Até podia não ser o nome mais aguardado da noite, mas o lugar de destaque que teve no cartaz foi mais do que merecido: Jack White deu um dos grandes concertos da noite. Do dia. Do festival. Foi inesquecível para quem é fã do músico, tão talentoso que até faz confusão, e para quem não é (ouvimos dizer que havia “pouca gente” que soubesse que White era o autor de “Seven Nation Army”, mas preferimos não acreditar nisso). Foi também um privilégio que não se repetirá em breve, uma vez que White parece não ser um favorito das promotoras portuguesas. Em 11 anos, tocou em Portugal apenas três vezes (contando com a deste sábado), o que é muito pouco para alguém como ele. Com uma carreira longa, sólida e genial.

Jack White estreou-se em Portugal em 2007, neste mesmo Passeio Marítimo de Algés. Na altura, os The White Stripes ainda andavam aí a tocar, por esse mundo fora, e ninguém imaginava que quatro anos depois iriam acabar. Mas foi assim: em 2011, Meg e Jack puseram um ponto final numa das bandas de rock mais interessante das últimas duas décadas e deixaram muitos fãs desconsolados (principalmente aqueles portugueses que não conseguiram passar pelo Alive de 2007). Depois disso, a baterista Meg desapareceu do mapa, mas Jack continuou ligado à música (como é que podia ser de outra forma?), em nome próprio e com outros projetos. Jack ainda cá voltou em 2012, para um concerto no Coliseu de Lisboa. Só regressaria este sábado, não se percebe bem porquê.

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Apesar de ter trazido um novo álbum na algibeira — Boarding House Reach, lançado em março –, White fez questão de percorrer os vários anos de carreira, tocando músicas de diferentes projetos. Houve “Steady As She Goes” dos The Rancounters e muitos temas dos The White Stripes, para regalo dos muitos fãs da audiência. Banhado numa luz azul, enquanto trocava de guitarra quase em cada música, White fez aquilo que sabe fazer melhor: tocar ao vivo. É em cima do palco que o músico mostra aquilo que vale, e isso não é pouco. A energia é contagiante, e passa até para as músicas mais lentas, que ganham uma vida que nunca tiveram em CD. Foi assim com “We’re Going to Be Friends”, por exemplo, que fez as mãos dos espectadores unirem-se com a de Jack White, ainda que apenas em sonhos. A distância a que estava o palco não permitia mais.

Depois de “Icky Thump”, hino maior dos White Stripes que levou uma das maiores ovações da noite, Jack White terminou com “Seven Nation Army”, tema do mítico Elephant recentemente redescoberto devido à acusação de plágio de que a concorrente de Israel da Eurovisão tem sido alvo. O motivo podia ser melhor, mas talvez sirva para lembrar ao mundo que um dia existiu um duo chamado The White Stripes, nascido em 1997 e enterrado em 2011, que deixou a sua marca na história do rock. O culpado passou esta noite por Algés e chama-se Jack White.

Seis da tarde: hora ingrata para os Alice in Chains

O último dia do NOS Alive começou solarengo. O sol, que andou tímido nos últimos dias, decidiu dar o ar da sua graça para o concerto de Alice in Chains, que subiram ao palco principal do festival depois dos The Last International (que estiveram em Paredes de Coura há apenas dois anos), às seis da tarde, horário indigno para rock daquela categoria. Eles não mereciam e o público também não. Àquela hora, ainda havia muita gente a entrar no recinto, mas os norte-americanos não se incomodaram. Já andam nisto há demasiado tempo para ligarem a pormenores desse tipo: tocaram como se fossem dez da noite e o recinto tivesse cheio só para os ver. E até podia ter estado, não fossem os Pearl Jam os cabeças de cartaz deste sábado.

O concerto começou com “Check My Brain”, tema de Black Gives Way to Blue (2009), o primeiro álbum da banda com William DuVall e sem o vocalista Layne Staley, que morreu em 2002. É que estes Alice in Chain não são bem os mesmos de antes, mas isso não é necessariamente mau — é apenas diferente. Seguiu-se “Again” — com DuVall sem a guitarra ao ombro, microfone na mão e um palco inteiro à sua disposição –, este sim gravado originalmente com Staley na voz no longínquo ano de 1995.

