O juiz Fabian Richter Reuschle, que preside em Estugarda ao julgamento que opõe os pequenos accionistas à família Porsche, que não detém a maioria das acções do Grupo Volkswagen, mas sim a maioria da capacidade de voto, queixou-se abertamente da forma como quase duas dúzias das testemunhas recusaram depôr para não se incriminarem. Reuschle referia-se a Martin Winterkorn, o CEO do grupo alemão à época do escândalo, bem como a Volkmar Denner, CEO da Bosch no mesmo período (que forneceu as peças manipuladas que as marcas do grupo instalaram nos seus carros), entre muitos outros.

O objectivo do julgamento é determinar quando é que a administração soube da falsificação de software e da sua utilização em 11 milhões de modelos da marca, optando por esconder essa informação dos pequenos accionistas, que assim enfrentaram perdas consideráveis que não conseguiram evitar e, por isso, mesmo exigem agora 9,2 mil milhões de euros como compensação.

Martin Winterkorn, CEO do Grupo Volkswagen até 2015

Os accionistas com menor peso na empresa procuram ser indemnizados pela holding Porsche SE das decisões tomadas pelo CEO nomeado pela família dominante, bem como sobre a sua ilegalidade ou risco de exposição a prejuízos avultados. E o tribunal de Estugarda é apenas um em que está a ser julgado um processo deste tipo, pois Brunswick está a braços com um processo similar, sendo provável que a acção movida em Estugarda fique a aguardar as averiguações e as decisões de Brunswick, antes de avançar.

Mas estes processos são apenas um ‘aperitivo’ – ainda que eventualmente dispendioso – para o prato principal que se seguirá, e que consiste em processos-crime contra uma série de administradores e directores que tomaram as controversas decisões, bem como os que lucraram com elas. E daí o silêncio das testemunhas, que tudo indica que no processo principal deverão passar a arguidos.