Sri Lanka

Número de mortos sobe para 359. País foi avisado pela Índia “mais de duas semanas antes” dos ataques

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Até o nome de um dos bombistas foi transmitido pelos serviços secretos da Índia ao Sri Lanka, antes dos ataques. O Estado Islâmico reivindicou atentados e difundiu imagens de alegados autores.

Governo decretou estado de emergência desde a meia-noite de terça-feira

Getty Images

O número de mortes causadas pelas oito explosões no domingo de Páscoa no Sri Lanka subiu para 359, enquanto o de feridos se mantém nos 500, avançou na manhã desta terça-feira o governo do país. O vice-ministro da Defesa adiantou que foram detidas mais 18 pessoas, elevando o total de suspeitos para 60, segundo a agência Reuters. Ruwan Wijewardene disse ainda que entre os 9 bombistas suicidas está uma mulher e que se prevê que ao todo sejam detidas 100 pessoas.

Enquanto os enterros das vítimas se sucedem e o estado de emergência se mantém, o governo prossegue as investigações explicando porque é que não foram tidos em conta os sucessivos avisos de que um atentado poderia acontecer em território nacional.

Os serviços de inteligência do Sri Lanka foram avisados sobre a iminência de um atentado terrorista pelos seus congéneres indianos duas horas antes das explosões, noticiou a Reuters, citando fonte militares. A CNN avançou posteriormente que a informação transmitida às autoridades do Sri Lanka pelos serviços secretos indianos era invulgarmente detalhada, chegando a mencionar o nome de um dos bombistas. Pelo menos parte da informação terá sido conseguida através de interrogatórios a uma pessoa suspeita de estar afiliada ao Estado Islâmico que se encontrava detida na Índia, refere ainda a CNN citando um “responsável indiano”.

O primeiro aviso dos serviços secretos indianos às autoridades do Sri Lanka sobre os bombardeamentos foi dado “mais de duas semanas antes dos ataques”, refere a CNN. As autoridades do Sri Lanka foram avisadas no dia 4 de abril de um potencial plano para efetuar ataques suicidas em igrejas cristãs e pontos de passagem de turistas, revelou esta segunda-feira um porta-voz do governo do Sri Lanka, Rajitha Senaratne, aos jornalistas. Os avisos “foram repetidos dois dias e duas horas antes dos ataques”, acrescentou esta fonte. Os ataques aconteceram no passado domingo, dia 21 de abril.

O primeiro-ministro indiano já tinha admitido publicamente que os atentados poderiam ter sido evitados se não tivesse havido falhas na comunicação. Numa conferência de imprensa em Colombo, Ranil Wickremesinghe acrescentou que o Presidente já abriu uma investigação para apurar as razões que levaram a que a informação não chegasse ao gabinete do primeiro-ministro.

Estado Islâmico reivindica autoria dos atentados

O Estado Islâmico já reivindicou a autoria do ataque através de um anúncio feito no portal de notícias Amqa. O Amqa foi criado em 2013 por um jornalista sírio, tem ligações ao ISIS, sendo ali que o grupo terrorista islâmico faz reivindicações de ataques.

“Os autores do ataque que teve como alvo cidadãos da aliança dos cruzados (coligação anti-ISIS liderada pelos Estados Unidos) e cristãos eram combatentes do Estado Islâmico”, lê-se na curta mensagem publicada no site da Amqa, segundo a tradução feita pelo jornalista da BBC Faisal Irshaid.

A organização terrorista divulgou ainda um vídeo no qual surgem sete homens, vestidos de preto e tapados com lenços, que prestam juramente ao líder do Estado Islâmico, Abou Bakr al-Baghdadi, refere o jornal belga Le Soir. Entre os sete homens estarão os autores dos atentados no Sri Lanka, garante o ISIS. No portal de notícias e propaganda Amqa, é referido que os homens são os “combatentes” que estão na origem do “ataque sagrado”. A informação não foi ainda confirmada por fontes independentes.

A reivindicação do ISIS surge horas depois de ter sido divulgado nas redes sociais um vídeo que apontava nesse mesmo sentido. Nele, um grupo de media com ligações ao Estado Islâmico, o Al Ghuraba Media, afirmava que aquele grupo terrorista era o responsável pelos ataques.

“Este dia sangrento é a nossa recompensa para vocês”, lia-se na mensagem, na qual também se divulgavam imagens de três alegados bombistas. No entanto, estes eram referidos como atacantes (ou assaltantes) e não como mártires, forma como o ISIS se refere habitualmente aos bombistas suicidas.

