Primeira Liga NOS

Sérgio e um romance com três capítulos e um final agridoce (a crónica do FC Porto-Santa Clara)

Sérgio Conceição preparou a equipa para a Champions, recuperou a equipa da eliminação e soube gerir a equipa na Liga. O FC Porto venceu no terceiro e último capítulo de um romance agridoce.

Um golo solitário de Marega chegou para vencer o Santa Clara

Ivan Del Val/Global Imagens

A semana do FC Porto podia ser resumida num simples tese organizada em três capítulos: o pré-Liga dos Campeões, o pós-eliminação da Liga dos Campeões e o regresso à luta onde não basta apenas ganhar. Este sábado, no Dragão, os dragões recebiam o Santa Clara e começavam o último dos três capítulos com a noção, sempre clara e omnipresente, de que ganhar é tudo aquilo que podem fazer para continuar a disputar a Primeira Liga.

A primeira fase, que se prolongou até ao final da noite de quarta-feira, assentava na esperança de uma reviravolta inédita contra o Liverpool depois da derrota em Anfield e tinha como objetivo a passagem às meias-finais, onde o adversário, entretanto já conhecido, seria o Barcelona. O capítulo inicial da semana do FC Porto conheceu o seu clímax durante os primeiros minutos da primeira parte da segunda mão no Dragão, altura em que a equipa de Sérgio Conceição foi sempre mais forte, mais perigosa e mais organizada do que os ingleses. A última página dos primeiros dias da semana dos dragões escreveu-se ao minuto 26 da receção ao Liverpool, quando Sadio Mané bateu Casillas e elevou para quatro o número de golos que o FC Porto tinha de marcar para seguir em frente.

O segundo capítulo começou assim que o apito final soou no Dragão na noite de quarta-feira. O Liverpool ganhou por 1-4, eliminou o FC Porto da Liga dos Campeões pela segunda temporada consecutiva e os dragões viam agora a restante época reduzida às cinco jornadas finais da Primeira Liga e à final da Taça de Portugal. O pós-eliminação começava com a ideia de que, apesar do adeus à Europa, alguma coisa de positivo teria ficado dos seis jogos da fase da grupo e das eliminatórias com a Roma e o Liverpool: no final da partida, Jürgen Klopp, treinador dos reds, elogiou Sérgio Conceição e garantiu que “gosta desta equipa do FC Porto”. O final do segundo capítulo fazia-se com a vitória moral tão portuguesa quanto confortante.

Por fim, o terceiro e último capítulo. A receção ao Santa Clara, novamente antes de o Benfica jogar, voltava a ter a vitória enquanto campo de preenchimento obrigatório. À partida, Sérgio Conceição tinha todo o plantel à disposição à exceção de Fabiano, terceiro guarda-redes, e até Aboubakar regressava às convocatórias quase sete meses depois de se ter lesionado, em setembro; contudo, Pepe não aparecia nem no onze inicial nem no banco de suplentes e adivinhava-se uma gestão de esforço do central, que saiu do jogo com o Liverpool com queixas musculares. Éder Militão era então titular ao lado de Felipe no eixo da defesa e Wilson Manafá entrava no onze inicial, naquela que era única alteração face à equipa que entrou de início a meio da semana.

Ficha de jogo

FC Porto-Santa Clara, 1-0

30.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Manuel Oliveira (AF Porto)

FC Porto: Casillas, Manafá, Felipe, Militão, Alex Telles, Otávio (Fernando Andrade, 64′), Danilo, Herrera, Brahimi (Corona, 61′), Marega, Soares (Óliver, 78′)

Suplentes não utilizados: Vaná, Maxi Pereira, Mbemba, Aboubakar

Treinador: Sérgio Conceição

Santa Clara: Marco, Patrick, Fábio Cardoso, César, João Lucas, Osama Rashid (Thiago Santana, 74′), Kaio Pantaleão, Martin Chrien (Ukra, 63′), Bruno Lamas, Zé Manuel (Pablo, 82′), Schettine

Suplentes não utilizados: João Lopes, Mamadu Candé, Lucas Marques, Malick Evouna

Treinador: João Henriques

Golos: Marega (18′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Schettine (74′), Corona (83′), Fernando Andrade (90′)

Se Sérgio Conceição tinha praticamente todos os jogadores disponíveis, João Henriques não podia contar com Francisco Ramos, que viu o quinto cartão amarelo na jornada anterior e é uma das peças fulcrais do xadrez da equipa açoriana. O Santa Clara, que nunca ganhou no Dragão, surgia em campo de forma descomplexada e totalmente despreocupada — tanto por motivos menos bons, como o facto de já não poder lutar por lugares de acesso à Europa, como por motivos positivos, como o facto de já estar longe da zona de despromoção e ir, quase de certeza, bater o recorde de pontuação da equipa insular.

