“Lamento, meu filho, o que se está a passar, dói-me na alma esta separação, mas quero que saibas que a mamã não te abandonou”, é assim que Levis começa uma carta para o filho de seis anos, de quem está separada há duas semanas, depois de a patrulha de agentes fronteiriços dos Estados Unidos o terem levado para um centro de detenção. O advogado desta mãe partilhou a carta no Twitter e explicou que as autoridades disseram que iam levar o filho “para tomar banho” e que o iam trazer de volta “imediatamente”.

A política de “tolerância zero” de Donald Trump relativa à imigração está a gerar uma onda de indignação a nível internacional. O presidente dos Estados Unidos tem sido amplamente criticado pelo facto de famílias de imigrantes sem documentação legal serem separadas assim que chegam à fronteira — os pais são detidos e os filhos (muitos com menos de cinco anos) são levados para centros de detenção e colocadas em celas que se assemelham a grandes gaiolas. As imagens de crianças a chorar e a gritar pelos pais estão a chocar o mundo.

As fotografias e os vídeos das crianças separadas dos pais na fronteira EUA-México

E foi exatamente isso que aconteceu com Levi e o filho Samir. O pequeno foi levado para um dos centros de detenção, depois de a mãe ter sido apanhada a tentar entrar no país sem documentos legais. O advogado de Levi, Michael Avenatti, escreveu no Twitter — juntamente com fotografias da carta que foi escrita numa folha A4, frente e verso — que Samir “é um rapaz gentil e muito ligado à mãe” e que ela está “aterrorizada” com a situação.

A mamã está aqui e penso muito em ti, quando acordo a primeira coisa que faço é pensar nos teus olhos, e sentir os teus abraços, aqueles que me dás de manhã, e sentir os teus beijos, meu filho”, escreve Levi para o filho, acrescentando: “quero que saibas que muito em breve estaremos juntos para que me dês os teus abraços”.

2 fotos

As palavras desta mãe demonstram os momentos de sofrimento e desespero por que está a passar e são exemplo daquilo que muitos estão a sentir. “Sinto que me arrancaram um pedaço do coração“, diz a mãe, explicando que aquilo que estão a viver é uma situação “temporária”. E diz que fala sobre ele a toda a hora: “Digo o quão especial és e que és o menino mais doce que conheço“.

Conta ainda que já conseguiu falar com o irmão de Samir, que “perguntou muito” por ele — “Disse-me que te quer ver, disse-me: ‘Mami, diz ao Samir que o quero muito” — e que “a Lola já teve três cãezinhos”. Depois, surgem as promessas de uma mãe que está longe dos seus: “Quando sairmos daqui vou levar-te ao oceanário, como te prometi, para veres os animais, os golfinhos, os peixes, os pinguins (…) ah, e vou dar-te os jogos do homem-aranha que te prometi”.

A carta, que é toda ela escrita com palavras de carinho, termina com: “És o meu príncipe, o meu guerreiro, o amor da minha vida, a minha razão de ser“. Ao lado, um desenho da família e a assinatura de Levi: “A tua mamã, a tua guerreira”. O advogado, escreve o El Español, diz que a cada dia que passa são cada vez mais as histórias que ouve de pais que ficaram sem os filhos e que estão desesperados por reencontrá-los.

Depois das críticas, as justificações de Trump

Depois de todas as críticas de que tem sido alvo — até mesmo por parte de Melania Trump, que lembrou que é preciso “governar com o coração” –, o presidente norte-americano justificou as medidas, dizendo que “alguns dos piores criminosos do mundo usam” crianças imigrantes para entrar no país. ”

“Os democratas são o problema. Não se importam com o crime e querem imigrantes ilegais, não importa o quão maus eles possam ser”, escreveu Trump no Twitter, dando o exemplo dos crimes cometidos por gangues como o MS-13, que entraram no país de forma ilegal.

E como já é habitual, os tweets de Trump não se ficaram por aqui. O Presidente escreveu ainda: “Devemos sempre prender as pessoas que chegam ao nosso país ilegalmente. Das 12 mil crianças, dez mil estão a ser enviadas pelos seus pais numa viagem muito perigosa, e só duas mil estão com os pais, muitos dos quais tentaram entrar no nosso país ilegalmente em numerosas ocasiões”.

Já depois de dito que a criminalidade na Alemanha aumentou devido à imigração e que, se as estatísticas oficiais não o demonstram é porque os dirigentes não querem, lembrou que a imigração ilegal que acontece nos dias de hoje nos EUA é um problema de há já muitas décadas:

Na terça-feira, Trump decidiu abandonar o Conselho de Direitos Humanos da ONU, uma decisão que está a preocupar os ativistas dos direitos humanos. A saída deu-se precisamente num momento em que a política de “tolerância zero” está a causar polémica.