Normalmente, quando as equipas atravessam períodos menos bons — em que o treinador é questionado, o plantel é criticado e os resultados teimam em não aparecer –, os jogadores tentam recusar até à última instância as palavras “crise”, “fase má” ou o simples “não jogámos bem”. É normal e usual ver jogadores recorrerem às críticas aos árbitros, ao relvado, à sorte e à atmosfera no geral para não assumir culpa nem responsabilidade. Ora, não é isto que se está a passar no Benfica. A crise tem nome próprio, é admitida e reiterada e nem a vitória com o Arouca para a Taça de Portugal afastou os fantasmas que pairam sobre a Luz. Mas isso restringe-se aos jogadores e não alarga ao treinador.

Na flash interview depois da goleada desta terça-feira com o Bayern Munique (5-1), André Almeida, Gedson Fernandes e Rúben Dias reconheceram que a equipa esteve muitos pontos abaixo daquilo que é exigido a este nível, salientaram a superioridade dos alemães e nomearam as palavras que não costumam ser ditas. O lateral direito encarnado, o mais comedido dos três jogadores, afirmou que “este resultado não era o esperado” mas que “tudo se torna mais difícil com jogadores desta qualidade”. “Estamos insatisfeitos. Não era o que queríamos. Mas é levantar a cabeça”, acrescentou André Almeida.

Já Gedson Fernandes, que entrou ao intervalo e marcou o único golo do Benfica na primeira vez que tocou na bola, foi mais direto. “A equipa não esteve no seu melhor. Não estamos a passar a nossa melhor fase. Vamos trabalhar para ultrapassar esta má fase”, garantiu o médio português, com quem concordou Rúben Dias que, ao contrário do que fez Grimaldo depois do empate na Luz frente ao Ajax, assumiu que os adeptos têm motivos para estar desagradados. “O pensamento imediato é que não estamos felizes. Não estamos satisfeitos. Não estamos nós e os adeptos também não estão nem têm de estar e temos de respeitar isso. Não é um bom momento mas é altura de nos unirmos e trabalhar. Sabíamos que eles também não estavam num bom momento mas acabaram por fazer os golos e nós perdemos o norte. Não fomos bons num todo”, disse o central encarnado.

Por seu lado, Rui Vitória, treinador multiplamente criticado, questionado e colocado em causa nas últimas semanas, afasta desde logo conversas sobre o futuro, uma eventual saída ou as consequências do mau resultado. “Estou a falar do jogo, é isso que importa”, atirou o técnico na flash interview da Eleven Sports e da TVI e na conferência de imprensa mais alargada com todos os órgãos de comunicação social, repetindo a mesma linha de discurso nos três momentos.

“É uma tristeza porque não era isto que queríamos. O Bayern foi superior. Não conseguimos implementar e operacionalizar a estratégia que delineámos. Deixámos o Bayern jogar a seu bel prazer e isso paga-se caro. É uma tristeza muito grande. Mas os desafios são para ser ultrapassados”, ressalvou o treinador encarnado.

Crise, fase má ou período menos bom à parte, as verdades são várias: Rui Vitória é já o treinador da história do Benfica com mais derrotas na Liga dos Campeões; esta é a quarta época consecutiva em que os encarnados sofrem mais do que dez golos na Champions; o Benfica perdeu quase um quarto dos jogos disputados esta temporada, a pior percentagem dos últimos dez anos; e há oito anos que o clube da Luz não tinha uma média de golos sofridos tão elevada (são já 27, mais cinco do que os jogos realizados).