Talvez por isso, por essa falta de preocupações, ausência de ansiedade e permanente descaramento, o Santa Clara não permitiu ao FC Porto os minutos iniciais arrebatadores que os dragões costumam ter nas partidas para a Primeira Liga. A equipa de Sérgio Conceição ia procurando a habitual verticalidade, principalmente a partir dos corredores, mas a forma intensa como o Santa Clara estava a jogar não permitia entrar em profundidade. Já os açorianos, apesar de alguma dificuldade na primeira fase de construção, apostavam precisamente na subida dos laterais enquanto apoio na transição ofensiva e acabaram por ser mesmo os primeiros a colocar a bola dentro da baliza — Zé Manuel, porém, estava em posição de fora de jogo (9′).

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do FC Porto-Santa Clara:]

Enquanto equipa forte a atacar e criativa a construir, sempre sob a batuta de Bruno Lemos, inspirado ’10’ dos insulares, o Santa Clara é ainda um conjunto algo frágil a defender, com receio do contacto e permeável a triangulações. O FC Porto acabou por chegar ao golo na melhor jogada que fez até àquele momento e no seguimento do primeiro remate que fez à baliza: Otávio tabelou com Herrera e apareceu metros à frente, já no interior da grande área e na cara de Marco, mas permitiu a defesa do guarda-redes do Santa Clara; na recarga, perante uma baliza deserta, Marega marcou pela segunda jornada consecutiva, algo que ainda não tinha feito no ano civil de 2019 (18′). Os dragões acabaram por cair de rendimento logo a seguir ao golo, os açorianos voltaram a marcar a voltaram a ver o golo anulado, desta vez por fora de jogo de Guilherme Schettine, e a primeira parte terminou mesmo algo partida e com o ascendente dividido entre os dois conjuntos, face a uma boa reação da equipa de João Henriques à desvantagem.

O FC Porto voltava para a segunda parte sem alterações e a fazer aquilo que procurou antes do intervalo mas nem sempre conseguiu. A equipa de Sérgio Conceição tentava controlar o jogo em posse, sem nunca acelerar demasiado e mais preocupado em neutralizar o setor criativo e de construção do Santa Clara, sempre liderado por um Bruno Lamas que tinha em Danilo o principal opositor. Este modelo, porém, gerava facilmente dois problemas: a dificuldade em chegar ao último terço do terreno adversário, tornando menos provável o segundo golo que tranquilizaria a equipa; e o adormecer do setor defensivo, que poderia ser apanhado desprevenido pela velocidade de Zé Manuel e Schettine e pela qualidade individual de Rashid e Lamas. Foi isso que aconteceu ainda no primeiro quarto de hora do segundo tempo, quando Schettine apareceu sozinho ao segundo poste a cabecear e foi Casillas, com uma defesa apertada, que evitou o empate (59′).

O jogo caiu rapidamente numa fase sem balizas, em que as equipas se enfrentavam no meio-campo com o FC Porto receoso quanto aos riscos a tomar e o Santa Clara sem capacidade para desamarrar a partida. No banco, pelo menos, Sérgio Conceição queria resolver o encontro e lançou Corona e Fernando Andrade para tirar Brahimi e Otávio, dois dos elementos mais fustigados pelo romance de três capítulos que foi a semana dos dragões. As alterações provocaram de forma quase direta as duas melhores oportunidades do FC Porto na segunda parte, precisamente através dos dois jogadores que entraram: Corona atirou por cima depois de uma jogada na esquerda (68′) e Fernando viu Marco roubar-lhe o golo com uma enorme defesa (75′).

Até ao fim, o FC Porto blindou os últimos 30 metros do próprio meio-campo e não permitiu grandes aventuras ao Santa Clara — que, apesar de ter vontade, não tinha qualidade para conseguir mais. Jogo quanto baste dos dragões, que terminaram o encontro em claro sub-rendimento físico face à exigência competitiva das últimas duas semanas. Desde o passado sábado, dia em que o FC Porto venceu o Portimonense e iniciou esta espécie de romance em três atos, Sérgio Conceição soube preparar a equipa para ser melhor do que o Liverpool na primeira parte, soube recuperar a equipa depois de uma eliminação e soube gerir a equipa para consolidar a sexta vitória consecutiva na Primeira Liga.

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