Uma, duas, três, quase quatro horas. 60, 120, 180, quase 240 minutos. A reunião dos órgãos sociais na passada segunda-feira em Alvalade foi longa, mas nem por isso deixa de ser resumida a um parágrafo: Jaime Marta Soares, presidente demissionário da Mesa da Assembleia Geral do Sporting, queria que Bruno de Carvalho (e o restante Conselho Diretivo) se demitisse para marcar eleições; Bruno de Carvalho fez ver que não existe nenhuma razão para se demitir nem para haver eleições. E assim se ficou, com um prazo de 72 horas para novo encontro onde se chegaria a uma solução de consenso que todos sabem que não vai existir.

No entanto, esta reunião teve o condão de mexer com todo o universo Sporting. O presidente leonino traçou um plano de ação com vários passos para mostrar que tem as condições mais do que necessárias para manter o cargo; as principais figuras com a possibilidade de avançarem num cenário de eleições antecipadas foram fazendo reuniões ao almoço e ao jantar para aferirem sobre as reais condições de formarem listas caso se chegasse a esse ponto; os movimentos de sócios que estão a recolher os 1.000 votos necessários para uma Assembleia Geral Extraordinária aceleraram o processo; Marta Soares andou na expetativa para saber se surgiria esse pedido de reunião magna ao mesmo tempo que foi traçando um plano B caso essa ideia não se confirme. Esta quinta-feira, haverá sempre uma decisão. Para um lado ou para outro. E todos se prepararam para o que daí surgir.

O plano de ação de Bruno de Carvalho e os motivos para resistir

Bruno de Carvalho esteve quase para não participar no encontro dos órgãos sociais de segunda-feira, por considerar que não tinha recebido qualquer convite para o mesmo. No entanto, após saber da intervenção de Marta Soares quando entrava no Multidesportivo de Alvalade, e como estava também no piso 3, acabou por aparecer com mais elementos do Conselho Diretivo: o vice Carlos Vieira e os vogais Rui Caeiro, Alexandre Godinho e Luís Roque (José Quintela e Luís Gestas, por terem compromissos profissionais e, no caso do último, por se encontrar no estrangeiro, não estiveram presentes).

Ao contrário do que se poderia pensar, a reunião não motivou momentos de maior exaltação e, genericamente, decorreu de forma serena e com trocas de ponto de vista. No caso do presidente leonino, com uma certeza: não se demite. E não se demite por quatro grandes motivos, que foram escalpelizados perante os presentes e que já tinham sido abordados na conferência de sábado:

1) foi eleito de forma democrática com cerca de 90% e ainda em fevereiro teve a mesma percentagem de aprovação na Assembleia Geral do Pavilhão João Rocha, uma das mais concorridas da histórica do clube;

2) não considera ter feito nada como responsável máximo que pudesse lesar o clube ou que fosse contra os estatutos;

3) o Sporting tem compromissos muito importante pela frente a breve prazo, como o acordo que está a ser feito para outra reestruturação da dívida, o lançamento do novo empréstimo obrigacionista ou a preparação da nova temporada do futebol;

4) destacou, mais do que uma vez, que está a ser alvo de uma campanha orquestrada por terceiros, incluindo o rival Benfica, no sentido de fragilizar a sua posição no clube e o próprio Sporting, dizendo mesmo que a operação CashBall e tudo o que está à sua volta não resultará em nenhuma condenação, nem para o team manager do futebol, André Geraldes, nem para os leões.

