O leite materno é o alimento mais natural para os bebés e iniciar a amamentação até uma hora depois do nascimento aumenta a sua probabilidade de sobrevivência. No entanto, três em cada cinco crianças não são amamentadas na primeira hora de vida. Isto segundo dados dos países de rendimento médio e baixo, onde o acesso aos cuidados de saúde também é mais difícil, comprometendo a saúde dos bebés logo à partida. Faltam os dados dos países desenvolvidos, onde a recolha não está sistematizada de forma a ser comparada com o resto dos países.

Estima-se que, em 2017, 78 milhões de bebés não iniciaram a amamentação na primeira hora de vida, conforme um relatório conjunto da Organização Mundial de Saúde (OMS) e UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A amamentação na primeira hora de vida e o contacto pele com pele entre a mãe e o bebé são duas recomendações para promover a amamentação propostas por estas organizações. O objetivo é, por um lado, favorecer e facilitar o início e manutenção da amamentação, por outro, promover a saúde do bebé.

Trabalhos anteriores mostraram que os bebés que iniciam a amamentação entre a segunda e a vigésima terceira hora de vida têm 33% mais risco de morrer do que aqueles que são amamentados na primeira hora, refere o relatório. Para os bebés que iniciam a amamentação um dia ou mais depois do nascimento, o risco de morte duplica. Os benefícios de iniciar precocemente a amamentação mantinham-se mesmo quando a criança não era amamentada em exclusivo (quando também bebia fórmula infantil, por exemplo).

Percentagem de bebés amamentados na primeira hora de vida em 2017. É clara a ausência de dados dos países desenvolvidos — UNICEF global databases (2018)

A região que apresenta as melhores taxas de iniciação precoce da amamentação é a África oriental e do sul (65%). As piores taxas estão no Médio Oriente e norte de África (35%) e no sudeste asiático e Pacífico (32%). Vale a pena lembrar que os países com os rendimentos mais baixos, como as Filipinas, são aqueles onde as empresas de leite adaptado fazem ações promocionais mais agressivas para convencerem as mães a darem fórmula infantil aos bebés em vez de leite materno.

Curiosamente, o relatório não tem dados para os países desenvolvidos, como os países europeus, América do Norte ou Austrália. “A iniciação precoce da amamentação beneficia os recém-nascidos, independentemente de onde vivam”, reforça o relatório. “Ainda assim muitos países de rendimentos mais altos falham na vigilância deste indicador importante de nutrição infantil.” Em Portugal, segundo dados de 2013 da Direção-Geral de Saúde, 84,1% dos bebés iniciaram o aleitamento materno na primeira hora de vida e 98% foi amamentado durante a permanência no hospital.

Nos países desenvolvidos, um em cada cinco bebés não foi amamentado

Ainda que não tenham dados de início da amamentação na primeira hora nos países desenvolvidos, a OMS e UNICEF dispõe de dados de bebés que não foram amamentados em nenhum momento das suas vidas. Nos países de rendimentos mais altos esta taxa chega aos 21%, enquanto nos países de rendimentos médios ou baixos é de apenas 4%. “Este intervalo significa que 2,6 milhões de crianças nos países de rendimentos mais altos estão a perder os benefícios da amamentação.”

“As mães não recebem apoio suficiente para poderem amamentar os seus bebés nos minutos cruciais após o nascimento, mesmo por parte dos profissionais de saúde”, diz Henrietta H. Fore, diretora executiva da UNICEF. Em alguns destes locais, o primeiro alimento dado aos bebés é fórmula infantil ou água com açúcar ou com mel. O primeiro leite da mãe — o colostro —, rico em nutrientes e anticorpos e essencial para a saúde do bebé, é muitas vezes desperdiçado.

“Iniciar a amamentação na primeira hora de vida não é fácil: não se pode esperar que as mães consigam fazê-lo sozinhas”, escrevem os autores do estudo.

Ter acesso a melhores cuidados de saúde e à presença de um profissional qualificado durante o parto não significam, só por si, a promoção da amamentação, como refere o relatório. Por isso, a OMS e UNICEF recomendam que os bebés não sejam afastados das mães depois do nascimento (como ainda é uma prática comum), que se permita o contacto pele com pele entre mãe e bebé e que os profissionais de saúde acompanhem o processo de amamentação para ajudarem as mães a identificarem e resolverem todos os problemas e limitações que enfrentem. Isto quer dizer que os profissionais de saúde devem verificar se a mãe está numa boa posição para amamentar, se está a pegar corretamente no bebé e em que posições pode fazê-lo e, sobretudo, se o bebé está a pegar corretamente no mamilo, para conseguir extrair o leite que necessita sem magoar a mãe.

“Os bebés nascem preparados para mamar. O reflexo de mamar do recém-nascido permite mamar, engolir e alimentar-se assim que nasce”, escrevem os autores do relatório. A exceção está nos casos em que a gravidez não chegou ao fim naturalmente, como nos bebés prematuros, que ainda não têm força para mamar, e nas cesarianas que antecipam os partos — nem os bebés estão prontos para mamar, nem o corpo da mãe recebeu o sinal para começar a produzir leite. Mas mesmo nos casos das cesarianas, que não tenham outras complicações, é recomendado o contacto pele com pele e a amamentação na primeira hora. “O contacto imediato pele a pele ajuda a regular a temperatura corporal dos bebés e permite que o seu corpo seja colonizado com bactérias benéficas da pele da mãe. Estas bactérias ‘boas’ fornecem proteção contra doenças infeciosas e ajudam os bebés a criarem o seu próprio sistema imunitário.”

A OMS recomenda ainda que os bebés sejam alimentados exclusivamente com leite materno até aos seis meses, sem necessidade de fornecer nenhum outro líquido, nem mesmo água. Isto implica que a mãe amamente o seu bebé sem horário marcado, sempre que o bebé deseje e pelo tempo que o bebé determinar. Não só o leite mata a fome como também mata a sede. Dar água ao bebé tem dois riscos: primeiro, pode diminuir a fome dos bebés de estômago pequeno, depois, nos países onde é difícil encontrar água potável, constitui um risco acrescido para a saúde dos bebés.