Artes Visuais

Suspensão do festival Jardins Efémeros. Câmara de Viseu aponta falhas ao Ministério da Cultura

Vereador Jorge Sobrado diz que falta de concurso da Direção-Geral das Artes foi um dos fatores que levaram à pausa no Jardins Efémeros. Diretora do evento subscreve, mas queixa-se também da Câmara.

Lula Pena atuou na edição de 2016 do Jardins Efémeros

RAFA ALCAIDE/EPA

Autor
  • Bruno Horta

O vereador da cultura da Câmara de Viseu disse nesta quinta-feira que a Direção-Geral das Artes, tutelada pelo Ministério da Cultura, é uma das responsáveis pela interrupção forçada do festival anual Jardins Efémeros. No entanto, Jorge Sobrado não quis abrir polémicas e acrescentou que “a centralização da despesa pública não tem sido seguida apenas pelo atual governo”.

A nona edição do Jardins Efémeros, prevista para julho, não poderá realizar-se por falta de financiamento, soube-se na quinta-feira. “Este projeto carece de uma pausa para reflexão”, informou a diretora, Sandra Oliveira, em nota conjunta com a Câmara de Viseu. Parte da nota foi também divulgada através do Facebook, em português e inglês.

O AMOR PREVALECERÁ SOBRE A DOR. É com sentida tristeza que comunicamos a todos, principalmente aos Viseenses, que este…

Posted by Sandra Oliveira on Thursday, March 21, 2019

O festival vinha sendo promovido pela associação cultural Pausa Possível e ao longo de oito anos levou artes visuais, arte urbana, arquitetura, música eletrónica, teatro e cinema experimental a várias ruas e monumentos viseenses, incluindo o Museu Nacional Grão Vasco e a Sé de Viseu. Os artistas Miguel Januário (±MaisMenos±) e Alexandre Farto (Vhils) marcaram presença no Jardins Efémeros, assim como Lula Pena, Evan Parker, Efterklang, Fernanda Fragateiro, Gabriela Albergaria, Nuno Cera, André Cepeda e vários artistas locais emergentes.

Ao Observador, Jorge Sobrado disse estar “dececionado e frustrado porque a DGArtes, tendo aberto em 2017 um concurso de apoios pontuais que permitiu ajudar o festival, abriu esse mesmo concurso muito tarde em 2018 e este ano não o fez até agora”. Dados publicados pela DGArtes mostram que aquele apoio de 2017 teve um montante de 30 mil euros.

“É muito importante para a coesão territorial que o financiamento seja mais robusto fora de Lisboa e do Porto”, acrescentou o vereador, que faz parte de um executivo de maioria PSD. Questionado sobre se tenciona queixar-se diretamente ao Ministério da Cultura ou à DGArtes, sugeriu que não, dizendo que “a crítica não é só a este governo, mas a sucessivos governos”. Reafirmou que “os municípios não devem estar sozinhos na política de democratização da cultura e o estado central não se pode demitir disso.”

Segundo Jorge Sobrado, o festival Jardins Efémeros foi apoiado pelo município em 2017 e 2018 com cerca de 100 mil euros em dinheiro, o que representa entre 60 a 70% do orçamento total do evento. O montante tem origem no programa Viseu Cultura, que dispõe de 800 mil euros e subvenciona hoje 13 eventos culturais na região, além de atividades de criação artística e de animação do património.

Se um evento tiver tido lugar por quatro anos consecutivos, a câmara pode atribuir-lhe financiamento a dois anos, disse o vereador. Mas há uma condição:

O município não interfere na programação, mas também não financia 100%, pede aos promotores que procurem outras fontes que sejam públicas, no caso da DGArtes, ou privadas, através de empresas ou mecenas”, esclareceu o vereador.

Para 2019, a associação que gere o festival Jardins Efémeros não conseguiu outras verbas que não as da Câmara, motivo pelo qual a edição prevista para breve se tornou inviável. “A lógica de financiamento do Viseu Cultura baseia-se no princípio de que os projetos têm multifinanciamento e se comprometem a cativar outras fontes”, sublinhou.

Ouvida pelo Observador, Sandra Oliveira comentou que “a cidade está em choque” com o anúncio do fim do festival, “porque muitas famílias se sentiam profundamente envolvidas” na iniciativa, onde chegaram a participar num só ano cerca de 100 mil pessoas. A diretora corroborou a ideia de que a falta de apoio da DGArtes foi um fator determinante na suspensão, nomeadamente por causa do atraso no concurso de 2018 (que já não permitiu ao Jardins Efémeros candidatar-se) e da ausência de concurso para apoio pontual em 2019 (a informação oficial da DGArtes é de que os concursos serão todos abertos “em março”).

Porém, Sandra Oliveira teceu também críticas à Câmara de Viseu, por esta ter “paulatinamente” reduzido a percentagem de financiamento ao festival. “O vereador, sabendo das fragilidades, poderia ter-nos acompanhado na angariação de outras fontes de financiamento”, defendeu. “Além disso, estamos a concorrer aos apoios da Câmara em pé de igualdade com outros projetos de escalas muito menores e isso não faz sentido.”

De acordo com uma notícia publicada nesta quinta-feira pelo “Jornal do Centro”, o Jardins Efémeros cresceu de edição para edição, desde a primeira, em 2011. “Começou com dois dias e chegou a ter 10 dias de atividades. No último ano, o número diminuiu para cinco e já na altura a organizadora se queixava da dificuldade nos apoios financeiros e na redução que teve no apoio por parte do município de Viseu”. O mesmo jornal deu conta de que a oposição socialista na Câmara está “estupefacta” com o cancelamento do festival.

O festival “tem um lugar muito marcante na cena cultural” de Viseu, classificou o vereador da Cultura. “Tem uma estratégia multidisciplinar e com conteúdos alternativos, o que é diferenciador, e tem conseguido impacto nacional, com a atração de diversos públicos”, acrescentou o mesmo responsável, ressalvando que “existem outros projetos” em Viseu na área da cultura.

No comunicado desta quinta-feira, lê-se que a interrupção é apenas em 2019 e que a programação deverá regressar em 2020. Jorge Segurado disse ao Observador que o município vai abrir, “no primeiro semestre de 2020”, um novo concurso de financiamento e espera que o Jardins Efémeros seja um dos candidatos. Sandra Oliveira afirmou a iniciativa só voltará a ter lugar “se se alterarem as condicionantes dos concursos da DGArtes e do concurso da Câmara”.

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