Por tudo isto e mais alguns pormenores que ia deixando cair, Bruno de Carvalho bateu o pé. Recusou o cenário de demissão. Disse mesmo que alguns membros que tinham saído poderiam estar arrependidos. E avançou com o seu plano de ação, que foi sendo desenhado nos últimos dias com o seu núcleo duro de pessoas mais próximas, quase como se nada se tivesse passado e não estivessem vários quadrantes do clube a pedir a sua saída com eleições antecipadas:

  • Suspensão imediata dos benefícios à claque Juventude Leonina, que têm sobretudo a ver com bilhética e logística;
  • Anúncio do pedido (aceite, de acordo com o comunicado colocado pelo clube de Alvalade) de uma audiência urgente com o primeiro-ministro, António Costa, bem como a total abertura e disponibilidade para um encontro com o Secretário de Estado para o Desporto, João Paulo Rebelo, para “reforçar, desenvolver e melhorar as propostas e aplicação de medidas que visam o combate à violência no desporto”;
  • Agora que o futebol já terminou a sua época, apoio a todas as equipas das restantes modalidades, que entram nas fases decisivas do Campeonato Nacional ou da Taça de Portugal (como o futsal, o andebol ou o hóquei em patins);
  • Explicação, num comunicado conjunto assinado com a 2045 Empresa de Segurança SA, de todas as medidas tomadas para reforçar a segurança e vigilância na Academia, não só a nível de reforço de elementos especializados, câmaras e iluminação mas também na ligação com as autoridades, nomeadamente a GNR;
  • Apresentação pública de todas as datas da pré-temporada da equipa de futebol (mesmo sem o nome de nenhum dos adversários que o Sporting irá defrontar nessa fase mais precoce da época);
  • Contratação de Augusto Inácio para o cargo de diretor geral do futebol, não como substituto de André Geraldes (que voltará quando tiver condições para isso) mas como reforço da estrutura;
  • Decisão de Bruno de Carvalho deixar o banco de suplentes (passando assim a ocupar apenas a Tribuna Presidencial);
  • Anúncio oficial dos primeiros reforços para a equipa na temporada de 2018/19: o central Marcelo, que estava garantido desde janeiro mas que acabou por ver a sua vinda para Alvalade adiada para este Verão, e o avançado Raphinha, do V. Guimarães, que foi alvo no mercado de Inverno mas que acabou por ficar na Cidade Berço;
  • Reforço da estrutura de comunicação, com a inclusão de Fernando Correia, que atualmente estava na Sporting TV como comentador e apresentador, como novo porta-voz do presidente (figura que nunca existiu em cinco anos), “permitindo que o presidente se dedique ainda mais às suas funções executivas e institucionais”.

Traduzindo as medidas, houve três objetivos muito claros nesta completa revolução em 72 horas de vários pontos que sempre motivaram muitas críticas durante anos mas que foram agora alterados: ter uma menor exposição mediática; evitar o desgaste provocado pelas constantes intervenções contra rivais, órgãos federativos ou antigos dirigentes, bem como o uso do Facebook (que no domingo voltou a ser criticado, até pela forma como iam sendo “limpos” os comentários contra si); e responder a todas as críticas internas e externas (até no âmbito governamental) ao que se tinha passado em Alcochete na passada terça-feira.

Em paralelo, Bruno de Carvalho conseguiu ir respondendo aos “fantasmas” externos que lhe iam aparecendo, nomeadamente a rescisão unilateral de jogadores (que não aconteceu, nem em bloco nem de forma individual), a ligação próxima com as claques (uma das críticas que lhe eram apontadas) e a falta de elementos para preparar de forma estruturada a próxima temporada. Isto sabendo que, a qualquer momento, poderia ter mais baixas no Conselho Diretivo, algo que foi conseguindo controlar apesar das muitas pressões, inclusive partidárias, para um ou mais elementos poderem apresentar a demissão e levar o clube para eleições. De acordo com as últimas informações recolhidas pelo Observador, o presidente leonino sente-se cada vez mais confortável com a posição tomada, a ponto de poder aceitar ir a eleições para evitar uma Assembleia Geral Extraordinária (para esclarecimento dos sócios ou para a sua destituição) que, reconhece, podia ser complicada em termos de segurança.

