A ideia, para a larga maioria dos portugueses, parece ainda um pouco estranha. Passaram mais de dois anos e meio desde que Cristiano Ronaldo chorou no relvado do Saint-Denis, desde que Éder puxou a perna atrás para bater Lloris e desde que Portugal fez aquilo que até aí parecia apenas uma distante quimera. Em julho de 2016, a Seleção Nacional — eterna underdog, candidata sem ser favorita e presa à ideia de que era Ronaldo e mais dez — conquistou o Campeonato da Europa. Esta sexta-feira, pela primeira vez na história, Portugal vai começar uma fase de qualificação para um grande torneio de seleções enquanto detentor do título.

A partir das 19h45 no Estádio da Luz, Portugal joga com a Ucrânia o primeiro compromisso da fase de apuramento para o Campeonato da Europa 2020, que será disputado em 12 cidades de 12 países europeus. Até novembro, e ao longo de cinco duplas jornadas (sem contar com os playoffs, marcados para março do próximo ano), a Seleção Nacional irá tentar reservar um lugar na fase final do Europeu: no Grupo B, em conjunto com Portugal, estão também a Ucrânia, a Sérvia, a Lituânia e ainda Luxemburgo. Dos quatro adversários, só os ucranianos estiveram em França em 2016; os sérvios não marcaram presença em qualquer Europeu desde 2000, onde estiveram ainda enquanto Jugoslávia, os lituanos e os luxemburgueses nunca estiveram num Campeonato da Europa. Contas feitas — e com a presença nos playoffs garantida devido ao bom desempenho na Liga das Nações –, a Seleção tem praticamente tudo para garantir o primeiro lugar do grupo e a entrada direta na prova. Mas, e tal como é habitual, Portugal tem um gosto predileto por terminar estas qualificações com uma dose q.b. de sofrimento que torna tudo um tanto ou quanto mais… interessante.

Portugal inicia estágio de preparação para o arranque do Euro2020

Os 10 que restam e os três estreantes absolutos

O apuramento para este Euro 2020 inclui algumas diferenças face ao modelo habitual: logo à cabeça, a inexistência de um país anfitrião, o que faz com que nenhuma seleção tenha a presença garantida a priori, e a relação com os resultados da Liga das Nações. Para a dupla jornada inicial da qualificação, esta sexta-feira com a Ucrânia e segunda-feira com a Sérvia, Fernando Santos convocou 25 jogadores. O grupo, que entretanto já ficou reduzido a 24 elementos devido à lesão de Bruno Fernandes, inclui o regresso de Cristiano Ronaldo (que não joga pela seleção desde o Mundial) e as novidades João Félix, Diogo Jota e Dyego Sousa.

A Liga das Nações antecipou ainda a integração de alguns jogadores que foram agora naturalmente chamados — como João Cancelo, Nélson Semedo, Rúben Dias ou André Silva — que a 10 de julho de 2016, quando Ronaldo chorou, Éder puxou a perna atrás e Portugal alcançou a quimera, estavam longe das equações do selecionador nacional. Outros, como Bernardo Silva ou Pizzi, só não foram campeões europeus por obra do acaso.

Dos 23 que foram campeões da Europa em julho de 2016, só dez vão enfrentar Ucrânia e Sérvia no arranque da qualificação para o Euro 2020

Dos 23 que Fernando Santos levou para o Europeu de França, restam 10 na mais recente convocatória. 13 desapareceram das opções, 15 integram agora a lista do selecionador nacional para os jogos com a Ucrânia e a Sérvia. Desses 15, três são estreantes absolutos. E o exercício de ir perceber onde andava essa dezena e meia de jogadores a 10 de julho de 2016 revela casos de coerência, como Rúben Dias, ascensões vertiginosas, como João Cancelo, e ainda decisões de carreira acertadas, como Rúben Neves e Diogo Jota.

Fernando Santos chama João Félix à Seleção pela primeira vez e lança surpresa: Dyego Sousa

O refrescamento setor a setor

Mas comecemos pelos guarda-redes. Fernando Santos levou para França, além de Rui Patrício, Eduardo e Anthony Lopes. Se o primeiro fica agora fora dos eleitos por opção, o segundo, titular absoluto da baliza do Lyon, pediu para não ser chamado para se “concentrar na família”. Beto e José Sá foram os escolhidos. No verão de 2016, Beto estava ainda nos espanhóis do Sevilha, clube onde conquistou duas Ligas Europa e onde ainda mantém o estatuto de um dos jogadores mais importantes dos últimos anos, totalmente indispensável a Unai Emery. Em agosto do ano em que Portugal se sagrou campeão da Europa, Beto decidiu assinar pelo Sporting, numa espécie de cumprir de uma promessa que havia feito ao pai e a ele mesmo. Já José Sá, que está atualmente emprestado pelo FC Porto ao Olympiacos de Pedro Martins, estava no plantel principal dos dragões no verão de há quase três anos.

