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Quem é (e o que motivou) Adélio, o homem que esfaqueou Jair Bolsonaro?

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Adélio Bispo de Oliveira usava as redes sociais para criticar Bolsonaro – que lhe dava "nojo só de ouvir". A família achava que vivia como vagabundo e não tinha notícias dele há vários anos.

Adélio Bispo de Oliveira, à esquerda na imagem, é o autor confesso da facada a Bolsonaro.

O autor confesso do esfaqueamento ao candidato presidencial Jair Bolsonaro, no Brasil, vivia longe da família depois de um desentendimento e não dava notícias há vários anos, segundo uma sobrinha que falou com a imprensa brasileira. Apesar de a família acreditar que Adélio Bispo de Oliveira vivia como vagabundo em Florianópolis, o suspeito mantinha uma página na rede social Facebook onde frequentemente criticava Jair Bolsonaro — que lhe dava “nojo só de ouvir” a falar. Após a facada, foi espancado pelos apoiantes de Bolsonaro e foi levado para a esquadra, onde garantiu que atuou “a mando de Deus”.

Uma sobrinha de Adélio, chamada Jussara, falou com a imprensa e garantiu que a família perdeu o contacto com o homem “há três ou quatro anos”. Segundo a Buzzfeed News, a família estava convencida de que Adélio vivia nas ruas, como vagabundo, depois de ter mostrado que não estava bem psicologicamente na última vez que passou uma temporada em casa da mãe. Adélio falava sozinho, irritava-se com a televisão quando passavam notícias sobre política, e irritava-se quando a família perguntava se ele não queria procurar ajuda. Acabou por desaparecer, depois de uma discussão com o resto da família.

“Ele não aceitava a opinião de ninguém, não aceitava quando falávamos nada contra ele”, comentou a sobrinha Jussara, recordando os últimos tempos que passou junto da família. Até então, o pouco que sabiam dele é que costumava viajar trabalhando como missionário numa igreja evangélica. A certa altura, alguém disse à família que Adélio estava em Florianópolis, onde viva como sem-abrigo mas mantinha a ligação à igreja evangélica. Por achar que Adélio estava em Florianópolis, a família terá ficado surpreendida por ver o homem novamente no seu estado-natal — Minas Gerais — onde deu a facada em Jair Bolsonaro.

Ele era um missionário de igreja evangélica, mas nos últimos tempos ficava falando sozinho e estava com ideias muito conturbadas.”

A família garante não saber muito sobre a ligação de Adélio à política, enquanto filiado do partido Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Numa fotografia na rede social Facebook, publicada em maio, Adélio aparece ao lado de alguém que segurava um cartaz onde se lê “políticos inúteis” durante uma manifestação. Noutra foto, aparece próximo de outro cartaz onde se exigia a renúncia do presidente Michel Temer. Também no Facebook, Adélio partilhava ligações a textos sobre teorias da conspiração e vídeos sobre pretensas “premonições” do 11 de setembro — os comentários que acompanhavam estas partilhas, escritos pelo próprio, eram textos confusos.

Crítico da “ladroagem” na política, foi filiado no PSOL

A sobrinha revela que Adélio falava muito sobre a “ladroagem” que havia na política, mas só através do Facebook é que a família percebeu o grau de envolvimento que o homem chegou a ter com o partido esquerdista. Os registos citados pela imprensa brasileira mostram que Adélio Bispo de Oliveira foi filiado no PSOL entre maio de 2007 e 29 de dezembro de 2014, altura em que terá pedido para sair.

Foi a revista Veja que noticiou, em primeira mão, que Adélio tinha pertencido ao PSOL, o que levou a direção do partido a argumentar que “o facto de Adelio Bispo de Oliveira ter sido filiado ao PSOL, entre 2007 e 2014, não altera em nada o posicionamento do partido em relação ao inaceitável atentado sofrido por Jair Bolsonaro. O PSOL rechaçou em nota a escalada de violência que tem marcado o cenário político nos últimos anos e manifestou seu repúdio ao atentado sofrido pelo candidato do PSL. Independente de ter tido um breve período de filiação ao PSOL, defendemos que o responsável responda por seus atos de acordo com a lei”.

“Não tinha intenção de matar”, garante advogado

Outra sobrinha, que preferiu não ser identificada, garantiu à imprensa brasileira que Adélio não tinha uma personalidade agressiva, apesar do comportamento errático. “Era uma pessoa totalmente do bem”. O homem, porém, já tinha registo na polícia por se ter envolvido numa discussão com “agressão corporal” com outra pessoa — terá sido uma discussão com um parente, em 2013, segundo explicou essa sobrinha. O caso acabou por não ter consequências.

Desta vez, após a facada a Bolsonaro, quando Adélio foi levado para a esquadra, o homem de 40 anos confessou o crime, alegando que atuou “a mando de Deus”. “Quem mandou foi o Deus aqui em cima”, afirmou o suspeito, no vídeo recolhido na noite de quinta-feira.

No relatório policial, elaborado pelos oficiais de polícia, pode ler-se que, “em conversa com o autor, este informou-nos que saiu de casa com uma faca de uso pessoal afim de acompanhar a comitiva, e no melhor momento pudesse, atentar contra a vida do candidato, assim tendo feito no momento em que a comitiva passava pela Rua Batista, por achar ser o mais oportuno”.

O advogado de Adélio, Pedro Augusto Lima Possa, falou com a imprensa brasileira e comentou que o homem atuou “por motivações religiosas” e de “cunho político”. “Ele contou que o Bolsonaro sempre externava estas coisas nas falas dele contra raça, religião, contra mulher inclusive”, comentou o advogado, citado pela Globo.

Segundo o advogado, a razão por que Adélio estava em Juiz de Fora, a 800 quilómetros da terra-natal, era porque trabalhava como empregado de mesa naquela zona.

Adélio depois de ser detido em Juiz de Fora.

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