A posição de força de Marta Soares, à espera do pedido de AG

Da parte da Mesa da Assembleia Geral, em particular do líder demissionário Jaime Marta Soares, existe a clara convicção de que o Sporting não conseguirá resistir muito mais tempo no clima de guerra civil que se vem adensando com o passar dos dias e que ficou bem visível na final da Taça de Portugal, onde o próprio presidente da Mesa, impedido por opção do Sporting de ver o jogo na Tribuna de Honra do Estádio Nacional, sentiu múltiplas reações a favor e contra a liderança do clube.

Na reunião da passada segunda-feira, Marta Soares começou inicialmente por manifestar o desejo em ver o Conselho Diretivo seguir os passos dos restantes órgãos sociais e pedir também a demissão do cargo, ao mesmo tempo que assegurou que não havia qualquer tipo de Comissão de Gestão e que o atual elenco poderia nesse período manter a gestão corrente do clube e da SAD. Gorado esse cenário, acabou por apontar para duas outras frentes mais complexas no futuro:

1) Avançar com o pedido de uma Assembleia Geral Extraordinária com o carácter urgente para propor aos sócios a possibilidade de sufragarem o cenário de uma reunião magna para destituir os atuais corpos sociais ainda no ativo;

2) Abertura de um processo disciplinar à conduta recente do Conselho Diretivo, o que poderia, numa das sanções mais pesadas, levar à destituição dos membros do Conselho Diretivo ainda em funções.

O Observador sabe que, apesar dessa pressão da Mesa, existe a esperança de poder ser apresentado em tempo útil o pedido de requerimento de uma Assembleia Extraordinária por um grupo de associados para destituição dos atuais dirigentes, algo que, em termos estatutários, necessita de um total de pelo menos 1.000 votos. Tudo porque, depois de todo este processo, os elementos agora demissionários da Assembleia Geral preferiam que “nascesse” um cenário como o que aconteceu em 2013, e que levou à demissão de Luís Godinho Lopes dias antes da reunião magna que estava marcada para o Estádio José Alvalade, do que terem de marcar “à força” um encontro desses. Em paralelo, ninguém acredita na força que um processo disciplinar podia ter.

Aqui entronca também a posição do Conselho Fiscal e Disciplinar, que se demitiu em bloco à exceção de um elemento, o mesmo que acompanhou Bruno de Carvalho na conferência da passada quinta-feira (Fernando de Carvalho): o órgão liderado por Nuno Silvério Marques, que se encontra também demissionário, explicou que não queria fazer qualquer juízo de valor em relação aos argumentos utilizados pelo Conselho Diretivo para não sair e que pretendia manter o distanciamento e a independência que um órgão deste género deve ter, mas explicou que, no atual cenário, o melhor seria a realização de um sufrágio eleitoral também para a presidência da Direção, por forma a colocar fim ao momento de maior conturbação que o Sporting atravessa. Mais uma vez, e respeitando essa posição, Bruno de Carvalho reforçou que não vê qualquer razão para apresentar a sua demissão.

As movimentações da “oposição”, à espera do que aconteça

Na passada segunda-feira, houve um encontro noticiado pelo Observador que podia fazer toda a diferença numa conjetura eleitoral do Sporting: Rogério Alves, antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting e ex-bastonário da Ordem dos Advogados, reuniu-se ao almoço com João Benedito, antigo capitão da equipa de futsal verde e branca, hoje gestor e um dos principais símbolos do ecletismo do clube. A notícia até passou ao lado em alguns circuitos, mas no universo leonino foi sendo amplamente comentada – afinal, estavam ali os dois principais nomes “presidenciáveis” nesta fase.