“Olá Portugal, tudo beeemm?”, perguntou o vocalista, com um belo sotaque brasileiro. “É bom estar de volta. Já passou algum tempo.” Ao todo, foram oito anos de espera. O último concerto da banda de Seattle em Portugal foi precisamente no Passeio Marítimo de Algés, numa edição do Alive (que naquela altura ainda tinha “Optimus” antes do nome) que também contou com os Pearl Jam, a banda que talvez mais vezes tocou no festival de Oeiras. Nessa data, os Alice in Chains também foram engolidos por outros cabeças de cartaz, os Faith No More, mas tiveram mais sorte: quando subiram ao palco, o céu estava repleto de estrelas.

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Depois de “Dam That River” — música do segundo álbum da banda, Dirt, de 1992 –, DuVall, voltou a pegar na guitarra para “Hollow”, do mais recente The Devil Put Dinosaurs Here. “No Excuses”, “We Die Young” e “Your Decision” surgiram no alinhamento antes de “So Far Under”, o primeiro single do novo disco da banda, “Rainier Fog”, com data de lançamento marcada para finais de agosto. O álbum é o primeiro desde 2013. Mais para o fim, não faltou “Would?”, hino de uma geração que conseguiu sobreviver ao passar dos tempos para se tornar não apenas de uns, mas de todos. É que os Alice in Chains não são uma banda de abertura qualquer — têm um passado, uma história. Deixaram uma marca na história do rock norte-americano (e não só) que o sol das tardes lisboetas não pode apagar.

Franz Ferdinand: fogo que mais parecia lume brando

Hoje em dia, quando se lê “Franz Ferdinand” no cartaz de um festival, só há uma coisa que vem à cabeça: festão. O concerto do grupo escocês neste último dia de NOS Alive não foi o primeiro, nem o segundo nem muito menos o terceiro em terras lusas e o historial que já criaram elevou-os ao está tudo de “animadores da malta”. Não houve concerto anterior que deixasse a desejar e tão pouco existiu corpo que ficasse indiferente ao rock gingão de Alex Kapranos e companhia.

Tudo isto em conta, não se esperava outra coisa sem ser que esta atuação fosse uma das mais animadas do dia. O início foi de leão, com “Do You Want To” a soar bem à generosa mancha humana que já se formava. A dita foi crescendo, na mesma medida que a expectativa, mas o que vinha do palco não correspondia exatamente. Mais frouxos do que é seu habitual, os Franz Ferdinand foram debitando música atrás de música a bom ritmo mas sem a genica que lhes é tão característica. Kapranos parecia o único interessado em proporcionar um bom fim de tarde aos milhares de pessoas que puseram este terceiro dia a rebentar pelas costuras.

O carismático vocalista sorriu, dançou, saltou e puxou pelo público, mas os seus companheiros não conseguiram disfarçar a cara de quem preferia estar em casa a ver séries. Eventualmente isso sentiu-se nas canções — que não foram mal tocadas, longe disso, mas faltava-lhes aquela pitada de entusiasmo — e o público, obediente, deixou-se ir abaixo. Felizmente, porém, os escoceses evitaram tocar o álbum mais recente, que foi recebido com críticas menos favoráveis, e apostaram forte nos grandes êxitos. Isso justifica os picos de entusiasmo e excitação de sequências como, por exemplo, a que juntou a “Take Me Out” com a “This Fire”, no fim do certame. Felizmente, na outra ponta do recinto, a animação era outra.

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Imagine que chega um palco entre os instrumentos — bateria, teclas e guitarra — mora o boneco de um leão em tamanho real. O que pensaria? Difícil dizer, não é? Este cenário aconteceu nesta tarde de sábado, no palco Clubbing, e se já não se soubesse que quem ia tocar eram os Throes + The Shine (T+TT), podia-se suspeitar que vinha aí algo de manhoso. Mas não. Vindo de onde vinha, só fazia sentido, afinal, o grupo formado por Marco Castro, Igor Domingues e Mob (os dois primeiros são os únicos que se mantêm da formação original, o microfone já saltou de mãos pelo menos três vezes, de André Do Poster para Diron e agora para este Mob), é o responsável pela a música mais espalhafatosa que se faz no país, com a sua junção de ritmos africanos com rock pesado.

