Há um ano, Rúben Semedo era o parceiro de Sebastián Coates no centro da defesa do Sporting. Depois de uma passagem pelos espanhóis do Reus e de agarrar a titularidade no Vitória de Setúbal, encaixou no onze de Jorge Jesus e o treinador chegou a chamar-lhe “o futuro da Seleção Nacional”. O miúdo benfiquista que cresceu na Amadora estava a viver o sonho do outro lado da Segunda Circular. Um ano depois, em Espanha, a história não é tão feliz. Mas os capítulos mais problemáticos da vida de Rúben Semedo não começaram com a ida para o Villarreal.

O miúdo da Amadora que era do Benfica e foi para o Sporting

Rúben Afonso Borges Semedo nasceu e cresceu num bairro da Amadora, nos subúrbios de Lisboa. Aos cinco anos, o pai foi preso. A infância de Rúben foi passada entre a escola e a rua: os tempos livres eram ocupados com peladinhas e jogos de futebol no meio da estrada. O fã absoluto de reggae, que adotou as rastas em homenagem ao estilo de música preferido, passava os dias a jogar à bola e a ouvir música. Mas o futebol de rua e os jogos das aulas de Educação Física deixaram de ser suficientes. Pediu à mãe, Adelaide, para ir jogar para o Futebol Benfica, o famoso Fofó. E foi ali, no Estádio Francisco Lázaro, que os olheiros do Sporting o encontraram.

Era juvenil quando começou a pisar os relvados de Alcochete. A afirmação nas camadas jovens leoninas foi rápida: quase tão rápida como a deterioração da relação de Rúben Semedo com os adeptos do Sporting. Em 2011, quando ainda nem se tinha estreado pela equipa principal, já existia uma página no Facebook que pedia a saída do central do clube. Tudo porque Rúben, uns meses antes, tinha escrito na sua página pessoal na rede social esta frase: “Todos sabem que sou do Benfica, mas por enquanto represento o Sporting… mas só por enquanto”. Mais tarde, em entrevista ao MaisFutebol, explicou que a história “fazia parte do passado”, mas entendia a ira dos adeptos porque ele, “enquanto sportinguista, não gostaria que um jogador dissesse que era do Benfica”.

Os primeiros problemas na “melhor escola do mundo” e a mudança de ares

Aos 18 anos, enquanto júnior, recusou ir para o Liverpool. Explicou mais tarde que queria continuar e evoluir “na melhor escola do mundo”, o Sporting. Pela mesma altura, a Academia encobria e ajudava Rúben a lidar com os primeiros problemas com a justiça. Em 2014, quando já jogava na equipa B, foi apanhado a conduzir sem carta durante a madrugada. A prova de que Rúben estava a passar uma fase mais conturbada chegou quando o central se desentendeu com um colega de equipa durante um treino e quando, depois de ser expulso contra o FC Porto B, atirou a camisola para o chão enquanto saía de campo. Estava na altura de mudar de ares.

[Veja aqui as histórias de violência de Rúben Semedo em Espanha]

[jwplatform 5RL9UAXw]

Na época 2014/15, foi emprestado ao Reus, que não joga sequer na principal liga espanhola. A mudança fez-lhe bem. No balneário, encontrou um núcleo duro de jogadores portugueses que o fizeram sentir em casa. Na mesma entrevista ao MaisFutebol, fez revelações sobre a ida para Espanha: “Foi importante para me afastar do ambiente em que estava, para me afastar das más influências e não me deixar consumir por isso”. Mas para se afastar do que era mau, também teve de se afastar do que era bom. Quando rumou a Reus deixou em Portugal a mulher e a filha, Estela, na altura com um ano. Foi por isso que a possibilidade de rumar ao Vitória de Setúbal, e assim regressar a casa, lhe pareceu um milagre.

