Ingvar Kamprad, o fundador da IKEA, morreu a 28 de janeiro, um domingo, e muito se falou sobre os 91 anos que viveu: o alcoolismo, a ligação a grupos nazi, a criação de um império. Mas pouco se falou sobre o futuro. O destino do gigante com 75 anos que domina o mercado do mobiliário um pouco por todo o mundo.

Kamprad tinha quatro filhos: Peter, Jonas, Mathias e Annika. Esta última, filha adotiva do primeiro casamento, nunca quis envolver-se no negócio que o seu apelido carregava. Mas os três rapazes cresceram com a assunção absoluta de que, como numa monarquia, apenas um deles iria ser o “rei do mobiliário”.

Nenhum deles, ao contrário do pai, cresceu na Suécia. Viveram sempre entre a Dinamarca e a Suíça. Mas tal como o pai, nenhum gosta de exposição pública e pouco se sabe sobre Peter, Jonas e Mathias. Deram apenas uma entrevista, em 1998, para o livro “A História da IKEA”, mas nem aí é possível perceber o que cada um pensava, já que as respostas surgem em conjunto e não se sabe quem disse o quê. Nesse livro, Ingvar Kamprad revelava a estratégia de sucessão e garantia que não queria que os filhos competissem “entre eles pelo direito de gerir a empresa”. E avisava: “Mais cedo ou mais tarde, terei de escolher um”. Mas este desejo nunca se chegou a realizar.

Segundo o El País, Kamprad foi retirando responsabilidades aos três filhos e desenhou uma estrutura societária que protege a empresa de qualquer luta pelo poder entre Peter, Jonas e Mathias. Johan Stenebo, um dos principais executivos da IKEA durante 20 anos, explicou ao jornal espanhol que Jonas está aparentemente fora da corrida.

“Eu diria que o Mathias é quem tem o leme da IKEA”, defende Johan Stenebo, resguardando-se com a premissa de que é difícil, ainda assim, ter certezas. Mathias, de 47 anos, vive em Londres e é, segundo o El País, “o mais sociável, vivo e dotado para os negócios dos três”. O mais novo dos irmãos Kamprad trabalhou para a Habitat – a empresa de móveis criada por Terence Conran que pertenceu à IKEA até 2009 – e dirigiu a filial da Dinamarca de 2004 a 2008. Fala cinco línguas e nunca andou na universidade.

Em 2016, para surpresa de todos, renunciou à presidência da Inter IKEA, a organização proprietária da marca e das franquias. Para Johan Stenebo, esta foi uma demonstração clara de que Mathias queria afastar-se dos negócios do dia a dia e focar-se num objetivo maior: construir, em conjunto com os dois irmãos, uma estratégia a longo prazo para a empresa.

Apesar de todas estas indicações, muitos artigos e testemunhos ao longo dos últimos anos apontavam para Peter como sendo o sucessor mais provável. O mais velho dos três, com 54 anos, estudou Economia numa prestigiada universidade suíça e durante 12 anos dirigiu os destinos da IKEA na Bélgica. Casado, com dois filhos, parecia o candidato ideal para suceder a Ingvar Kamprad. Mas, de acordo com aqueles mais próximos da milionária família, Mathias sabia que ia ocupar a cadeira mais importante do gigante sueco há muitos anos.

Seja quem for que fique à frente da empresa, Johan Stenebo não tem dúvidas: “Eles não foram criados nem formados pelo pai para entregar o controlo da IKEA a alguém de fora da família”.