Videojogos

Far Cry 5: o videojogo que é um retrato da América proibida

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"Far Cry 5" traz-nos um dos mundos virtuais mais assustadoramente realistas, passado no interior dos EUA quando um culto religioso militarista isola um condado sem que ninguém dê conta.

Joseph Seed é o brilhante antagonista de Far Cry 5, e o auto-intitulado "The Father" do culto "The Project at Eden’s Gate"

Autor
  • Rubber Chicken

A atualidade geopolítica tem exercido um grande impacto na criação de videojogos e as grandes produções não têm sido imunes a isso. Wolfenstein 2 confrontou-nos com a realidade do crescimento das tendências de extrema-direita nos EUA (e no mundo), com a sua violenta abordagem a uma História alternativa em que o Reich venceu a Guerra e dominou todo o planeta. Meses depois é Far Cry 5, da gigante francesa Ubisoft, a fazer-nos um reality check semelhante.

Far Cry é uma das séries em mundo aberto que tem, ao longo destes 15 anos, ajudado a definir não só o seu género, como a direção do próprio mercado dos videojogos. Mas se há algo em que a série quase sempre consegue evidenciar-se é na sua qualidade narrativa, criando histórias imersivas e muita vezes polémicas, com um grande destaque na escrita e construção dos seus antagonistas. Depois dos títulos principais da série terem percorrido ilhas tropicais, África e os Himalaias, Far Cry 5 leva-nos para o Montana nos EUA, para um Condado ficcional ocupado por um culto religioso.

O prólogo deste jogo é possivelmente um dos mais memoráveis que já tivemos oportunidade de jogar. Sobrevoar o interior dos EUA dentro de um helicóptero numa noite de chuva, acompanhado pelo Xerife de Hope County com um mandato federal pela captura de Joseph Seed (interpretado por Greg Bryk), o auto-intitulado “The Father” do culto religioso paramilitar “The Project at Eden’s Gate”.

Entrar com calma pelo território do culto com homens e mulheres armados e preparados para o confronto e interromper um sermão de Seed numa igreja típica do interior norte-americano é uma sequência impressionante como abertura de história. O momento de tensão que se cria ao algemarmos o líder do culto durante a missa, rodeado pelos seus irmãos e sub-líderes do Eden’s Gate é um dos mais marcantes da história recente dos videojogos, com uma sequência dramática e cinematográfica ímpar.

É durante este processo que percebemos que Seed e o Culto passaram anos a comprar propriedades no condado, a aumentar o território próprio em Hope County, à espera daquilo que o líder anunciava: o Colapso, o momento em que a fé dos seus seguidores seria posta à prova e em que teriam de preparar-se para o fim do mundo. A nossa tentativa de o prender é descrita como o momento profetizado para o início do Colapso, o momento em que os pecadores serão julgados e o Culto cumprirá com a sua missão. Toda a comunicação externa do condado é cortado, seja pela explosão de pontes, pelo controlo dos rios, pela expropriação de terras e avionetas, e até pelo corte completo da Internet e telefones. A sua localização geográfica no interior de cordilheiras no Montana ajudam a criar este isolamento, e a administração central está completamente às escuras do real perigo que este Culto paramilitar de desvio cristão tem com a sua pseudo-independência do território.

Com a percepção clara do mundo real de que a maior ameaça terrorista em solo norte-americana é interna, Far Cry 5 vem tocar num ponto ainda muito amargo pelos recentes e recorrentes ataques terroristas de americanos no seu próprio país. Traça este retrato do isolamento provinciano, do quão fácil é extremar os cidadãos através do medo e do fervor da religião e quanto o culto da imagem pode ser um dos calcanhares de Aquiles daquela sociedade. O risco que a Ubisoft correu quando decidiu trazer a série para um problema tão atual e real foi grande.

É interessante a forma como são os canadianos (foram os estúdios de Montreal e Toronto da Ubisoft quem desenvolveu este jogo) a observarem os vizinhos do lado e a identificarem e retratarem uma América que muitas vezes fica fora da exposição mundial, e que se torna num dos grandes segredos da dureza e do peso narrativo que este Far Cry 5 tem.

Depois de escaparmos do caos que adveio da tentativa de detenção de Joseph é que temos contato com a realidade de Hope County, onde o Colapso levou à invasão das propriedades restantes que ainda não eram pertença do Culto, e onde uma pequena Resistência tenta impedir a hegemonia da família Seed e defende a paz na sua terra-natal.

A equipa que desenvolveu Far Cry 5 passou muito tempo no Montana para construir este condado fictício, mas ao mesmo tempo realista. Sendo um jogo em mundo aberto o mapa deste jogo é gigantesco e hiper-detalhado, com uma coesão de construção que nos dá a ideia de Hope County ser um local real, mimetizado para videojogo através de uma tradução detalhada entre a observação do mundo e a transposição virtual. Sejam as suas quintas isoladas, a sua fauna selvagem ou a diferenciação geográfica com montanhas que vemos à distância e que podemos visitar, esta região virtual é tão credível e tão minuciosamente detalhada que é impossível não imergirmos no seu setting.