O regresso a casa e a afirmação no Sporting de Jesus

Conquistou a titularidade no centro da defesa sadina logo nos primeiros meses da época, o que lhe valeu um telefonema de Jorge Jesus na pausa de inverno. O assunto? O regresso a Alvalade. Voltou e disse que era seu o lugar ao lado de Sebastián Coates: terminou a época como uma das grandes revelações. A temporada 2016/17 foi menos regular e passou o ano a discutir com Paulo Oliveira um lugar no onze inicial. Na janela de transferências de verão do ano que passou, uma coisa era certa: Rúben Semedo ia sair.

Primeiro, pensava-se que para o Lille. No último jogo da época em Alvalade, a Juventude Leonina chegou a levantar uma tarja onde se lia “bon voyage”. Depois, a ida para Newcastle estava certa. Mas a venda de Mateo Musacchio ao AC Milan levou o Villarreal a procurar desesperadamente um defesa central. O processo acelerou e o “Submarino Amarelo” levou Rúben Semedo por 14 milhões de euros.

Espanha, Villarreal e três detenções em quatro meses

A segunda passagem por Espanha começou a ser difícil desde o início. Esta temporada, Rúben Semedo só jogou 321 minutos, divididos entre quatro jogos da Liga Espanhola e um da Liga Europa. Depois de quatro jogos em dez dias, em setembro, só voltou a pisar os relvados em dezembro. Lesionou-se e foi operado a uma rotura miotendinosa na perna direita. Em condições normais, estaria apto em março. Mas nada do que se passou a seguir foi “normal”.

Os problemas com a justiça espanhola começaram ainda em outubro de 2017. Durante uma saída com um grupo de amigos a uma discoteca, Rúben terá agredido gratuitamente um indivíduo. A vítima contou ao El Español que o jogador começou a agredi-lo sem motivo aparente e que, momentos depois, o grupo de amigos de Rúben apareceu para os separar. Para se redimir, o internacional português sub-21 chamou a vítima ao carro para lhe oferecer uma camisola autografada do Villarreal. Aí, terá utilizado uma garrafa que tinha no bolso para voltar a agredir o indivíduo. Foi detido mas acabou por ser libertado. Durante o mesmo mês, voltou a ser pai: desta vez de um rapaz, Isaac.

Dois meses depois, em dezembro, voltou a ser detido pela Polícia Nacional. Desta vez por alegadamente ter ameaçado um empregado de uma das discotecas mais conhecidas de Valência com uma pistola. A denúncia contava que Rúben Semedo esperou pela vítima à porta do estabelecimento, onde puxou da arma que tinha por debaixo da camisola e perguntou: “E agora? Chama os seguranças”. O central português foi detido e posteriormente libertado, ainda que o Ministério Público tenha pedido uma pena de prisão de dois anos.

E não há duas sem três. Este mês, foi detido pela terceira vez em apenas quatro meses. De acordo com o jornal Las Provincias, o autor da queixa acusa Rúben Semedo e outros dois homens de o terem atado e agredido em casa do jogador. Depois, os agressores terão roubado não só as suas chaves de casa mas também dinheiro e tudo o que os pudesse implicar no assalto. A vítima, que apresentava várias contusões no corpo, contou que o antigo jogador do Sporting ameaçou cortar-lhe um dedo e que um dos outros assaltantes ainda disparou dois tiros, sob forma de ameaça.

Rúben Semedo ficou detido duas noites até ser ouvido, esta quinta-feira, por um juiz de primeira instrução de um tribunal de Valência. Vai aguardar julgamento em prisão preventiva. Com 23 anos, é acusado de tentativa de homicídio, agressão, ameaça, sequestro, posse ilegal de armas e assalto. O amigo Gelson Martins, que o conhece desde os tempos do Fofó, garante: “Estou contigo até ao fim do mundo”.

View this post on Instagram

Cu bo ti fim do mundo ????????????????

A post shared by Gelson Martins (@gelsondany77) on

Em maio de 2016, na entrevista ao MaisFutebol, Rúben Semedo dizia que tinha mudado. “Mudei o meu estilo de vida e isso ajudou-me muito. Quando se muda o estilo de vida fora de campo, isso reflete-se dentro de campo. Não tenho dúvidas de que hoje sou um jogador muito mais calmo e maduro.”

Texto editado por Rita Ferreira