A defesa. Para França, foram Cédric Soares, Vieirinha, Bruno Alves, José Fonte, Pepe, Ricardo Carvalho, Eliseu e Raphael Guerreiro. Destes, só Fonte, Pepe e Raphael Guerreiro vão enfrentar Ucrânia e Sérvia: entraram, por isso, João Cancelo, Nélson Semedo, Rúben Dias e Mário Rui. O atual jogador da Juventus estava em 2016 no Valência, já entretanto contratado pelos espanhóis depois de um primeiro período sob empréstimo do Benfica. Já Nélson Semedo, agora frequentemente titular na direita da defesa do Barcelona, estava prestes a começar a época de afirmação no Benfica — depois de uma temporada onde cumpriu 12 jogos com a equipa principal e ameaçou desde logo o lugar de André Almeida. Rúben Dias, atual dono de metade do eixo defensivo encarnado, estava ainda na equipa B do clube da Luz e só se estrearia no plantel principal no ano seguinte. Por fim, Mário Rui (que esteve na lote de convocados para o Mundial e tornou-se, desde 2016, presença habitual nas escolhas de Fernando Santos) estava ainda emprestado pelo Empoli à Roma e só saltaria para o Nápoles no verão seguinte, onde acabaria por chamar a atenção do selecionador nacional.

Os 23 para o Europeu: Renato Sanches vai. Tiago fica de fora

No setor intermédio, Fernando Santos tem como novidades Rúben Neves, Pizzi e Bruno Fernandes (ainda que o jogador do Sporting tenha abandonado a concentração) e André Gomes, Adrien e Renato Sanches, todos campeões europeus, ficam fora dos eleitos — mantêm-se Danilo, William Carvalho, João Moutinho e ainda João Mário. Neves, peça importante do xadrez de Nuno Espírito Santo no Wolverhampton, estava em 2016 no FC Porto e realizaria nos meses seguintes a última temporada no Dragão (quando o treinador saiu para Inglaterra levou com ele o médio, em claro subaproveitamento nos dragões). Pizzi, que na altura era já titular no Benfica, esteve presente nas convocatórias durante a qualificação mas acabou por falhar a lista final. Já Bruno Fernandes, instrumental no Sporting de Jesus, de Peseiro e de Keizer, trocou a Udinese pela Sampdoria nesse verão: um ano depois, face a uma prestação de encher o olho enquanto capitão da seleção sub-21 no Europeu da categoria, Jorge Jesus levou o médio para Alvalade.

João Félix é um dos destaques da convocatória de Fernando Santos

Finalmente, o ataque. Cristiano Ronaldo e Rafa mantêm-se, Éder, Nani e Quaresma saem, entram Bernardo Silva, Gonçalo Guedes, João Félix, André Silva, Diogo Jota e Dyego Sousa. Em 2016, Bernardo estava prestes a começar a temporada brilhante que o levou para o Manchester City e só falhou o Europeu devido a lesão. Já Gonçalo Guedes, que tenta agora regressar aos golos no Valência depois de estar lesionado, estava ainda no Benfica e só seria cedido aos franceses do PSG em janeiro de 2017. João Félix, que andava ainda pelos juniores dos encarnados, estreou-se em setembro de 2016 pela equipa B e André Silva estava quase a dar início à temporada onde foi o titular do ataque do FC Porto e acabou por chamar a atenção do AC Milan. Diogo Jota foi emprestado pelo Atl. Madrid aos dragões em agosto desse ano e Dyego Sousa estava ainda a marcar golos pelo Marítimo antes de ser recrutado pelo Sp. Braga.

Dyego Sousa: a primeira passagem em Portugal aos 18 anos e o “sonho” de jogar pela Seleção

Entre histórias de coerência, ascensões impressionantes ou decisões profissionais bem tomadas, existem 15 jogadores que vão estar presentes nos dois primeiros jogos da qualificação para o Euro 2020 e que não foram campeões da Europa em 2016. Há mais de dois anos e meio, no pós-final de Paris, os críticos e comentadores apressaram-se a lembrar — ou a vaticinar — que Portugal tinha uma seleção envelhecida e condenada a um fim precoce e que o título conquistado em França dificilmente se repetiria a curto-médio prazo.

Passaram quase três anos e um Mundial pelo meio. A injeção de energia, jovialidade e frescura é inegável e Portugal volta a apresentar uma revolução que mostra que a qualidade não tarda a aparecer. E, tal como Éder fez em França, talvez um outro possa puxar a perna atrás e repetir o sonho.