Cinema

“Roma”: Alfonso Cuarón, as memórias de infância e a história da criada

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Produzido pela Netflix e vencedor do Festival de Veneza, "Roma" é um regresso à infância do realizador mexicano e uma homenagem à criada da sua família. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Desde 2001, e “E a tua Mamã Também”, que Alfonso Cuarón não filmava no seu México natal. Entretanto, realizou um filme da saga Harry Potter e ganhou sete Óscares com “Gravidade”. De posse de toda a tarimba adquirida em quase 20 anos de Hollywood, Cuarón voltou ao México, e à sua infância, no início dos anos 70, para rodar “Roma”, nome do já um pouco decadente bairro de classe média da Cidade do México onde ele viveu com a sua numerosa família (pai, mãe, avó, dois irmãos, uma irmã e duas criadas, mais um cão). O filme teria que ser rodado a preto e branco, que para o realizador são as cores do passado, e ter como principal protagonista, pivô narrativo e emocional e filtro das memórias do próprio Cuarón, uma das duas criadas indígenas da família, Cleo (o seu modelo chama-se Libo, ainda hoje é viva e “Roma” é-lhe dedicado).

[Veja o “trailer” de “Roma”]

A fita passa-se no espaço de um ano, entre 1970 e 1971, praticamente não tem atores profissionais e Cuarón deu-se ao trabalho de recriar ao pormenor a espaçosa casa familiar com dois andares, usando muitos dos móveis e objetos originais. Esta minuciosíssima evocação autobiográfica de um lugar, de um tempo e de uma altura específica da vida do México, é também o reconhecimento, tardio mas sincero e comovido, do papel da fidelíssima Cleo (Yalitza Aparicio)  naquela casa e naquela família, que ultrapassou em muito o cumprimento das suas inúmeras funções domésticas. Ela foi também uma fonte inesgotável de carinho, desvelo e dedicação para com Cuarón e os irmãos, que a família retribuiu em afeto e proteção, e passou por momentos desesperados na sua vida, de que só muito mais tarde o realizador se apercebeu e aqui revela.

[Veja uma entrevista com Alfonso Cuarón]

Em “Roma”, Alfonso Cuarón não revisita o passado apenas com os olhos nostálgicos e seletivos da infância, mas também com o ponto de vista do adulto que entretanto percebeu e interiorizou muita coisa que na altura lhe tinha passado ao lado. Rodado em digital de grande formato e fazendo excelente uso da profundidade de campo, o filme desenvolve-se numa série de sequências soberbamente encenadas, ora mais intimistas, ora de vistas largas, que alternam entre o grande, desarrumado, confortável e protetor casulo que é a casa da família, com as suas rotinas, alegrias e as dores e os dramas que fazem tremer o agregado, mas não o conseguem destruir (o pai médico, sempre visto fugazmente, abandona o lar para ir viver com a amante), e o mundo exterior, com todas as suas atrações e perigos.

[Veja uma entrevista com Yalitza Aparicio]

Cuarón filma as ruas do bairro e da Cidade do México nos anos 70, uma mistura de antigo e moderno, miséria e afluência, de vendedores e ofícios ambulantes, de grandes cinemas onde se podia fumar, de comércios tradicionais e lojas sofisticadas; recorda um Natal passado já sem o pai, na enorme quinta de uns amigos ricos, cheia de animais embalsamados, de convidados de todas as idades e de criadagem, que culmina com um incêndio numa mata, combatido por toda a gente; recria o massacre do Dia do Corpo de Cristo na capital mexicana, quando mais de uma centena de estudantes que se manifestavam foram mortos por uma milícia paramilitar; ou as férias invernosas numa praia, quando Cleo, que não sabia nadar, o salvou e à irmã de morrer afogados. Cleo que é, nisto tudo, ora testemunha, ora protagonista, figura omnipresente na vida da família e traço de união entre dois Méxicos muito diferentes.

[Veja imagens da rodagem de “Roma”]

Recorrendo a longos e eloquentes “travellings”, Alfonso Cuarón vai da pequena bolha da família ao grande bulício da cidade e às convulsões do país, dos interiores aos espaços mais abertos, do pessoal ao geral (o parto de Cleo no meio do caos do massacre), do mais íntimo ao coletivo, com assombrosa sofisticação técnica (ver o plano inicial do avião refletido na poça de água, ou o salvamento das crianças no mar) e uma ideia condutora sempre visual, que encontram equivalente no apurado realismo do filme. E talvez seja essa extrema elaboração, esse esmero na sua complexa composição, que, apesar da pesada mochila emocional que transporta, faça de “Roma” um filme um pouco distante, menos abertamente expansivo do que se poderia esperar. O que não o impede de ser belíssimo no gesto cinematográfico e no discurso dos sentimentos. Salvo as devidas distâncias, “Roma” é o “Amarcord” de Cuarón.

Produzido pela Netflix, “Roma” arrebatou o Leão de Ouro do Festival de Veneza, o primeiro prémio deste calibre e prestígio que a plataforma de “streaming” conquista, após ter sido banida este ano do Festival de Cannes, por pressão dos poderosos distribuidores franceses. O próximo objetivo de “Roma”, que está nomeado para  três Globos de Ouro e acaba de ser distinguido como Melhor Filme do Ano pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles, depois de já o ter sido pelas suas congéneres de Nova Iorque e Washington, é ganhar Óscares e fazer história em Hollywood.

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