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O músico Caetano Veloso escreveu um artigo para o The New York Times onde defendeu que “se Bolsonaro vencer as eleições os brasileiros podem esperar uma onda de medo e ódio”. Caetano Veloso votou em Ciro Gomes na primeira volta e na segunda declarou o seu apoio ao candidato do PT, Fernando Haddad.

“Tal como outros países do mundo, o Brasil está perante uma ameaça da extrema-direita, uma tempestade de populismo conservador”, explicou o cantor, referindo que, embora Jair Bolsonaro admire publicamente Donald Trump, o candidato do Partido Social Liberal (PSL) se assemelha mais ao Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte.

Num artigo intitulado “Vêm aí tempos negros para o meu país”, o retrato que Caetano Veloso faz do Brasil que está para vir, com a provável eleição de Bolsonaro, é de violência e repressão. Para ilustrar a sua ideia, recorre a dois episódios.

O primeiro, mais recente, remete para o homicídio do mestre de capoeira Moa do Katendê, morto em Salvador na noite da primeira volta após expressar apoio à candidatura do PT. Recentemente, Caetano Veloso dedicou-lhe uma música.

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O segundo exemplo, mais antigo e também biográfico, remete para o tempo em que Caetano Veloso foi preso juntamente com o músico Gilberto Gil. Ambos foram presos políticos durante a ditadura militar, período da História do Brasil que Bolsonaro enaltece com regularidade.

“O Gilberto e eu passámos cada um uma semana numa cela suja. Depois, sem explicações, fomos transferidos para outra prisão militar, onde ficámos dois meses. De seguida, mais quatro meses de prisão domiciliária até, finalmente, o exílio, onde ficámos durante dois anos e meio”, diz.

Sobre a passagem nas prisões militares, Caetano Veloso diz que não foi torturado mas também garante que não esquece os gritos de quem foi. “Durante a noite, ouvíamos os gritos deles. Eles tanto eram prisioneiros políticos que os militares pensavam estar ligados a grupos de resistência armada ou jovens pobres que foram apanhados em roubos ou a vender drogas. Aqueles sons nunca me saíram da cabeça”, escreve o cantor de 76 anos.

Desta vez, caso Bolsonaro seja eleito, como as sondagens têm apontado, Caetano Veloso diz que não irá para o exílio. “Nunca quis viver em qualquer outro país que não fosse o Brasil. E não quero agora. Fui forçado ao exílio uma vez. Não volta a acontecer. Quero que a minha música e a minha presença sejam uma resistência permanente a quaisquer traços anti-democráticos que possam resultar de um provável governo de Bolsonaro”.