Há 22 anos foi assim: desfile de José António Tenente nos Armazéns Terlis, em Alcântara, e muitos nervos à flor da pele. Helena foi convidada a integrar a equipa de cabeleireiros (na altura, hairstylist era uma designação distante) da ModaLisboa e aceitou, pois claro. “Foi maravilhoso. Estava nervosa e continuo a estar. Trabalhávamos com uma coisa daqui, outra dali, a manequim tinha um batom e cada um trazia o que tinha em casa para isto acontecer”, conta Helena Vaz Pereira, num dos poucos momentos em que se respira fundo e puxa uma cadeira.

Feitas bem as contas, 22 anos são uma vida passada nos bastidores da ModaLisboa. Quando se assinala a 50ª edição do evento, conversar com Helena, proprietária do salão GriffeHairstyle, é também ouvir a história desta semana da moda à portuguesa. Diz que continua a ficar nervosa como no primeiro dia, a diferença está na equipa de 16 pessoas que lidera estação após estação. “Isto é duro e a moda não é aquele glamour todo que se pensa. Há muito stress, tens que gostar mesmo disto para aguentar”, explica.

Em média, numa edição da ModaLisboa, passam-lhe pelas mãos perto de 200 cabeças. Além de serem muitos fios de cabelo, é também um trabalho que exige a sua antecedência e que começa cerca de duas semanas antes dos desfiles. É preciso reunir com os designers, conhecer as coleções, discutir ideias, perceber o que é exequível e, sobretudo, o que não é. Fala em jogo de cintura, mas também em relações de amizade que facilitam a troca de ideias. “Com o tempo, consegues perceber melhor a linguagem de cada um e fica mais fácil. Uns são mais irreverentes, uns são mais clássicos, e o que fazemos é ajudar a contar uma história, a história que o criador quer mostrar. Muitas vezes, vamos desenvolvendo as ideias e, de repente, no final, não tem nada a ver com o que tínhamos pensado no ponto de partida. É uma construção”, afirma.

Nos bastidores da 50ª ModaLisboa, Helena testa o look de um dos desfiles © Henrique Casinhas/Observador

Preparar cada look para pisar a passerelle é um puzzle com várias peças. Helena e a sua equipa são uma delas e isso implica passar horas a fio nos bastidores. Mais de 10 por dia? Quando o calendário é mais preenchido, seguramente. Para cada desfile, é preciso passar um briefing, uma demonstração a que a equipa assiste atenta, quase sempre a formar uma roda à volta da mestre. É ver e aprender. Num trabalho onde tudo tem de ser rápido, também há lugar para incidentes e há um em particular que lhe vem imediatamente à cabeça. “Já foi há uns anos. Puseram uma franja postiça numa modelo e, a cortá-la, apanharam também o cabelo dela. No fim, quando tiraram a falsa, o cabelo dela estava todo cortado á frente. Foi muito complicado”, conta.

Do campeonato do desenrasque, também há histórias para contar, como aquela em que um designer decidiu, à última da hora, juntar mais uma manequim ao lineup. Teria sido tranquilo se as modelos não fossem desfilar com uma peça muito específica na cabeça. Resumindo, o desfile estava prestes a começar, com todos os coordenados já vestidos e um dos elementos da equipa a correr para o salão para ir buscar a peça que faltava. Acabou tudo bem, ela desfilou e fez um brilharete.

Entre trazer designers de volta para a terra ou ajudar a que as suas coleções levantem voo na passerelle, aos 50 anos, Helena não quer nem ouvir falar em passar o testemunho. Começou no tempo em que os penteados eram muito mais elaborados e assiste agora à vaga de descontração que tomou conta do universo criativo. A pólvora já ninguém descobre, mas não custa tentar. “Às vezes, riu-me com os próprios criadores. Quando fazes isto há tantos anos, começas a pensar: ‘Ah, mas já fizemos isto’. Está tudo inventando, mas o importante é ir buscar a base do que já fizemos e adaptar, dar-lhe um upgrade. Há sempre algo novo para fazer, mas é difícil”, conclui.