“O Interminável”

Quando acabamos de ver “O Interminável”, de e com Justin Benson e Aaron Moorhead, e também escrito por aquele, ficamos em pulgas para ir descobrir os seus dois filmes anteriores, “Resolução Macabra” (2012) e “Spring” (2014). É que esta fita independente de terror cósmico cruzado com ficção científica, que incorpora as atmosferas de Lovecraft e o espírito da arte de Escher, é uma dos melhores que poderemos ver este ano. Benson e Moorhead interpretam dois irmãos que foram criados numa seita ufológica de que acabaram por fugir, e à qual regressam já adultos, após receberem uma estranha mensagem em vídeo. Lá chegados, constatam que a vida que ali se vive em comunidade é afinal perfeitamente normal. Ou será que é só impressão deles? “O Interminável” foi feito com um orçamento que não permite o recurso a efeitos especiais sofisticados, mas Benson e Moorhead não precisam deles para criar, apenas pela sugestão, pelo subentendido, por pistas e sinais inquietantes (as duas luas no céu), pela acumulação de acontecimentos estranhos e pelo cancelamento da nossa perceção do real e da normalidade espacio-temporal, um clima de horror surdamente omnipresente e um sentido de ameaça sobrenatural iminente (e nem faltam umas pitadas de humor negro). A não perder, sobretudo por quem gosta de cinema fantástico, e daquele que sai dos trilhos batidos.

“Bohemian Rhapsody”

Além de ser a história dos Queen em formato oficial, autorizado e condensado, “Bohemian Rhapsody” é  também uma versão melindrosa, expurgada, fantasiada e moralizante da vida de Freddie Mercury, ou não fossem Brian May e Roger Taylor, e Jim Beach, o “manager” do grupo,  produtores executivos e consultores criativos do filme, com direito a mexer naquilo que quisessem, e sempre que quisessem. A fita está assinada por Bryan Singer, embora este tenha abandonado a rodagem antes do final, sendo substituído por Dexter Fletcher. Os atores escolhidos para interpretar Brian May (Gwylim Lee), Roger Taylor (Bem Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) parecem os seus respetivos sósias, enquanto que Freddie Mercury é personificado por Rami Malek, após vários actores terem sido considerados para o papel, caso de Sacha Baron Cohen. Este acabou por abandonar o projecto, depois de May e Taylor terem vetado a sua intenção de pormenorizar a descrição dos excessos sexuais do falecido vocalista dos Queen, o que aliás estava de acordo com uma das várias versões do argumento que a fita teve. “Bohemian Rhapsody” foi escolhido pelo Observador como um dos dois filmes da semana, e pode ler a crítica aqui.

“Fahrenheit 11/9”

Em 2004, na sequência dos atentados de 11 de Setembro de 2001, Michel Moore atirou-se à presidência de George W. Bush e à invasão americana do Afeganistão e do Iraque. Catorze anos mais tarde, é a vez da eleição  de Donald Trump para a Casa Branca merecer a atenção, e a fúria “agit prop” do realizador e ativista político, que tem um alvo secundário neste seu novo documentário militante. As elites instaladas, privilegiadas e envelhecidas do Partido Democrata, que fazem tudo para impedir o advento de caras novas com ideias arejadas e muito à esquerda dentro do partido, e sabotaram a nomeação de Bernie Sanders como candidato a presidente dos EUA, escolhendo antes Hillary Clinton, a representante do “sistema”. Michael Moore preenche ainda uma boa parte das duas horas de “Fahrenheit 11/9” com uma história sobre a contaminação com chumbo do rio da sua vila natal de Flint, no Michigan, mostrando-se também desiludido com Barack Obama e esperançoso numa nova geração de militantes radicais de base do Partido Democrata, que estão agora a dar os primeiros passos na política. “Fahrenheit 11/9” foi escolhido pelo Observador como um dos dois filmes da semana, e pode ler a crítica aqui.

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