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Vodafone Paredes de Coura

Vodafone Paredes de Coura. Valeu a pena esperar por At The Drive In

A espera foi longa, mas valeu a pena: na estreia em solo português, os texanos At The Drive In provocaram um tremor de terra. No final, Cedric Bixler agradeceu e pediu apenas amor e tolerância.

Era uma vez um quinteto texano que, depois de sete anos na estrada, decidiu anunciar subitamente o fim. Os fãs ficaram assustados, mas dois dos membros originais decidiram fundar uma nova (e igualmente boa) banda. Findos os The Mars Volta, foi divulgada a notícia há muito esperada: o quinteto texano estava de volta. E melhor do que nunca.

O anúncio foi feito em 2012, mas os portugueses tiveram de esperar cinco anos até poderem ver finalmente os At The Drive In — a banda de Cedric Bixler, Omar Rodríguez, Paul Hinojos, Tony Hajjar e Keeley Davis, formada em 1994. Mas a espera compensou: o que se passou esta quinta-feira à noite em Paredes de Coura foi digno de registo, e ficará na memória de muitos durante muitos e longos anos.

O concerto estava marcado para as 23h15. O público, impaciente, chamava pelo quinteto ainda antes da hora. Mas quando a banda entrou em palco não se ouviu nem uma palavra a ecoar pelo recinto natural da Praia do Taboão, apenas com uma explosão de som e um salto alucinado de Bixler. Estava-se mesmo a ver o que é que aí vinha: uma hora de rock rápido, duro, sem papas na língua. À antiga.

O público respondeu à letra: nas filas da frente, havia mosh sem parar e o crowdsurfing não deu mãos a medir aos seguranças. Enquanto isso, em palco, Cedric Bixler pulava, levantava o microfone no ar, empoleirava-se no bombo da bateria e até num dos amplificadores — manobras perigosas que fizeram com que uma das colunas lhe caísse em cima. O vocalista seguiu com o concerto como se nada fosse, sempre com uma energia que parecia inesgotável. O resto da banda não lhe ficou atrás: a entrega dos At The Drive In foi uma coisa bonita de se ver.

Silencioso praticamente durante todo o concerto (durante cerca de uma hora, disse apenas um simples “obrigado” em português), Bixler só se dirigiu ao público uma única vez — para as despedidas. Antes da última música, agradeceu a presença de todos e deixou um apelo: “Só podemos fazer isto funcionar se nos amarmos e nos aceitarmos como somos. Vão para casa espalhar este amor. Isto é para vocês”.

Nomes próprios e outros pseudónimos

Os portugueses You Can’t Win, Charlie Brown foram os primeiros a passar pelo palco principal do Vodafone Paredes de Coura neste segundo dia de festival. Com o recinto ainda a meio gás — os norte-americanos Sunflower Bean, nascido numa garagem em Brooklyn em 2013, ainda tocavam no Palco Vodafone.FM –, a banda composta por Afonso Cabral, Salvador Menezes e Luís Costa mal chegou para aquecer o ambiente.

Entre músicas, houve tempo para partilhar algumas histórias: foi há 15 anos que os You Can’t Win, Charlie Brown (muito antes de serem os You Can’t Win, Charlie Brown) visitaram pela primeira vez o festival, a sua primeira “experiência festivaleira”. A edição “marcou-os” e não resistiram em deixar um apelo aos aspirantes a músicos presentes no recinto: vale a pena sonhar com grandes palcos. “Não desistas.”

Depois da boa impressão que deixaram em 2016 — quando passaram pelo NOS Primavera Sound, no Porto –, era natural que houvesse muita curiosidade em torno do concerto dos Car Seat Headrest esta quinta-feira. O grupo começou por ser uma one-man band, mas depressa evoluiu para algo muito maior. Fundados em 2010 por Will Barnes (mais conhecido por Will Toledo), os Car Seat Headrest são hoje compostos por quatro jovens talentosos sempre prontos a distribuir rock do bom e do melhor. E que o ar geek de Toledo não nos deixe enganar — o quarteto sabe bem o que faz.

É certo que o concerto de 2016 ainda anda na cabeça de muitos, mas pelos vistos a banda também não se esqueceu da visita à Invicta. Mal o espetáculo tinha começado e já Will Toledo estava a falar da última vinda da banda a Portugal: “É bom estar de volta. Tocamos no Primavera Sound, no Porto. Estiveram lá? Foi uma noite divertida, mas hoje também vai ser”. Mais à frente, também o baterista Andrew Katz fez questão de lembrar que esta foi a segunda passagem do grupo por Portugal: “esta é a nossa segunda vez em Portugal e vocês são o meu público favorito”. Não sabemos se o elogio foi sincero ou não, mas foi bom de se ouvir.

Ao contrário do que tinha acontecido com os portugueses You Can’t Win, Charlie Brown uma hora antes, quando os norte-americanos subiram ao Palco Vodafone o recinto já estava recheado de fãs bem dispostos com as letras na ponta da língua. Prontos para saltar de braços no ar a qualquer momento, os riffs enérgicos que saíam da guitarra de Ethan Ives foram a desculpa perfeita para fazer a multidão mexer. Por explicar ficou a decisão de guardar para a última meia hora do espetáculo as músicas mais lentas do grupo, o que acabou por comprometer o ritmo acelerado da primeira parte do concerto.

Archy Marshall já teve muitos nomes, mas foi como King Krule que visitou Paredes de Coura esta quinta-feira. Músico, compositor e rapper, Krule é um pouco de tudo — tal como a sua música. Singular como ele próprio, é uma mistura de jazz, rock e de outras tantas coisas que a tornam diferente de tudo — mas também complicada de definir. Até pode ser difícil de a fazer entrar no ouvido, mas assim que entra apercebemo-nos que, de alguma forma, tudo funciona.

Krule teve a tarefa árdua de tocar logo a seguir aos explosivos Car Seat Headrest, mas safou-se bem. O público parecia sedento de música, e o inglês deu-lhe tudo o que tinha e ainda mais. Depois do fim do espetáculo, ainda voltou para um encore. Saiu novamente entre ovações — havia quem quisesse ainda mais.

Quem decidiu recentemente mudar de nome — ou melhor, voltar ao nome original — foi Chat Faker. Depois de meia década de dedicação ao soul e ao pop, Faker decidiu fazer cair o nome que o tornou famoso e apresentar-se apenas como Nick Murphy. A questão que se colocava em relação ao concerto desta quinta-feira — o primeiro em Portugal enquanto Nick Murphy –, era o que é que a mudança de nome iria trazer de diferente. Felizmente para os fãs de longa data de Murphy, pouco mudou: entre temas novos e (sobretudo) velhos (a falta de material fresco assim o obrigou), o australiano foi igual a si próprio. E isso foi o suficiente para deixar os fãs portugueses contentes. Afinal de contas, são eles quem mais importa.

Nick Murphy foi o último a atuar no palco principal do Vodafone Paredes de Coura. Mas isso não significa que a festa tenha ficado por aí — continuou noite dentro com os sul-coreanos Jambinai (às 2h) e o duo italiano Marvin & Guy (às 3h), que atuaram after-hours no palco secundário.

O festival recomeça na sexta-feira, pelas 18h, com os portugueses Cave Story no Palco Vodafone.FM, com os Beach House como cabeças de cartaz (Victoria Legrand e Alex Scally tocam no Palco Vodafone às 00h45, depois dos Japandroids) e uma novidade — de acordo com a Blitz, já estão esgotados todos os bilhetes para sábado, dia em que tocam os ingleses Foals.

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