The XX e Justice: duas bandas que estiveram em Portugal há pouco mais de um ano. Ambas sem discos novos para apresentar (o duo francês, porém, promete novidades para muito em breve) e com um chorudo historial de sucesso entre o público português. Dito assim, o sucesso dos dois últimos concertos no palco principal do Super Bock Super Rock tinha tudo para ser discutível, mas a verdade é que ambas conseguiram sacudir a monotonia dos festivaleiros neste primeiro dia do festival.

Romy Madley Croft, Oliver Slim e Jamie Smith começaram primeiro. Com o palco ainda morno depois do concerto de tributo a Zé Pedro, os ingleses vinham provar que nunca é de desperdiçar uma oportunidade de os ver ao vivo, por muito que já se saiba quase de cor o alinhamento que vão apresentar, tantas são as vezes que já pisaram palcos nacionais.

Rodeados por duas paredes vídeo gigantes e um sem fim de luzes e “efeitos especiais”, cedo se percebeu que o trio ia adotar uma postura musical bem mais intensa do que lhes é normal (em disco, quem manda é a subtileza e a calma). “Parece que estamos no Lux”, comentou, ao nosso lado, uma rapariga loira à amiga morena que não parou de dançar. A versão de “Islands” que se ouviu (bem demais, o som no Palco Super Bock esteve demasiado alto o dia todo) veio com uma roupagem bem mais eletrónica e dançante que se alastrou a quase todo o concerto.

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Revisitando de forma equilibrada os seus três discos, os The XX mantiveram-se sempre em alta rotação, com baixos que faziam tilintar a caixa torácica e apelando à dança com o talento bruto do jovem Jamie XX, que cada vez mais se assume como a grande força motriz do grupo. A doçura de “Say Something Better” contrastou com a mais frenética “On Hold” — que marcou o final apoteótico do concerto — e a plateia generosa foi acarinhada pelo grupo mais que uma vez: primeiro com a interpretação a solo de “Performance”, levada a cabo por Romy (“Esta canção significa muito para mim e por isso vou cantá-la sozinha”, avisou) e depois com a jura de amor de Oliver que, emocionado, disse que este era “um concerto especial”, por se o último desta digressão europeia. Logo a seguir entusiasmou a comunidade LGBT, a quem dedicou a música “Fiction”. “Esta é dedicada a vocês: eu sinto-vos, vejo-vos e faço parte de vocês”. Em geral, reinou o entusiasmo fervoroso de quem está genuinamente contente por estar ali. O mesmo aconteceu mais tarde, quando o duo francês Justice subiu ao palco.

A Altice Arena virou discoteca com os Justice

Gaspard Augé e Xavier du Rosnay não tiveram a sorte de ter uma plateia tão bem composta como os seus antecessores, mas quem lá esteve não deu mau nome à boa fama que o público português tem. Com uma boa meia hora de atraso (o concerto estava agendado para a 1h), o grupo que trata a música de dança por “tu” teve o condão de transformar a Altice Arena numa discoteca gigante.

Com a sua base de operações colocada no meio do gigante palco, Augé e du Rosnay soltaram cedo a contagiante “Safe and Sound”, uma das pérolas do mais recente Woman. A dança começou logo aí e nunca mais abandonou o recinto que pela primeira vez, desde a mudança do Meco para o Parque dos Nações, tinha bancadas colocadas na zona da plateia.

Se os coros de “Safe and Sound” denunciaram o que aí vinha, as poucas centenas de pessoas confirmaram-no e não deram tréguas: uns dançavam de olhos fechados e outros, de tronco nu, agitavam pauzinhos coloridos. Enfim, uma grande festa que ganhou anda mais pujança com a fantástica cenografia que rodeava a dupla. Blocos de luzes subiam, baixavam e faziam trinta por uma linha, sempre alinhados com o ritmo das canções. O poder esmagador de canções como “Fire” ou “Canon” foi o bálsamo necessário para garantir que, ao contrário do que se adivinhava no início do dia, a estreia do SBSR 2018 não saiu gorada. E, claro, os mega-êxitos  “DVNO”, “We are Your Friends”, “Genesis” e ” D.A.N.C.E.” fizeram-se ouvir, se bem que nunca no formato original gravado em estúdio mas sim numa versão remisturada que se adequou ainda mais à pista de dança.

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Que os deuses da soul estejam connosco

Umas horas antes de tudo isto, os bons concertos já tinham começado a dar um ar de sua graça. Falamos da atuação de Lee Fields & The Expressions, a banda do filho ilegítimo de Charles Bradley e James Brown que foi responsável pela maior mancha humana que, neste dia, se reuniu debaixo da famosa “pala do Siza” — ou Palco EDP.