Segundo o vídeo, os homens eram Abul Barra, Abul Mukhtar e Abu Ubaida e nas fotografias divulgadas surgem a posar em frente a uma bandeira do ISIS.

O ataque não tinha sido, até agora, reivindicado por nenhum grupo organizado, e as suspeitas do governo recaíam sobre o National Thowheed Jama’ath, um pequeno grupo jihadista do Sri Lanka. No entanto, autoridades e governo afirmaram desde o início que este grupo não tinha dimensão para delinear um ataque desta dimensão sozinho.

Ataque foi retaliação a Christchurch, diz vice-ministro da Defesa

Na altura em que o mais recente balanço das autoridades aponta para 359 mortos nos ataques do domingo de Páscoa, o vice-ministro da Defesa, Ruwan Wijewardene, afirma que o atentado terá sido retaliação aos ataques a duas mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, que a 15 de março vitimaram 50 muçulmanos, e que foram levados a cabo por um supremacista branco.

“As investigações revelaram que os ataques foram levados a cabo como retaliação aos ataques às mesquitas em Christchurch”, disse Ruwan Wijewardene no parlamento. No entanto, o governante não apresentou quaisquer provas para sustentar as suas declarações e assumiu que falhas na segurança interna do país permitiram que o ataque acontecesse. A notícia é avançada pelo Washington Post.

Na segunda-feira, um representante do governo, Rajitha Senaratne, revelou que a 4 de abril, “14 dias antes destes incidentes terem ocorrido”, as autoridades tinham sido informadas de que um ataque estava eminente. No mesmo dia, o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe já tinha também afirmado que a polícia tinha sido avisada há pelo menos 10 dias.

No parlamento, Wijewardene garantiu que nem o primeiro-ministro nem outros membros do seu governo foram notificados da ameaça.

As falhas de segurança apontadas por Wijewardene no parlamento são reforçadas pela notícia da Reuters: os serviços secretos indianos terão feito vários avisos às autoridades do Sri Lanka, o último deles apenas duas horas antes da primeira explosão. Fonte do governo indiano garante que nesse alerta final já se previa que os alvos preferenciais dos terroristas seriam igrejas.

Uma outra fonte, do Ministério da Defesa do Sri Lanka, disse à Reuters que na véspera dos ataques, no sábado à noite, foi recebido um outro aviso.

Reagindo a estas notícias, numa curta entrevista televisiva ao canal NDTV, o primeiro-ministro assumiu esta terça-feira que houve lapsos na cadeia de transmissão de informação, quando questionado sobre se se tratara de um falhanço dos serviços secretos do país.

Cidadão sírio interrogado

Para além do número de mortos, que se prevê vá continuar a aumentar, o número oficial de feridos não foi alterado, mantendo-se nos 500. No seguimento dos ataques a igrejas e hotéis de luxo no domingo de Páscoa, as autoridades do Sri Lanka detiveram 60 pessoas para interrogatórios.

Entre as 40 pessoas, encontra-se um cidadão sírio, detido esta terça-feira e que terá sido interrogado pelas autoridades do Sri Lanka, avança a agência Reuters, que cita fontes governamentais e militares.

“A divisão de investigação ao terrorismo deteve um cidadão sírio que está a ser interrogado na sequência dos atentados”, disse uma das fontes à Reuters, informação confirmada pela agência de notícias junto de dois oficiais que estão a acompanhar a investigação. “Foi detido após o interrogatório a um outro suspeito local”, disse uma outra fonte.

Vídeo mostra alegado bombista minutos antes da explosão

Embora as autoridades do Sri Lanka não tenham confirmado a informação até à data, televisões locais e a CNN estão a divulgar um vídeo — que já chegou às redes sociais — onde se vê um alegado bombista minutos antes da explosão.

A cadeia de televisão norte-americana escreve que recebeu o vídeo de vigilância na redação, mas que a polícia do Sri Lanka se recusa a comentar as imagens enquanto a investigação aos ataques estiver a decorrer. Nas imagens, vê-se um homem com uma mochila às costas a andar pelas ruas e a dirigir-se para uma igreja onde decorre uma missa pascal. Pouco após a sua chegada, dá-se a explosão.

Pelo menos 45 crianças e adolescentes terão morrido no atentado

Pelo menos 45 crianças e adolescentes, incluindo um bebé com 18 meses de idade, morreram nos atentados de domingo, anunciou esta terça-feira o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

“O total atualmente é de 45 crianças e adolescentes mortas (…) e esse número ainda pode aumentar”, indicou Christophe Boulierac, um porta-voz da Unicef. Em conferência de imprensa, Boulierac referiu que outros jovens “estão feridos e a lutar pelas suas vidas”.

