O candidato presidencial do PT Fernando Haddad deu voz às acusações do músico brasileiro Geraldo Azevedo, que garantiu ter sido torturado pelo candidato a vice-presidente de Jair Bolsonaro, o general na reserva Hamilton Mourão. “Bolsonaro nunca teve nenhuma importância no Exército. Mas o Mourão foi, ele próprio, torturador. O Geraldo Azevedo falou isso”, afirmou Haddad, vincando que Bolsonaro “tem como vice um torturador”.

As acusações são falsas: Hamilton Mourão era um aluno de 16 anos quando Geraldo Azevedo disse ter sido por ele torturado, em 1969. Só três anos depois, em 1972, é que o candidato a vice-presidente de Bolsonaro, candidato do PSL, entrou no Exército. Numa primeira análise acerca das declarações, o editor de política da cadeia O Globo afirma que o erro de Haddad “abala a tática” do PT “de culpar ‘fake news’ por desvantagem” nas sondagens.

A primeira acusação ao candidato a “vice” de Bolsonaro de ter sido torturador surgiu no passado sábado, dia 20, através do músico pernambucano Geraldo Azevedo, 73 anos, que curiosamente deu um concerto este ano (em julho) em Portugal. “Fui preso duas vezes na ditadura, fui torturado, você não sabe o que é tortura, não. Esse Mourão era um dos torturadores lá”, referiu o Azevedo, durante um concerto em Jacobina, na Bahia.

Sem confirmar a informação, Fernando Haddad, candidato que disputa a segunda volta das presidenciais brasileiras com Jair Bolsonaro, repetiu a informação, que se verificou falsa.

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Seguiu-se uma reação do general na reserva Hamilton Mourão. “É uma coisa tão mentirosa. Ele acusa-me de tê-lo torturado em 1969. Eu era aluno do Colégio Militar em Porto Alegre e tinha 16 anos”, apontou o “vice” de Bolsonaro, prometendo um “processo”. A Haddad endereçou outra mensagem: disse-lhe para ter cuidado com as fake news, isto é, com as notícias falsas.

Mourão entrou na Academia Militar das Agulhas Negras, do Exército, em 1972. Só em 1975 foi declarado aspirante a oficial da Arma de Artilharia.

Geraldo Azevedo corrigiu o erro e pediu desculpa, Haddad não

Depois de confirmado que as acusações eram falsas, o músico Geraldo Azevedo emitiu uma nota pedindo desculpa “pelo transtorno causado pelo equívoco”. Azevedo quis, ainda assim, “reafirmar sua opinião de que não há espaço no Brasil de hoje para a volta de um regime que tem a tortura como política de Estado e cerceia a liberdade de imprensa”.

Já o candidato à presidência Fernando Haddad reconheceu que a informação era falsa, mas não pediu desculpa por a ter propagado. Preferiu, antes, solidarizar-se com o músico, torturado e preso durante 41 dias pela ditadura militar, em 1969: “Eu dei a público uma informação que recebi de fonte fidedigna. Geraldo Azevedo realmente foi torturado e realmente disse que foi pelo Mourão. Eu me solidarizo com ele, todo mundo que foi torturado está sujeito a esse tipo de confusão. O esclarecimento também teve que se dar a público para que não haja dúvida”, referiu.

Na verdade, Haddad não “deu apenas a informação” de que Geraldo Azevedo “disse que foi [torturado] pelo Mourão”, visto que afirmou, de forma clara, que Bolsonaro “tem como vice um torturador”.

Não tira o facto de que o [general e candidato a vice-presidente de Bolsonaro] Mourão, quando passou para a reserva, disse com todas as letras que o Ustra, um torturador, era uma de suas referências. Tanto o Bolsonaro quanto o Mourão têm o Ustra como referência”, prosseguiu Haddad. O candidato do PT referia-se ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, antigo torturador do regime que Bolsonaro citou como inspiração para justificar o seu voto a favor da destituição da antiga presidente Dilma Rousseff.

O candidato do PT, próximo de Lula da Silva, negou ainda que as suas primeira afirmações se enquadrem em notícias falsas (as chamadas “fake news”): “O fato de eu ter dado a público e ter esclarecido é prova de boa fé. Não peguei empresário corrupto com dinheiro sujo para soltar informações na internet. Eu falei com cara limpa e foi esclarecido. Geraldo Azevedo teve a clareza de esclarecer. O compositor foi vítima do regime que eles tanto apoiam. Ustra merece todo o repúdio da sociedade democrata do Brasil”, reiterou, citado pelo jornal O Estado de S. Paulo.