Poses inesperadas, momentos livres de grande protocolo, instantes em ambiente familiar para a posteridade. Em tempos pautados pela formalidade, as imagens abriam caminho para um registo inédito, assinado por Lisa Sheridan (1894-1966), a fotógrafa que ficaria para sempre ligada à família real britânica, e que fez dupla com o marido, Jimmy.

“Informally Royal: Studio Lisa and the Royal Family 1936-1966”, agora lançado, é o livro com autoria de Rodney Laredo que recupera essa ligação histórica entre um estúdio de fotografia a cerca de 30 quilómetros de Londres e o clã real, um espólio que integra a coleção da National Portrait Gallery.

No estúdio em Grape Street, Londres, poucos anos antes da sua morte. © Ray Moreton/Keystone Features/Getty Images

Foi em 1936 que o destino do Studio Lisa, assim se chamava, se cruzou pela primeira vez com uma geração real (haveriam de fotografar três delas). A oportunidade de uma vida para estes quase amadores surgiu quando os duques de York os contrataram para fazer uma sessão de fotos descontraída da família, de forma a humanizá-los aos olhos dos súbditos.

O álbum recua aos tempos de George VI e da rainha mãe, revisita vários retalhos para a posteridade, e alude também a uma amizade que se estendeu por 30 anos e que contemplou 13 sessões fotográficas distintas, a última das quais já com Isabel II, o seu marido, o príncipe Philip, e os filhos do casal.

A atual monarca tinha apenas 14 meses quando os pais se mudaram para o endereço que era conhecido como “One Four Five”, no número 145 de Piccadilly, em Londres, a sua primeira residência permanente, onde hoje se ergue o hotel InterContinental London Park Lane. O duque e a duquesa de York acabavam de regressar de um périplo de seis meses pela Austrália e pela Nova Zelândia, tendo Isabel, então com apenas oito meses, ficado entregue aos cuidados dos avós maternos e paternos. O regresso à ilha e o reencontro do clã motivou a enchente popular que se registou frente ao edifício, e nem a chuva demoveu os curiosos. Mas foi na casa de campo do clã, o Royal Lodge, em Windsor, que anos mais tarde haveria de decorrer o primeiro de muitos outros encontros com a lente dos Sheridan — de resto, em 1937 a família mudar-se-ia para Buckingham.

A retocar mais uma imagem, uma das últimas tiradas que Lisa, que morreu em 1966 © Ray Moreton/Keystone Features/Getty Images

Jimmie e Lisa Sheridan montaram o seu estúdio em março de 1934 em 14 Parkway, Welwyn Garden City, uma localidade do Hertfordshire. O Studio Lisa funcionara anteriormente numas pequenas instalações em Broadstairs e já era conhecido da imprensa e do público pelo seu trabalho no âmbito da publicidade, servindo as ilustrações de produtos comerciais e artigos para revistas. Também muitos cidadãos de Garden City se tornaram modelos de várias sessões realizadas pela dupla. A inovação revelava-se de forma mais expressiva nos retratos de crianças e na fotografia de animais, dois ingredientes-chave para convencer os pais de Isabel II, que tiveram acesso a exemplos desse trabalho informal.

Ainda hoje é recordada a forma descontraída como os duques de York receberam os fotógrafos para a primeira sessão, com a pequena Isabel e a sua irmã, Margarida, vestidas com camisolas amarelas e saias de pregas, e que foram fotografadas com os seus cães em redor.

Se o apelido Sheridan permanece ligado ao da família real britânica, provavelmente tornou-se tão ou mais conhecido através da descendência da fotógrafa. A filha do casal, Dinah Sheridan, (1920-2012) fez carreira como atriz no West End e na televisão britânica, enquanto o filho, Jeremy, envolveu-se na política e no partido conservador. Jenny, outra filha, apresentou um programa infantil na TV.

Quanto ao autor do livro, Rodney Laredo, anglófilo confesso, vive em Christchurch, Nova Zelândia, e há mais de 40 anos que mantém uma amizade com a família Sheridan. A 9 de maio, estará em Welwyn Garden City a assinar a obra.