Não é todos os dias que vimos nascer, em Lisboa, um hotel improvisado. Foi o que fez a Ikea, na última sexta-feira, dia 11 de janeiro, para celebrar mais uma colaboração com o britânico Tom Dixon, nome que faz parte da elite do design de produto europeu. Na Lx Factory, o lobby, amplo e espaçoso, foi construído à medida de uma noite de festa. Ao fundo, cinco quartos decorados a rigor estavam de portas abertas para receber os curiosos, tal como aquelas divisões por onde cirandamos quando vamos à loja. A diferença era só uma: no fim da noite, terminada a festa de lançamento, os quartos receberam cinco hóspedes. Para quem sempre sonhou ficar fechado dentro de uma Ikea durante a noite, a experiência não há-de ter andado muito longe disso.

Delaktig é a cama que está no centro das atenções. Uma estrutura em alumínio — que no passado já tinha dado origem a um sofá, também cocriado por Dixon — com peças modulares que a adaptam a vários tipos de ambiente. Nos quartos, pensados para mostrar a peça na sua versatilidade, os ambientes multiplicam-se, de um minimalismo frio e pragmático, às cores garridas de uma divisão para toda a família. O lançamento foi feito a nível internacional e trouxe a Lisboa jornalistas estrangeiros, além de uma equipa vinda diretamente da Suécia. Na comitiva estava o próprio Tom Dixon. Aos 59 anos e com décadas de carreira, trabalhar com um gigante do retalho não é novidade para o designer britânico.

Com vista privilegiada para os quatros, o lobby do hotel Ikea, em Lisboa © DANIEL WESTER

“Já trabalhei para produções em massa antes. Até já fiz coisas mais baratas, que foram oferecidas por patrocinadores em eventos. Exato, já fiz coisas muito mais baratas do que as da Ikea. Como designer, posso usar toda esta máquina industrial para inovar e, sobretudo, para conseguir que o meu trabalho tenha preços mais democráticos”, explica Dixon ao Observador. “É diferente quando desenhamos para os maiores do mundo. Existe um grande vantagem no que toca à capacidade e aos meios de produção, é contactar com outro nível de industrialização. No fundo, partilhamos o mesmo interesse por ver as coisas serem produzidas. Neste caso, é uma forma de trabalhar em que podemos usar materiais de qualidade, mas de uma forma muito mais democrática”, completa.

Tom ocupa um lugar cimeiro entre os mais reconhecidos designers europeus da atualidade. Começou por construir as primeiras peças a partir de partes de outros objetos, “sucata” como descreveu enquanto conversava com o Observador sobre a sua mais recente colaboração com a Ikea. A passagem pelo universo da música também é digna de nota — foi baixista de uma banda chamada Funkapolitan –, embora tenha sido também nos anos 80 que o seu nome começou a ascender enquanto designer. Para a italiana Cappellini, desenhou a icónica S-Chair, peça que, em 1992, foi incluída na coleção permanente do Victoria & Albert Museum e, pouco tempo depois, adquirida também pelo MoMA de Nova Iorque.

Até já fiz coisas mais baratas, coisas que foram oferecidas por patrocinadores em eventos. Exato, já fiz coisas muito mais baratas do que as da Ikea. Como designer, posso usar toda esta máquina industrial para inovar e, sobretudo, para conseguir que o meu trabalho tenha preços mais democráticos”, Tom Dixon

Desenhou para outras marcas e estúdios e explorou a relação entre designer, enquanto entidade criativa, a produção em grande escala e o retalho democrático. Entre 1998 e 2008 assumiu a direção criativa da Habitat, cadeia britânica de mobiliário e decoração comprada pelo grupo da Ikea no início dos anos 90. Esse foi o primeiro contacto de Tom com o gigante sueco. “Durante vários anos, a Ikea foi um mundo secreto. Naqueles dez anos em que trabalhei na Habitat, nunca tive permissão para ir a Älmhult [cidade sueca onde fica a sede do departamento de design da cadeia]. Costumávamos dizer que quem fosse lá, era levado a jantar primeiro e obrigado a cantar o hino nacional”, recorda em tom de brincadeira.

Tom Dixon © DANIEL WESTER

Em 2002, criou a sua própria marca. Sediada em Londres, mas com estúdios em Nova Iorque e Hong Kong, está presente em mais de 65 países, com cerca de 600 produtos, do mobiliário e iluminação às cerâmicas e fragrâncias. Ainda assim, desenhar para a Ikea é, além de uma questão de escala, um exercício para conciliar cunho autoral e transversalidade. “O meu desafio foi afunilar este projeto até ficar com uma ideia, das três ou quatro que tinha inicialmente. Estamos a pensar uma peça para tantos países, com regulamentações diferentes, modos de vida diferentes… Isso sim é difícil: fazer com que algo seja universal”, admite Dixon.