Acompanhado por uma banda fantástica, composta por seis elementos (trompetista, saxofonista, pianista, baterista, baixista e guitarrista), Lee fez questão de, ainda fora do palco, deixar a sua “equipa” brilhar logo no início do espetáculo, com uma introdução instrumental que teve tanto de longa como de peganhenta, tal era o nível de funk que foi debitando. “Senhoras e senhores, uma salva de palmas para o senhor Lee Fields!”, anunciou o responsável pelas teclas ao convidar o carismático vocalista a aparecer.

Vestido de branco da cabeça aos pés, reluzindo à luz graças às lantejoulas prateadas do seu casaco, Fields começou logo a fazer toda a gente duvidar de que tivesse 67 anos. A voz, sempre poderosíssima –“Ele até a arrotar deve soar bem”, comentou alguém no público –, e os passos de dança gingões ajudaram a compor as belíssimas interpretações de “Make The World” ou “Special Night”.  Mantendo-se em constante contacto com o público (“Quero ver-vos a bater essas palmas!”) a quem jurou amor eterno, tantas foram as vezes que disse que o amava, o cantor só protagonizou um momento mais solene quando decidiu cantar “Wish You Where Here”, um original seu que dedicou aos “dois grandes amigos” que perdeu no ano passado, Sharon Jones e Charles Bradley.

À exceção desse momento mais pesaroso, todo o set foi pautado por uma energia e entusiasmo absolutamente impossíveis de contrariar. Escusado será dizer que esta foi uma ótima oportunidade para ver um dos últimos “soul men” ainda no activo. Quem esteve, esteve, quem não esteve, estivesse.

Mahalia a um passo do estrelato

Se o passado recente foi celebrado na grande festa eletrónica dos Justice, na soul de Lee Fiels e menos efusivamente no indie-rock dos The Vaccines — interessante, mas incapaz de concorrer com a pop dos The XX e por isso ouvido por muito poucos — e no pop-rock psicadélico dos Temples (que perderam alguma notoriedade nos últimos três anos com o afrouxar do revivalismo psicadélico), o futuro ouviu-se em Mahalia. Cantora britânica de apenas 20 anos, Mahalia Burkmar atraiu algum público à sala Tejo da Altice Arena à 1h30, apesar da concorrência dos Justice, e deu um concerto que voltou a deixar boas expectativas quanto ao seu futuro. Foi o segundo concerto da cantora em Portugal e em Lisboa, depois de uma estreia promissora no inverno passado, no festival Vodafone Mexefest.

Tendo já conquistado uma base de fãs que lhe permite viajar em digressão pelo mundo, Mahalia disse ao público presente, que mostrou conhecer as letras da cantora e que reagiu efusivamente aos temas com aplausos e gritos, que tinha atuado na Jamaica no dia anterior. “Por isso estou um pouco cansada, mas a vossa energia é tão boa”, apontou.

O seu R&B é influenciado por artistas como Rihanna (fez inclusivamente uma cover de “Work”), Solange Knowles e SZA, mas Mahalia vai já consolidando uma identidade própria interessante. Se a escrita, por um lado, é reveladora da tenra idade — tem apenas 20 anos –, esta tem-se vindo a apurar nos últimos meses, com o lançamento de vários singles que revelam não apenas as (boas) influências sonoras como uma capacidade singular de transportar histórias e vivências de adolescência para o público, que se consegue identificar com elas.

Acompanhada por um guitarrista mas alterando interpretações em duo com momentos a solo na guitarra acústica — momentos que surgiam sobretudo quando revisitava temas mais antigos, que começou a compor dos 13 anos em diante –, Mahalia foi contando histórias sobre o que inspirou as canções, de relações falhadas a sonhos de adolescência. “No Pressure”, “Proud of Me” (que dedicou aos pais) e “No Reply” são alguns dos singles novos que merecem atençâo e a que o público reagiu muito bem. “Ela podia cantar só sem a música e já era incrível”, ouviu-se ao lado, como elogio à (boa) voz da cantora.

Se por um lado Mahalia é a prova de que, nos tempos atuais, uma artista consegue entrar no circuito de digressões mundiais sem qualquer disco editado (gravou e lançou apenas uma mixtape, Diary of Me), por outro voltou a deixar em Portugal a impressão de que está a um pequeno passo de se tornar uma artista bastante popular. Esse primeiro passo chama-se primeiro disco. Basta à cantora, compositora e guitarrista continuar a saber servir servir a sua voz com canções criativas e de apelo popular. Venham elas.

Além da homenagem a Zé Pedro e dos concertos de The XX, Justice, Lee Fields e Mahalia, o primeiro dia de Super Bock Super Rock teve ainda concertos de Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo, Mirror People (Rui Maia), Songhoy Blues (prejudicados pelo horário tardio da atuação, 2h30 de uma quinta-feira), Parcels, The Parkinsons e Vaiapraia e as Rainhas do Baile.