinta-feira da semana passada, no Hotel Dorchester, onde anualmente decorre o jantar de caridade só com homens do Presidents Club Charity Dinner, um discreto clube reservado a homens influentes. O jantar contava com figuras que iam da política aos negócios e até estrelas de televisão, cujos nomes estão numa lista feita pelo Financial Times que denuncia agora o caso após investigação.

O objetivo principal do jantar era angariar dinheiro para o hospital de crianças Great Ormond Street, que fica em Londres. Os leilões feitos incluíam jantares com Boris Johnson, ministro dos Negócios Estrangeiros inglês, ou um chá com o governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney. O evento contou, no total, com 360 homens, e foram contratadas 130 hospedeiras para ajudar no jantar.

[Veja no vídeo os relatos de assédio da jornalista que se infiltrou no jantar]

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Para revelar o que se passou nessa noite, a jornalista do Financial Times, Madison Marriage, infiltrou-se no hotel e revelou os detalhes chocantes da forma como foram tratadas as jovens mulheres que no jantar assumiram a função de hospedeiras. Além de obrigadas a cumprir um dress code especial — foi dito a todas as mulheres que usassem roupa preta, roupa interior da mesma cor e saltos altos — foram assediadas e, muitas vezes, agarradas por muitos desses homens, que se aproveitaram das fardas pequenas que foram obrigadas a usar, conta a jornalista. Muitas mulheres chegaram mesmo a receber propostas para acompanharem homens aos quartos do hotel.

Altas, magras e bonitas

A investigação do Financial Times dá conta ainda de que a escolha das jovens mulheres para hospedeiras no jantar foi uma tarefa de Carolina Dandrigue, fundadora da Artista, uma agência onde estão as assistentes encarregues de ajudar nas ocasiões de maior prestígio em Londres. Tinham de ser magras, altas e bonitas.

Nas entrevistas que foram feitas para escolher quem ajudaria no jantar, todas as mulheres foram avisadas de que os homens presentes no jantar poderiam “chateá-las”. Mas o Financial Times vai mais longe e conta que a uma das hospedeiras foi aconselhado que mentisse ao namorado sobre o facto de ser um evento exclusivamente masculino, e que fizesse frente aos homens que a incomodassem.

Foi ainda dito a todas as jovens que no fim do jantar poderiam ir beber alguma coisa com quem “achassem mais atraente”.

Cada uma das hospedeiras recebeu 150 libras (170 euros), e ainda um extra de 25 libras (cerca de 28 euros) para o táxi que as levaria até casa. Segundo os repórteres do Financial Times, muitas destas jovens mulheres eram estudantes, atrizes, bailarinas ou modelos.

O evento do clube faz parte do calendário londrino há 33 anos, ainda que todas as atividades que dizem respeito ao ‘Clube dos Presidentes’ nunca tenha sido muito divulgadas. As dúvidas sobre este jantar surgiram depois de, nos últimos meses, várias pessoas terem denunciado que foram vítimas de assédio sexual ou comportamento impróprio.

Além da jornalista, outros dois repórteres fizeram-se passar por convidados e ficaram cerca de seis horas no jantar, para o qual tiveram de levar, segundo as instruções recebidas, um fato preto e roupa interior a condizer. Durante o tempo em que os jornalistas infiltrados estiveram no jantar, muitas das hospedeiras que estavam a ajudar no jantar foram alvo de comentários lascivos, repetidos pedidos para acompanharem alguns dos homens até aos seus quartos no mesmo hotel e viram as mãos de alguns dos homens a subirem por dentro das saias. Um dos repórteres disse ainda que houve um homem que expôs o pénis durante o evento. O Financial Times acrescenta também que no after-party do jantar grande parte das hospedeiras do evento foram assediadas sexualmente.

Entre os homens que estavam no jantar contam-se alguns executivos de topo britânicos, como Philip Green, do Grupo Arcadia, Peter Jones, da Dragons’Den, Tim Steiner, da Ocado, Makram Azar, do banco Barclays, ou mesmo Michael Sherwood, antigo presidente do Goldman Sachs. Da política, marcou presença um dos fundadores do partido trabalhista, Jonathan Mendelsohn, da televisão, o comediante David Walliam e o apresentador Vernon Kay.

Durante os mais de 30 anos em que existe o “Clube dos Presidentes”, já foram angariados mais de 20 milhões de libras (cerca de 22 milhões de euros) para efeitos de caridade. E só este evento permitiu angariar mais de dois milhões de libras (aproximadamente dois milhões de euros).

“As mãos deles à nossa volta”, conta Madison

Esta terça-feira a jornalista que se fez passar por hospedeira, Madison Marriage, foi à BBC falar do que realmente se passou.

Marriage começou por explicar que, à semelhança do que acontece com as outras hospedeiras do evento também ela aproveita este tipo de eventos para fazer face às despesas de um trabalho que diz ser irregular.

“Eu fui agarrada várias vezes, e sei que a outras hospedeiras aconteceu o mesmo”, frisa a jornalista à BBC. “Eram mãos nas saias, nas ancas, os braços à volta das nossas cinturas (…) Falava com alguns homens que de repente estavam a agarrar as minhas mãos”, acrescentou.

Depois das revelações feitas pelos jornalistas, a agência de publicidade WPP, que patrocinou o evento este ano, anunciou esta manhã que não o voltará a fazer. Martin Sorrell, diretor da agência, não esteve no jantar este ano, mas participou no ano passado. No seu lugar, esteve o chefe de operações para a Europa, Andrew Scott.

Também o hospital Great Ormond Street já reagiu e fez questão de devolver todo o dinheiro angariado. A instituição adiantou que estão em choque com as revelações feitas. “Nunca aceitariamos dinheiro que é angariado neste contexto”, referiu o hospital em resposta à investigação do Financial Times. Ainda em reação às revelações feitas, o Clube que fez o jantar disse que “as pessoas que organizaram o jantar estão chocadas com as acusações de alegado comportamento impróprio durante o evento, é completamente inaceitável”.

Em comunicado, o Hotel Dorchester referiu que não tolerava qualquer tipo de assédio a hóspedes ou empregados. “Desconhecemos o que possa ter acontecido, mas estaremos prontos a trabalhar com as autoridades se necessário”.

Da agência de onde vieram todas as hospedeiras também já foi feito um comunicado. “Isto é uma angariação de fundos importante, que já acontece há vários anos e envolve muito dinheiro. Há um código de conduta que seguimos e eu não fui informada de quaisquer comportamentos inapropriados, se assim fosse ficaria em choque”, referiu Dandridge, fundadora da agência.

Dentro do “Clube dos Presidentes”, o Financial Times cita Barry Townsley, presidente emérito do grupo que diz que este tipo de eventos sempre foi “civilizado”, mas que como já há 10 anos que não comparece nos jantares, frisa que aquilo que aconteceu já não lhe diz respeito.