Segundo a Unicef, das crianças mortas, 27 estavam na igreja Katuwapitiya em Negombo, a poucos quilómetros a norte da capital Colombo, onde 10 crianças ficaram feridas. Christophe Boulierac disse ainda que cinco crianças e adolescentes estrangeiros morreram nos atentados, sem revelar a sua nacionalidade ou o local onde estavam.

Na segunda-feira, a Unicef anunciou que o Governo do Sri Lanka confirmou que em Batticaloa 13 crianças morreram, incluindo um bebé com 18 meses de idade, enquanto 15 crianças e adolescentes, com idades entre os 7 e os 16, ficaram feridas.

A UNICEF indicou que 20 crianças foram internadas num dos hospitais de Colombo, capital do país, estando quatro delas em unidades de cuidados intensivos. “Condenamos esta violência nos termos mais duros possíveis. Nenhuma criança deve experimentar uma situação tão dolorosa nem deve haver pais que perderam os seus filhos em circunstâncias tão horríveis”, afirmou Boulierac.

Começou o primeiro funeral coletivo das vítimas

No dia em que o Sri Lanka acordou em estado de emergência, teve lugar o primeiro funeral coletivo das vítimas na igreja Katuwapitya, em Negombo. No entanto, as cerimónias foram interrompidas — sem qualquer explicação das autoridades — quando apenas 16 serviços fúnebres estavam concluídos.

Esta terça-feira, que foi decretada como dia de luto nacional, cumpriram-se três minutos de silêncio em memória das vítimas às 8h30, à mesma hora em que começaram os ataques.

Na sequência do estado de emergência, as forças armadas patrulham as ruas da capital do país, Colombo, e têm ordens para deter e interrogar suspeitos sem necessidade de mandados judiciais. O recolher obrigatório mantém-se e as escolas do país continuam fechadas, devendo reabrir apenas na próxima segunda-feira, 29 de abril, segundo anúncio feito pelo ministro da Educação.

Primeiro-ministro apela à unidade nacional

Ranil Wickremesinghe, primeiro-ministro do Sri Lanka, apelou à unidade nacional. Num país de 22 milhões de habitantes, onde convivem várias religiões e etnias, os cristãos são uma minoria (7%), assim como os muçulmanos (10%) e os hindus (12%). A esmagadora maioria da população é budista (70%).

“Hoje, como nação, lamentamos a perda sem sentido de vidas inocentes no domingo de Páscoa. Gostaria de agradecer às forças militares e policiais, às equipas médicas e a todos os que têm trabalhado com bravura e de forma incansável, sem pensar na sua própria segurança, para garantir que os nossos cidadãos estão a salvo. É imperativo mantermo-nos unidos face a esta tragédia indescritível”, escreveu Wickremesinghe no Twitter esta terça-feira.

A principal etnia dos srilankeses são os cingaleses (a maioria são budistas), seguindo-se os tâmeis indianos, embora existam muitas outras com menor expressão.

Obama e Hillary criticados por evitarem a palavra católicos

O antigo presidente norte-americano Barack Obama e a sua ex-secretária de Estado Hillary Clinton estão a ser criticados nas redes sociais por evitarem usar a palavra “católicos” nas suas mensagens de apoio aos familiares das vítimas dos ataques do domingo de Páscoa.

Ambos os políticos usam a palavra “easter worshippers” (adoradores da Páscoa ou fiéis da Páscoa) em vez de católicos ou até cristãos, a nomenclatura que mais tem sido usada pela imprensa internacional para se referir às vítimas do ataque de domingo.

“Cristãos, é OK dizer cristãos”, escreve um internauta. Outro acrescenta: “Se pelo menos houvesse uma palavra que quisesse dizer ‘adoradores da Páscoa’…”

“Porque é que eles não podem dizer cristãos? Foram cristãos que foram atacados e mortos durante as celebrações pascais”, escreve outro utilizador do Twitter.

Da mesma forma que muitos atacam Obama, outros tantos o defendem, argumentando que os católicos são uma minoria dentro de uma minoria, os cristãos, no Sri Lanka, e que o antigo Chefe de Estado não quis ferir suscetibilidades. A deixa é imediatamente aproveitada por outro utilizador do Twitter que lembra que durante os ataques de Christchurch, Nova Zelândia, Obama enviou os seus sentimentos à comunidade muçulmana.

(Em atualização)

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