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Moção de Censura

O jogo do galo de Cristas. A crónica da moção de censura

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Assunção Cristas não saiu ilesa do debate da moção de censura contra o governo. Mas também não saiu derrotada. Houve quem tivesse ficado com as orelhas mais quentes. A crónica do editor de Política

MIGUEL A. LOPES/LUSA

O CDS há-de repetir vezes sem conta que o objetivo desta moção de censura era ir a eleições já. Era afirmar uma posição política contra o governo. Mas, muito provavelmente, nem o eleitor mais distraído acreditará. As razões de queixa que Cristas apresentou como fundamento, estão todos os dias nas notícias e no debate político dentro e fora do Parlamento. Não são uma novidade (muito menos um choque) para os portugueses que, ainda por cima, se estiverem incomodados podem repensar as suas escolhas já daqui a menos de nada. 6 Outubro é já ali. Porquê agora?

PS, BE, PCP e até os Verdes não pouparam esforços para diminuir a iniciativa do CDS a uma “cortina de fumo” por causa das notícias com a venda do Pavilhão Atlântico quando estava no governo, ou a um número de “auto-censura” por aquilo que tem feito no parlamento. Cristas ouviu acusações de inconsistência de argumentos e  trocadilhos com o seu próprio nome: “Assunção de incapacidades”, diria Mariana Vieira da Silva no discurso de estreia no Parlamento, já como ministra da Presidência.

Pelo meio, a esquerda foi obrigada a escolher equipas quando o calendário já não lhe dava jeito. E assim que pôde tirou o equipamento de jogo para atacar o governo de Costa com o caderno de encargos não cumpridos que há-de servir de argumentário de campanha: “Podia ter havido avanços na reposição do pagamento das horas extraordinários, no aumento do salário mínimo, na vinculação dos professores, na reposição dos 25 dias de férias”, elencou João Oliveira. “Aproveite os meses que ainda temos para os avanços que faltam”, pressionou Catarina Martins.

Enfim, o debate lá se fez, uma primeira parte animada, uma segunda mais arrastada aqui e ali com alguns apartes humorísticos que serviram para acordar a sala. Mas o resultado estava decidido à partida e a moção foi formalmente chumbada. Serviu para quê, então?

O CDS há-de repetir vezes sem conta que a longa tarde de discussão que teve lugar no parlamento não era para encostar o PSD à parede. Mas o que esta moção concretizou foi uma jogada daquelas que às vezes se consegue no jogo do galo: se posicionarmos bem as cruzes, o outro jogador perde sempre, qualquer que seja o espaço onde decida desenhar o círculo.   

Foi uma armadilha, e o PSD só podia cair nela: se decidisse chumbar a moção, era colado a Costa; se se abstivesse, o CDS reclamaria ter sido o único partido a censurar o governo; votando a favor, foi atrás do CDS.

Os sociais-democratas ainda tentaram uma semi-falta de comparência: deixaram a equipa A no banco, falaram apenas três vezes (Emídio Guerreiro, Joana Barata Lopes e Ricardo Batista Leite) e, vá, levaram uns gráficos (até isto Cristas aproveitou: “O PSD já me facilitou o trabalho.”). Fernando Negrão pôs a bancada a desvalorizar, deixou sete minutos do tempo disponível por usar e saiu da sala ainda Carlos César estava a terminar o discurso. Mas saiu de orelhas quentes.

Logo à entrada, António Costa reduziu a moção a “um ato falhado” que só serve “para medir forças na oposição”. O Bloco falou de uma “direita perdida nos seus jogos”, Heloísa Apolónia descreveu “um xeque ao Rio”. E quando o debate estava terminar, Carlos César ainda fez uma inscrição de última hora para decretar que a moção, “que não serviu para coisa nenhuma”, era uma moção contra o PSD e, “o que é cómico, é que o PSD vai votar a favor”.

Assunção Cristas, que foi acusada de “chicana política” e “artificialismo”, não saiu ilesa deste debate, mas também não foi derrotada. O seu jogo estava na mesa desde a intervenção inicial: “Ainda bem que há o CDS para fazer oposição”. Essa também é uma frase que o CDS há-de repetir vezes sem conta.

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