Inclinar ligeiramente o pescoço para a frente, receber a desejada medalha, levantar a cabeça e sorrir. Esta é uma ação repetida vezes sem conta por Nelson Évora ao longo da sua carreira, mas nunca assim, nunca neste palco. O atleta do Sporting, que já tinha feito soar o hino nacional em Pequim, com a conquista do ouro olímpico em 2008, e em Osaka, um ano antes, quando se sagrou campeão mundial, procurava ainda o seu lugar como número um do velho continente e os Campeonatos das Europa ao Ar Livre, em Berlim, entrariam para sempre no currículo do saltador português. Aí, Nelson Évora escreveu a página que lhe faltava no livro dourado dos triunfos nacionais e inclinou o pescoço para receber o tão desejado ouro, finalmente arrebatado, depois de um salto de 17.10 (a sua melhor marca do ano), onde superou o azeri Alexis Copello (16.93) e o grego Dimitrios Tsiamis (16.78).

A ambicionada recompensa viria das mãos do português Jorge Salcedo, presidente do Comité Técnico da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), de quem Nelson Évora recebeu a medalha na posição mais alta do pódio. Já com o ouro a balançar ao pescoço, o português confessou ter feito “uma pequena festa” com Jorge Salcedo, antes do sentimento “especial” que foi ouvir o hino nacional como símbolo da glória.

Nelson Évora ganha a primeira medalha (e logo a de ouro) em Campeonatos da Europa aos 34 anos

Foi a quarta vez, mas continua a dar vontade de chorar um pouco, tive de me conter, mas é algo especial que gravo muito bem na minha memória. Com um português como o Salcedo é ainda mais especial”, confessou, realçando que estar no primeiro lugar do pódio é “um momento de afirmar Portugal”.

Depois da felicidade pelo reconhecimento do trabalho bem feito, Nelson Évora deixou alguns recados para dentro do país. O sétimo lugar alcançado pela estafeta portuguesa nos 4×100 metros, composta por José Lopes, Frederico Curvelo, Carlos Nascimento e Diogo Antunes mereceu uma palavra de apreço e consideração por parte do novo campeão europeu de triplo salto.

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“Acho que o trabalho feito num país como o nosso, pequeno, que tanto luta para aqui colocar os seus atletas é de enaltecer. Os nossos atletas não têm as mesmas condições que os outros. É super gratificante o que se consegue. Eu tenho a noção disso, sei a realidade do nosso país, por isso acho que a estafeta chegar à final é extraordinário, comparando com outras realidades”, afirmou.

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OURO

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Portugal saiu dos Europeus de Berlim com duas medalhas de ouro, depois do triunfo de Inês Henriques nos 50 quilómetros marcha e de Nelson Évora no triplo salto. Para o saltador, o ouro é sempre bem vindo, mas tem de ser visto como a exceção e não a regra. Em Portugal, Nelson Évora encontra em Pedro Pablo Pichardo o seu maior concorrente e detentor da melhor marca do ano (17.95). O atleta do Benfica, nascido em Cuba, que se naturalizou português em 2007 e que chegou a estar pré-inscritos nos Europeus, falhou a prova por falta de aprovação da Federação Internacional de Atletismo, lançou a farpa no Instagram – “Sem a minha presença é fácil. Campeão!” – e Nelson Évora deixou a resposta para bom entendedor: o futuro passa por apostar nas jovens promessas; naturalizar não é o caminho.

“É sempre especial ganhar medalhas. Ficámos à frente de outros países que ganharam mais, mas que não tiveram o ouro, medalhas que eu e a Inês conseguimos. Isso pode ser algo bom e mau. Eu vejo nisso um sinal negativo, porque vão acontecendo pequenos milagres e era importante mudar a nossa mentalidade”, começou por explicar, concluindo: “Sabendo que já há muita mudança para melhor dentro do desporto nacional, acho que o segredo passa por fazer os nossos acreditarem que podem lá chegar, mesmo com muito trabalho, e todos aqui o demonstram. E não passa por comprar atletas, naturalizar atletas, porque isso é algo ridículo“.

Nelson aponta aos Jogos de Tóquio, Pichardo “pica” campeão e Benfica faz comunicado (contra a transmissão)

No final da prova, Nelson Évora agarrou a bandeira portuguesa e com ela deu a volta ao recinto. Em troca, deu ao rapaz da assistência que lhe dispensou o símbolo nacional a sapatilha direita que usou durante a prova, da qual guardou um pedaço de areia para mais tarde recordar.

“Ele deu-me a bandeira para eu dar a volta ao estádio, por isso entreguei-lhe algo meu, algo importante, à altura do significado de dar a volta com a nossa bandeira”, explicou o novo campeão europeu de triplo salto.