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Giuseppe Conte, um especialista em Direito Administrativo praticamente desconhecido do grande público, está na calha para ser o próximo primeiro-ministro de Itália. Conte, que está associado ao Movimento 5 Estrelas (M5S) desde 2013, terá sido o nome mais consensual entre os líderes do M5S e da Liga, que o indicaram para o cargo ao Presidente do país, Sergio Mattarella. Luigi Di Maio, líder do M5S, confirmou isso mesmo, dizendo que este é um “momento histórico”.

Demos ao presidente o nome da pessoa que pode que pode avançar com um pacto de governo”, afirmou Di Maio, citado pela agência Bloomberg.

No passado domingo, Mateo Salvini, líder do partido nacionalista Liga (ex-Liga Norte), afirmou: “Chegámos a acordo relativamente a um líder e aos ministros e esperamos que ninguém vete uma escolha que representa a vontade da maioria dos italianos”. Salvini adiantara logo no domingo que o candidato a primeiro-ministro não seria um político, mas sim um “profissional” que ajudou a redigir o programa conjunto. Recorde-se que os dois partidos anti-sistema têm estado em negociações para formar Governo desde as eleições, em março, tendo chegado a acordo na passada sexta-feira.

Movimento 5 Estrelas e Liga chegam a acordo para formar Governo. Mas há reservas

De acordo com o Repubblica,  Salvini terá a pasta da Administração Interna e Luigi di Maio (líder do M5S) ficará com o ministério do Trabalho.

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Conte, de 54 anos, é um especialista em Direito Administrativo que dá aulas na Universidade de Florença. Segundo os media italianos, nasceu no sul de Itália, em Apulia, formou-se na Universidade La Sapienza em Roma e estudou mais tarde em lugares como Yale, Sorbonee e Cambridge.

O seu primeiro contacto com a política deu-se em 2013, através do M5S. “Eles ligaram-me e pediram-me que estivesse disponível para ser indicado como membro do órgão autónomo da Justiça Administrativa [no Parlamento]. Por honestidade intelectual, disse-lhes que não tinha votado neles e que não era simpatizante“, contou o próprio, como recorda o Il Fatto Quotidiano.

Pouco se sabe das ideias políticas do professor de Direito. Em fevereiro, numa entrevista ao programa de televisão DiMartedì, Conte explicou que “tradicionalmente” o seu coração tem “batido à esquerda”, mas rejeitou que seja esse o seu posicionamento atual: “Hoje penso que os esquemas ideológicos [dos anos de 1900] não são os mais adequados. Penso que é mais importante avaliar o trabalho de uma força política com base na sua posição no respeito pelos direitos e liberdades fundamentais. E na sua capacidade de desenvolver programas úteis para os cidadãos “, afirmou o homem que, no WhatsApp, tem uma fotografia de John F. Kennedy e a frase “cada feito começa com a decisão de tentar”.

Durante a campanha eleitoral, também explicou por que razão se juntou ao M5S, justificando a decisão com “a lógica do espírito de serviço”. “Estou particularmente empenhado em objetivos ambiciosos: simplificar as relações entre a administração pública e os cidadãos e disseminar a cultura da legalidade. E respeitar o artigo 54 da Constituição, onde se afirma que os responsáveis ​​pelas funções públicas têm a obrigação de cumpri-los com disciplina e honra”, disse. Di Maio, líder da força política populista, apelidou-o durante a campanha de “sburocratizzatore”, que é como quem diz “desburocrata”.

O homem que em tempos votou à esquerda e que não era sequer simpatizante do M5S deverá agora ser o primeiro-ministro de um Governo de um partido nacionalista de direita (a Liga) e do próprio M5S. Falta apenas o aval do Presidente Mattarella e a aprovação do Parlamento italiano para que Conte e companhia tomem posse e coloquem em prática um programa que inclui descida de impostos, deportação de migrantes fim das sanções à Rússia.

Os mercados não têm reagido de forma positiva ao acordo de governação entre estes dois partidos, com os juros da dívida italiana a subirem, mas os dirigentes políticos têm evitado pronunciar-se. A exceção foi Bruno Le Maire, ministro fas Finanças francês, que este domingo avisou os italianos de que as regras europeias são “para respeitar”, como conta o Financial Times. Salvini, líder da Liga, apressou-se a responder no Twitter, invocando um slogan semelhante ao popularizado por Donald Trump: “Outra invasão de campo inaceitável. Não pedimos os votos e a confiança para continuar no caminho da pobreza, da precariedade e da imigração: os italianos primeiro!