Animação desde o primeiro momento era coisa que já se esperava e o grupo correspondeu (suplantou?) as expectativas. Mesmo não tendo uma mancha humana considerável, os T+TT fizeram a festa por toda a gente que circulou neste dia pelo Passeio Marítimo de Algés. Canções como “Batida” ou “Capuca” foram responsáveis por muito queimar de calorias, tal era a dança que incitaram. Mob até achou meritório descer do palco, saltar as grades e pôr toda a gente num círculo enorme que respondia a todas as suas ordens. “Quero ver tudo a saltar!”, atirou. E os festivaleiros não tiveram opção senão aceder — e de que maneira.

At The Drive In e MGMT: os lesados de Eddie Vedder

Depois dos lesados da falsa frigideira de cobre, os lesados de Pearl Jam. Goste-se ou não, a verdade é que alguém já devia ter criado uma associação que reivindicasse os direitos das bandas que, por causa do atraso da banda de Eddie Vedder, viram o seu tempo de antena reduzido ou a sua performance atrasada. Se tal existisse, todas as pessoas (não muitas) que passaram quase uma hora à espera dos MGMT e dos At The Drive In teriam cartão de sócio imediato. “Então isto nunca mais começa?”, comentava uma jovem que usava fato-de-banho completo com calças e botas (o look que durante o festival rivalizou com as infinitas t-shirts de Pearl Jam) junto ao palco principal. A ansiedade era grande e não parecia ter fim à vista.

Eram quase duas da manhã e a banda de Eddie Vedder continuava em cima do palco principal do NOS Alive a tocar músicas antigas, deles e dos outros. Como nenhum dos outros concertos podia começar enquanto os cabeças de cartaz não saíssem de cima do Palco NOS, os At The Drive In, que deviam ter atuado a partir das 1h15, só apareceram mais de 40 minutos depois. O atraso foi considerável, mas não foi suficiente: não sabemos se foi pelo adiantado da hora ou se pela promessa de MGMT no palco principal, mas quando os texanos apareceram, estava tudo a meio gás. Havia algum mosh, é certo, mas o espaço em torno dos At The Drive In estava apenas compostinho.

Conhecidos pelas atuações explosivas, os At The Drive In — que se estrearam em Portugal no ano passado, no festival Paredes de Coura — mantiveram-se fiéis a si próprios. O vocalista Cedric Bixler pulou, saltou, atirou amplificadores ao chão e até cantou de pernas para o ar, sempre com uma energia que parece não ter fim. O único problema nisto tudo — num concerto que tinha tudo para ser tão mítico como o de 2017 na Praia Fluvial do Taboão — é que os At The Drive In tocaram pouco mais de 30 minutos. Lá diz o ditado: o que é bom, acaba depressa.

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No palco principal, no extremo oposto do recinto, os MGMT foram aparecendo de mansinho e cheios de quinquilharia. Discretos e sem grandes expressões na cara (estariam amuados com o atraso?), começaram a debitar a sua pop-electrónica perfeitinha, para gáudio de muitos adolescentes que, no desespero, já tinha começado a cantar funk brasileiro como forma de passar o tempo.

Em menos de nada desfizeram-se em passos de dança e pulos com as mãos no ar como se não houvesse amanhã — que na prática não haveria, já que este concerto encerrava o palco principal no último dia do festival. Em busca de tempo (e entusiasmo) perdido, soltaram logo a “Time to Pretend” avisando, antes de o fazerem, que vinha ai “uma velhota”. O pulso ficou mais acelerado e nesse registo se manteve até ao fim, numa atuação morna, curta, mas que encheu as medidas aos poucos fãs que ainda resistiam, depois do furacão Vedder ter assolado esta zona ribeirinha.

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