“O Facebook é um monopólio” e, por isso, tem de ser dividido “em múltiplas empresas”, proibido de comprar mais startups durante vários anos, e ter uma autoridade reguladora estatal que o responsabilize, escreveu esta quinta-feira Chris Hughes no The New York Times. O empresário é um dos fundadores do Facebook e antigo colega de quarto de Mark Zuckeberg, o presidente executivo da empresa que detém a rede social e outras plataformas como o Instagram e WhatsApp. Apesar de Hughes defender a “humanidade” do antigo amigo, afirma sem rodeios: “O poder não controlado [por ninguém] que tem é problemático”.

O Mark [Zuckerberg] ainda é a mesma pessoa que vi a abraçar os pais ao saírem do nosso dormitório no primeiro ano da faculdade” e, por isso, “não devia ter tanto poder”, escreve Hughes.

No artigo de opinião, Hughes descreve o início do Facebook até 2007 e deixa um relato pormenorizado do antigo amigo de faculdade. Para o cofundador, Zuckerberg tem um “poder sem precedentes, que é pouco americano”. Como o presidente executivo tem um grande controlo sobre toda a empresa, isso faz com que seja responsável pelas mudanças que estão a afetar a sociedade. Hughes chega a referir que “Mark tem um controlo unilateral de todo o Facebook” e diz que Zuckerberg pode “monitorizar, organizar e ainda censurar as conversas de dois mil milhões de pessoas” (o Facebook tem cerca de 2,1 mil milhões de utilizadores).

Mesmo com as mudanças e preocupações levantadas depois do caso Cambridge  Analytica — empresa que acedeu indevidamente a 87 milhões de contas para ajudar a eleger Donald Trump —  pelos governos em todo o mundo, principalmente pelo norte-americano, ainda não há alterações suficientes. Para Hughes, o Facebook tem de ser desmantelado. Objetivo: deixar de liderar o monopólio que criou e passar a ter regulação e “ser mais responsabilizado perante o povo americano”.

Depois do escândalo de violação de privacidade que fez de 2018 um “ano horribilis” para a empresa, Mark Zuckerberg chegou a pedir desculpas ao Congresso norte-americano (e até ao Parlamento Europeu). Contudo, Hughes diz que não foi o suficiente. O presidente executivo do Facebook passou uma imagem de que “os legisladores que o questionaram eram infoexcluídos e não percebiam como funciona a tecnologia”. Hughes afirma que essa era a intenção de Zuckerberg porque este não queria “que muita mudasse”.

O cofundador propõe que o Facebook, o Instagram e o WhatsApp sejam separados para voltar a trazer concorrência ao mercado das redes sociais e apela ainda aos legisladores norte-americanos que criem uma autoridade reguladora para supervisionar estes serviços. “Precisamos de uma nova agência capacitada pelo Congresso para regular as empresas tecnológicas”, exige Hughes.

Mas como é que dividir o Facebook pode ajudar o mercado? Para Hughes, a resposta é fácil: passaria a existir mais competição, que cria inovação e outros mercados, como o da publicidade online, voltariam a crescer. E como é que os Estados Unidos podiam intervir desta forma no mercado? Com a FCT, a equivalente norte-americano da autoridade da concorrência. Esta reguladora podia reverter aquisições que o Facebook fez no passado para consolidar a liderança, como a do Instagram e WhatsApp.

No início o Facebook teria um “breve período” para dividir as empresas e, depois, as três até podiam estar cotadas em bolsa. Zuckerberg e os acionistas principais do Facebook teriam regras para não poderem ter grande poder nestas novas empresas. Mas Hughes avisa: “já há pouco tempo [para estas medidas], porque o Facebook está a integrar todos os serviços num só”.

Contudo, mesmo com um Facebook dividido, podia não haver muita diferença no mercado “porque é um monopólio natural, dizem alguns economistas”. Como criar um novo Facebook seria muito caro e atualmente a empresa já não precisa de muitos encargos para continuar a crescer, não há hipótese de aparecerem novos concorrentes. Contudo, o cofundador refuta essas afirmações dizendo que criar novas rede sociais não é assim tão caro, o que, para Hughes, faz com que o Facebook não seja um monopólio natural.

Facebook responde: a responsabilidade não se impõe “ao convocar o fim de uma empresa americana de sucesso”

Pouco tempo após a publicação do artigo de opinião, Nick Clegg, vice-presidente dos assuntos globais e comunicação do Facebook enviou uma pequena nota às redações onde assume que com o sucesso vem a responsabilidade, mas garante que esta responsabilidade não se impõe “ao convocar o fim de uma empresa americana de sucesso”.

A responsabilidade das empresas de tecnologia só pode ser alcançada através da introdução meticulosa de novas regras para a internet. E isso é exatamente o que o [CEO] Mark Zuckerberg pediu. De facto, ele está a reunir-se com líderes do governo esta semana para promover esse trabalho”, acrescentou Nick Clegg.