Apesar de ser um FPS, um jogo de tiros na primeira pessoa, a forma como Far Cry 5 luta contra uma série de fórmulas, algumas delas criadas por si ou pela própria Ubisoft vem ajudar a diferenciá-lo. Com uma liberdade de movimento e ação total, este jogo envolve-nos numa verdadeira ideia de exploração ao obrigar-nos a calcorrear o território para conhecermos o que lá está. Foi com a série Assassin’s Creed que a Ubisoft criou um elemento que se viria a propagar por grande parte das mega-produções de videojogos e que residia na necessidade de escalarmos a pontos altos das cidades em mundo aberto (usualmente torres altaneiras, escaláveis) e dessa forma “desbloquearmos” informações de pontos importantes no mapa. Far Cry 5 apaga tudo isso e obriga-nos, tal como The Legend of Zelda: Breath of the Wild a fazer uma exploração mais orgânica, em que é a nossa movimentação a pé, de carro, ou até de barco, avião e helicóptero, que nos fazem encontrar localizações no mapa. Este pequena grande diferença de mentalidade em relação aos jogos abertos da Ubisoft torna a experiência de conhecer todo o mapa como algo pessoal, e de verdadeira descoberta, tal como faríamos numa situação similar na vida real.

É nesta exploração pelas três regiões principais de Hope County que todo o enredo e os subenredos se desenrolam. Apesar do condado ser propriedade do Culto, e em extremo, do seu líder, este dividiu o território pelos três irmãos, que o controlam de formas distintas, e que por lá mantêm a tirania do Culto. Se Joseph Seed é um antagonista que nos cria a vontade de o conhecermos melhor, às suas motivações e é um dos pontos altos da construção deste mundo, a sua família, com quem acabamos por ter muito mais contacto, não lhe fica atrás. O Sul foi ocupado por John Seed, o irmão mais novo e “Baptista”, um ex-advogado que foi aos poucos garantindo a aquisição de grande parte do Condado e que é um sociopata torturador responsável por grande parte dos raptos e conversões forçadas ao Culto. O Nordeste, controlado por Faith Seed, a irmã mais nova, e que submete os não-crentes a campos de trabalhos-forçados sob o efeito da sua droga de condicionamento mental, e o Noroeste, controlado por Jacob Seed, um ex-militar que serve de líder militar do treino que recruta e treina os novos cultistas. O desenvolvimento narrativo dos irmãos Seed é um dos pontos altos deste jogo, que tem uma das histórias mais interessantes e complexas, e sobretudo credíveis do mercado contemporâneo.

É frequente que as missões secundárias nos jogos sejam apenas uma forma de nos manter ocupados de forma vazia, mas Far Cry 5 quis ir mais longe. Estas missões opcionais ajudam a definir este mundo, com ideias e objectivos interessantes que nos fazem contactar com muitos membros da Resistência, as suas dores, as suas histórias e as suas lutas para se defenderem da ameaça do Culto. Missões estas que vão desde resgatar membros de família raptados pelos acólitos de Seed, passando por salvar pessoas presas dentro de edifícios colapsados e bunkers e até por levar a mulher de um dos personagens principais até uma parteira para que o parto ocorra em segurança. Tudo isto com a possibilidade dos restantes membros da resistência nos ajudarem nas nossas aventuras e confrontos com o Culto, à medida que esses resistentes passam a fazer parte do nosso círculo pessoal. Ou, de forma relativamente inovadora, a possibilidade de jogarmos este jogo na íntegra em modo cooperativo online com alguém que também tenha o jogo.

Pelo caminho, por este reconhecimento de Hope County e das centenas de personagens e missões que temos, existe a necessidade de ir “limpando” de cultistas as propriedades ocupadas, que vão desde aeródromos, bombas de gasolina a quintas, e devolvendo à região alguma da paz e normalidade que existia antes do jugo de Seed. Há muito para viver e experienciar em Far Cry 5, um jogo que peca apenas pelo caos instalado em algumas das quase omnipresentes sequências de acção, e que nos deixam facilmente assoberbados. Mas a sua construção detalhadas e hiper-realista de um condado ficcional no Montana transforma-o numa das melhores experiências visuais da tecnologia actual, e no qual sentimos verdadeiramente o realismo quando estamos a sobrevoar o território e percebemos todos os ínfimos detalhes atribuídos para tornar este território credível.

Mas acima de tudo é na história que Far Cry 5 encerra aquilo que é em quase todos os pormenores um jogo verdadeiramente brilhante. Um rol de antagonistas interessantes, cruéis, em alguns aspetos relacionáveis pela sua humanidade (ou pela falta dela) e que os transforma em alguns dos melhores vilões que o meio já conheceu. A qualidade do enredo é soberba, e desenvolvida com o cuidado que um tema infelizmente tão real e tão pesado merece, num mundo ficcional mas infelizmente verosímil pelo decorrer dos extremismos que vão tomando cada vez mais força nos EUA e no resto do mundo.

Num ano com excelentes promessas em termos de videojogos, Far Cry 5 é indubitavelmente um dos grandes jogos de 2018 e um dos mundos mais bem escritos de sempre neste meio. Um mundo virtual com o qual nos conseguimos relacionar e que nos faz pensar bastante naquele em que vivemos, sob uma temática politizada e contemporânea que nos leva a ver sob o ponto de vista de um objecto videolúdico uma das muitas realidades que habitam o território norte-americano. Este é um videojogo brilhante que funciona como espelho de uma América extremada, isolada, de fervor religioso e militarista, caricaturando os perigos que nela residem. Uma América à lei da bala onde o carisma de tiranos tem mais peso do que o bom-senso e o sentido de Humanidade.

Far Cry 5 é um jogo para maiores de 18, disponível para PC, PS4 e Xbox One por 59,99 euros desde 27 de Março.

Ricardo Correia, Rubber Chicken

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