PSD

Ao 31º dia, Rio falou. “O PSD não fala com a mata a arder”

As férias não foram interrompidas, mas Rio está de volta. Santana não o preocupa, muito menos críticos internos. Governo falhou na coordenação dos fogos, mas PSD não serve só para fazer oposição

LUIS FORRA/LUSA

Foi aquilo a que se chama “pôr a conversa em dia”. Rui Rio está de volta, depois de ter estado ausente para férias os exatos 31 dias que tem o mês de agosto, e começou precisamente por visitar o concelho de Monchique, afetado pelo grave incêndio que na primeira semana de agosto deixou 28 mil hectares ardidos na serra algarvia. Depois de uma reunião na câmara municipal e de uma longa reunião à porta fechada na Cooperativa Agrícola de Monchique, onde ouviu as queixas de representantes de associações agrícolas e florestais, o líder do PSD esteve quase meia hora a responder às muitas e variadas perguntas dos jornalistas, sobre todos os assuntos que tinham ficado pendentes desde o final de julho. Das férias que teve, não se arrepende, até deviam ter sido “mais tranquilas”; com a saída de Santana Lopes não se surpreende, “era um sonho antigo”. Sobre a PGR, não comenta, para já. Nem sobre o Orçamento, só quando vir o documento. Rio falou, falou, falou, falou, para não ouvir mais queixas sobre o seu silêncio.

“Mais para a esquerda?” Antes de começar, contudo, os jornalistas pediram-lhe que se chegasse para o lado, para melhor ficar enquadrado no plano das televisões, e Rui Rio não resistiu à graça: “Mais para a esquerda do que tenho ido é melhor não, depois acusam-me disto e daquilo”. Depois de uns risos à volta, começou a longa conversa à frente dos microfones. Rui Rio não quer que se fale das férias de mês inteiro que teve, porque foram elas que lhe permitiram chegar a setembro “com condições físicas, anímicas e psíquicas bem melhores” do que as que tinha antes de o verão arrancar. E mesmo assim, até lamenta que as férias não tenham sido “mais tranquilas”.

A questão é que é preciso “otimizar o recurso que são as férias”, disse, sublinhando várias vezes que “não valia a pena interromper” o descanso para dar resposta às questões que foram surgindo durante o verão, nomeadamente as questões de foro interno, como a saída de Santana Lopes do partido, a ameaça de Pedro Duarte à liderança, ou até as queixas que se foram fazendo ouvir por parte de militantes e autarcas sociais-democratas, como é o caso de Carlos Carreiras, sobre o seu silêncio de verão.

Em caso de fogo, PSD ajuda primeiro e faz oposição depois

Uma coisa é certa: não foi por estar de férias que Rui Rio não se pronunciou sobre o grave fogo que deflagrou entre os dias 3 e 10 de agosto na serra de Monchique, tendo mandatado um dos vices a comentar a atuação do Governo nessa matéria no momento em que o fogo ficou dominado. “O presidente do PSD não fala com as casas e a mata a arder, e as pessoas a sofrer. O presidente do PSD respeita as pessoas e a perda de património”, começou por dizer, rejeitando a ideia de que visitar as zonas ardidas a 31 de agosto, 21 dias depois do incêndio, seja tarde.

Além do mais, o presidente do PSD também não fala quando não tem “conhecimento de causa”. Portanto, disse, cada coisa a seu tempo: “Se o que aconteceu pudesse ser reparado em 20 dias, então ao 21º dia eu já estaria atrasado, mas não, estas questões são de ordem estrutural, como se viu em Pedrógão”. O ponto de Rui Rio é que, em caso de catástrofe, o partido da oposição deve ajudar tanto quanto for possível, deixando de lado o seu papel de oposição. “O PSD não faz só oposição, nestes casos só não ajuda se não pode”, atira.

Sobre as falhas no incêndio de Monchique, Rio apontou o dedo ao Governo pela “desarticulação”, mas congratulou-se pelo “resultado final ao nível de poupança de vida humana”. “O que constatamos é que não houve ao longo dos anos a preparação devida para evitar isto. No último ano, sobretudo depois de Pedrógão, não se fez o que se devia ter sido feito”, disse, criticando o facto de ter havido “meios a mais” e articulação a menos. Aqui, diz, há “responsabilidade política” do atual governo pela “incapacidade de organização das estruturas de comando”, sobretudo porque “mudou os comandantes da Proteção Civil assim que chegou ao poder”. Acredita Rio que “o problema também pode estar aí”.

Saída de Santana é a “concretização de um sonho”. Rio desvaloriza impacto da Aliança

As férias não mereciam ser interrompidas para comentar o caso, mas agora houve tempo para o presidente do PSD dedicar umas palavras à desvinculação do seu adversário de diretas, Pedro Santana Lopes. Rui Rio não está preocupado com o impacto que o novo partido de Santana Lopes pode vir a ter no eleitorado do PSD, até porque não é à direita que Rio quer ir buscar votos — mas sim ao centro, onde está a social-democracia e a abstenção. Quanto ao resto, a saída de Santana não o surpreende: “Era um sonho antigo que ele tinha”.

Sem querer entrar numa sessão de “psicoterapia” com os jornalistas, Rui Rio garantiu que não estava “zangado” nem “desiludido” (nem sequer “surpreendido”) com Santana Lopes por ter saído do PSD. “Não vejo isto como uma coisa tática, feita de repente, foi, se é que se pode dizer, a realização de um sonho antigo, porque ele já alimentava esta ideia há uns anos”, começou por dizer. Questionado sobre o impacto eleitoral resultante do surgimento de mais um partido à direita, Rio desvalorizou. “Eventualmente até pode nem ser negativo para o PSD, até pode ser positivo, porque se o PSD quiser ganhar eleições não é à direita, ao CDS ou à Aliança, que vai roubar 1 ou 2% dos votos. É ao centro que se ganham eleições, é no centro que estão 20, 30 ou 40% dos descontentes e da abstenção, e é esse o espaço da social-democracia”, disse.

Mais: Orçamento do Estado, guerra dos professores com o Governo, continuidade ou não da Procuradora-Geral da República no cargo, ou até a medida anunciada por Costa de redução de 50% no IRS para os emigrantes que queiram regressar. Rui Rio foi a todas. Sobre estes temas, contudo, nenhuma novidade. Do Orçamento do Estado só dirá alguma palavra quando o documento for conhecido, da PGR só se pronuncia depois de Marcelo e Costa, que são as entidades responsáveis pela continuidade ou não dos mandatos. “Não vamos falar disto enquanto o Presidente da República e o primeiro-ministro não puserem o tema e cima da mesa. Se eles não puseram ainda, não somos nós que vamos pôr”, limitou-se a dizer.

De resto, Rio quer arrumar a sua casa antes de iniciar o ano eleitoral e é por isso que a secretaria-geral do PSD está a fazer um “levantamento exaustivo” dos casos de candidatos autárquicos que excederam em muito o valor estimado para a campanha, e que deixaram a fatura cair em cima do partido. Diz que pode haver mais casos, para além do já noticiado da Covilhã, e que todos serão tratados da mesma forma. Mas não diz quantos: é esperar para ver o que vai para tribunal.

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