Rogério Alves, que assistiu à final da Taça de Portugal no Jamor ao lado de José Maria Ricciardi (que, por coincidência, também estava no mesmo piso do mesmo restaurante a almoçar nessa segunda-feira, neste caso com Jorge Tomé. o antigo CEO do Banif que está agora consigo na Optimal Investment, que chegou a apresentar em conjunto com o Montepio uma proposta para fazer o novo empréstimo obrigacionista da Sporting SAD), tem vindo a recolher apoios para avançar finalmente com uma candidatura à presidência dos leões, mas no atual xadrez, e tendo em conta um subentendido apoio não só do banqueiro mas também de Álvaro Sobrinho, dono do principal investidor privado da sociedade verde e branca, é sempre um putativo nome na corrida.

Já João Benedito, figura que não saiu da melhor forma (a mensagem que deixou a anunciar a despedida, a 1 de julho de 2016, no dia de aniversário do Sporting, acabou por apanhar toda a gente do clube de surpresa), preconiza um movimento com grande peso em termos de um possível cenário eleitoral, numa espécie de terceira via que tenta equilibrar uma fação mais conservadora dos leões e uma parte mais “revolucionária” que sempre se manifestou contra as duas décadas norteadas pelo projeto Roquette e pela linguagem mais economicista no conjunto verde e branco. E que tem realmente um enorme peso político no Sporting.

Recuando às eleições de 2011 (em 2013 Carlos Severino teve apenas 1% entre Bruno de Carvalho e José Couceiro, enquanto que em 2017 só houve dois candidatos), Bruno de Carvalho conquistou o seu espaço na mesma semana de duas formas: pela forma como se apresentou no primeiro debate com os cinco candidatos e por uma sondagem apresentada pelo jornal A Bola que colocava Godinho Lopes e o atual líder com uma pequena diferença percentual na corrida. Acabou por ser mesmo assim, num sufrágio ainda hoje colocado em causa por alguns a nível de resultados, mas que teve um total de 27% no bloco central entre as listas de Dias Ferreira, Pedro Baltazar e Sérgio Abrantes Mendes. Esse é o espaço que João Benedito pretende conquistar, mesmo sabendo que existem outros movimentos que poderão tentar ganhar esse eleitorado caso se precipite essa possibilidade.

Esta terça-feira, o filme acabou por repetir-se, o que gerou grande incómodo junto de Rogério Alves: num encontro ao jantar, no Jamor, com personalidades como José Couceiro (antigo diretor do futebol e treinador do Sporting, que foi candidato em 2013 e acabou agora o vínculo como técnico do V. Setúbal), Bessone Basto, Fernando Mota, Carlos Amado da Silva ou João Pedro Varandas, o advogado acabou por ver alguns jornalistas à porta local, sentindo mesmo a necessidade de deixar algumas palavras. “Temos de pensar no futuro do Sporting e não no futuro de cada um no Sporting”, atirou, explicando também que o encontro tinha sido com alguns líderes federativos de modalidades para trocar impressões sobre o desporto nacional. Hoje, José Couceiro negou qualquer hipótese de ocupar algum cargo no futuro leonino, lamentando o oportunismo das ligações feitas. Também esta quarta-feira, o Grupo Stromp pediu para que Bruno de Carvalho se demitisse, num comunicado enviado à Lusa.

Nesta altura, um dos dois movimentos criados para o pedido de uma Assembleia Geral Extraordinária para destituição do atual Conselho Diretivo já ultrapassou amplamente os 1.000 votos necessários (embora esteja a aumentar esse número, por saber que 75% dos proponentes terão de marcar presença depois na reunião magna, sob pena da mesma ser considerada nula), mas não existe ainda a certeza de quando apresentará esse requerimento. Uma coisa é certa: de uma forma ou outra, e existem três possíveis – manutenção do Conselho Diretivo com eleições para os restantes órgãos; sufrágio para Direção, Assembleia Geral e Conselho Fiscal; ou Assembleia Geral Extraordinária -, esta quinta-feira haverá sempre uma decisão. E, neste caso, é como no dominó: basta que a primeira peça caia para que todo um circuito faça o seu trajeto. Porque o futuro do Sporting é um “jogo”.