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O Conselho de Segurança da ONU reúne-se esta sexta-feira para votar a resolução proposta pela Suécia e pelo Kuwait que previa um cessar-fogo de 30 dias para o conflito no Síria. A Rússia, no entanto, já fez saber que considera a sugestão “irrealista”, o que faz antever um possível veto de Moscovo esta sexta-feira. Enquanto as Nações Unidas discutem, os ataques a Ghouta oriental — um enclave rebelde nos subúrbios de Damasco, capital do país controlada pelas tropas de Bashar Al-Assad — continuam.

A proposta de cessar-fogo apresentada na quinta-feira previa uma interrupção nas hostilidades, com exceção dos ataques a membros da Al-Qaeda e de outros grupos terroristas, para possibilitar a entrada de ajuda humanitária em Ghouta. O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu uma suspensão imediata “de todas as atividades de guerra” e declarou que os civis de Ghouta estão a viver “o inferno na terra”.

Contudo, o embaixador da Rússia na ONU, Vassily Nebenzia, criticou a proposta e apresentou alterações de última hora ao texto, propondo antes uma “pausa humanitária” e o “fim das hostilidades o mais cedo possível”. Segundo o New York Times, Nebenzia acusou os representantes da ONU de terem cedido à “psicose em massa” levada a cabo pelos media, que acusou de difundir “cenários de catástrofe propagandísticos”. Segundo Nebenzia, os jornalistas não têm noticiado que há centenas de rebeldes, alguns membros da Al-Qaeda, a refugiarem-se em hospitais e escolas.

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Alguns diplomatas ouvidos pela Associated Press comentaram que as alterações propostas pela Rússia eram “inaceitáveis”. O Conselho de Segurança deverá reunir-se esta sexta-feira e votar a proposta, a partir das 16h. Para ser aprovada, relembra o Guardian, tem de obter nove votos a favor e nenhum veto dos cinco membros do Conselho — Rússia, China, EUA, Reino Unido e França –, sendo que a Rússia, aliada de Assad, já vetou por 11 vezes propostas relacionadas com a guerra na Síria.

“Até quando estamos a retirar pessoas dos destroços somos atacados sem misericórdia”

As forças de Assad, possivelmente apoiadas pelos russos, têm concentrado os seus esforços de guerra em Ghouta oriental e, particularmente, em hospitais, ambulâncias e outras zonas frequentadas por civis. “Temos documentado que o Governo sírio tem atacado locais médicos com rockets direcionados”, disse ao Guardian Mona Zeineddine, do Centro de Documentação de Violações, uma ONG que reúne informação sobre os ataques na Síria.

Também Abu Saleh al-Ghoutani, um condutor de ambulância, disse ao mesmo jornal que os socorristas são propositadamente atacados: “Até quando estamos a retirar pessoas de debaixo dos destroços ou a levá-las aos hospitais somos atacados diretamente e sem misericórdia.” Ao todo, 22 hospitais e clínicas já foram atacados desde o início da semana, 13 deles apoiados pelos Médicos Sem Fronteiras.

O coordenador da ONU para a Síria, Panos Moumtzis, explica que a população de Ghouta oriental não tem acesso a comida, água, nem a eletricidade, e que 80% da população da cidade de Harasta está a viver em abrigos no subsolo, para se proteger dos bombardeamentos constantes.

Até a guerra tem regras e estas ações violam inúmeras resoluções da ONU”, declarou Ghanem Tayara, presidente da União das Organizações de Cuidados Médicos. “Nas batalhas militares, até os mortos e os feridos têm direito a ser removidos. Os civis de Ghouta não têm direito a essa dignidade.”

O subúrbio de Ghouta oriental está a ser bombardeado desde o início da semana. Só esta quinta-feira morreram 42 pessoas, na sequência de um único ataque. Ao todo, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, 416 pessoas morreram desde a noite de domingo. Mais de duas mil pessoas estão feridas. Outros milhares continuam à espera por comida e água.