Curioso sobre quem pernoitou nos quartos do famoso hotel, o designer faz perguntas — “Quem dormiu onde?”. “Gosto do número quatro, é o mais limpo”, afirma, confessando a sua predileção pelo ambiente mais branco e minimal. Será gosto ou tendência? “É tão difícil falar de tendências hoje. Estão sempre todas disponíveis, na verdade. Talvez seja o fim do estilo escandinavo. Talvez o cor-de-rosa também acabe”, brinca.

Efetivamente, dormimos lá. O quarto, como explicou uma das designers da marca, responsável pelos interiores recriados na Lx Factory, foi pensado para ser uma espécie de floresta — paredes verdes, relva artificial a cobrir o soalho, plantas suspensas a preencher todo o teto e uma coluna com o cantar dos passarinhos (em boa hora a desligaram, pois a continuar assim os sonhos virariam pesadelos). A relva sintética até que era confortável, mas a invasão de plantas estava no limite — mais uma e teríamos sucumbido ao apocalipse botânico do quarto número dois. Com um tecido igualmente temático, forrou-se um biombo e a cabeceira da cama, só para trazer aquele aconchego a quem, para todos os efeitos, passou a noite num armazém quase debaixo da ponte.

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Os sonhos foram cor-de-rosa, tal como os lençóis. O despertar suave, apesar do pequeno-almoço madrugador na companhia do senhor Dixon. “Dormiram bem?”, perguntou. De facto, não é todos os dias que ouvimos esta pergunta feita pelo homem que desenhou a cama onde dormimos. A verdade é que a qualidade do sono tem muito mais a ver com o colchão do que com a estrutura em si e aí, por muito bom que seja, não acreditamos que Tom tenha tido grande interferência. Obviamente, “The Green Room” era o nome da dita assoalhada, a deixa perfeita para introduzir o tema da sustentabilidade, prioridade para o desenvolvimento estratégico da própria Ikea, na conversa com o designer convidado.

“As necessidades das pessoas nunca foram o meu ponto de partida. Para mim, é muito mais a alegria de criar objetos e o prazer de perseguir uma ideia. Como é óbvio, quando fazemos um objeto com uma função, temos de saber como é que vai ser usado. Aqui, fui forçado a pensar naquilo que as pessoas precisam”, Tom Dixon

“Os designers estão cada vez mais preocupados com isso, mas há muita hipocrisia quando se fala de sustentabilidade. Uma das escolhas que fizemos peças foi fazê-la em alumínio. As estatísticas são muito interessantes: cerca de 80% do alumínio produzido até hoje continua a ser usado atualmente. Depois, explorámos a sustentabilidade na ótica da longevidade do objeto. O facto de ser uma peça que se pode adaptar, mudar, compactar e transportar facilmente, dá-lhe mais tempo de vida útil. Se for preciso, há duas ou três gerações que vão usufruir dela”, explica Tom Dixon.

Um discurso coincidente com o de James Futcher, responsável criativo da Ikea Suécia e para quem a missão da marca, mais do que seguir ou mesmo ditar tendências, é resolver as questões mais práticas do dia-a-dia das pessoas. “Não diria que a Ikea trabalha em função de tendências, diria que trabalha em função das necessidades das pessoas. Entrevistamo-las, queremos saber que tipo de problemas têm em casa e isso é o grande ponto de partida para começar a desenvolver os produtos”, afirma Futcher.

A partir de uma estrutura em alumínio, são vários os componentes que podem ser adicionados à cama Delaktig, incluindo várias cabeceiras e prateleiras © Divulgação

Mais uma vez, a adaptabilidade de Dixon foi posta à prova. “As necessidades das pessoas nunca foram o meu ponto de partida. Para mim, é muito mais a alegria de criar objetos e o prazer de perseguir uma ideia. Como é óbvio, quando fazemos um objeto com uma função, temos de saber como é que vai ser usado. Aqui, fui forçado a pensar naquilo que as pessoas precisam”, admite o designer.

Para entrar no dia-a-dia das pessoas, Tom Dixon e a cama Delaktig terão de esperar até dia 1 de fevereiro, data em que a peça estará disponível nas lojas de todo o mundo (em Portugal, o preço é a partir de 329 euros) — o restante recheio dos quartos já se encontra disponível nas lojas. Apresentada em Lisboa para o resto do mundo, inspirou a multinacional sueca a construir um hotel temporário. Depois de uma noite bem dormida, o espaço abriu ao público no sábado para, muito resumidamente, escoar o recheio do hotel. As peças de decoração e mobiliário foram vendidas a preços convidativos, numa iniciativa que angariou cerca de 10.000 euros para CASA – Centro de Apoio ao Sem Abrigo.