O Facebook eliminou um vídeo viral que alegadamente mostrava 16 formas de testar se a comida é processada ou natural. O vídeo, produzido pela página Blossom e partilhado milhões de vezes durante os primeiros dez dias de junho, afirmava, por exemplo, que o arroz era misturado com pedaços de plástico e que a indústria alimentar juntava sabão em pó ao gelado para lhe dar mais brilho. Acontece que, das 16 conclusões afirmadas no vídeo, apenas três são verdadeiras.

O vídeo continua a circular noutros sites, incluindo no YouTube e no Twitter, apesar de ter sido retirado na segunda-feira.

Uma das informações falsas apresentadas no vídeo avança que o queijo processado fica chamuscado quando sujeito a uma chama, enquanto o outro — o ‘natural’, como rotula o criador do vídeo — derrete com facilidade. No entanto, em declarações à Snopes, Eric Decker, líder do Departamento de Ciência Gastronómica da Universidade de Massachusetts, esclareceu que, na verdade, pode acontecer precisamente o contrário.

“Há aditivos que são adicionados ao queijo processado para ajudar o queijo a derreter. Eles pegam em queijo verdadeiro e acrescentam o que chamam de agentes quelantes e coisas como ácido cítrico. Isso ajuda a quebrar a proteína”, explica o especialista. É assim porque “a proteína no queijo regular é muito agregada”: “Quando se derrete o queijo regular, podem ver-se uns aglomerados. Se se conseguir separar essas proteínas, é muito mais fácil derreter o queijo”, conclui.

Outra mentira veiculada pelo vídeo afirma que “o arroz é misturado com pedaços de plástico para aumentar o lucro do fabricante”. Nas imagens, um punhado de arroz é colocado numa frigideira quente. Ora, de acordo com a Blossom, os pedaços de plástico distinguem-se nos grãos de arroz porque mudam de cor — ficam transparentes ou muito mais claros. Isso aconteceria mesmo, sublinha a Snopes, mas “não há evidências confiáveis ​​de que esse arroz seja comprado ou vendido em qualquer parte do mundo”.

O mesmo vídeo acrescenta que, se alguém colocar gotas de sumo de limão no gelado e ele começar a borbulhar, significa que os fabricantes juntaram sabão em pó ao alimento para que ele fique mais brilhante. Esse procedimento já foi relatado na Índia entre 2012 e 2013 e trazido a público por Sitaram Dixit, o então presidente da Sociedade de Orientação ao Consumidor da Índia. De facto “a adulteração de alimentos é um problema sério e disseminado na Índia”, sublinha a Snopes, mas esses procedimentos “não são replicados nos Estados Unidos ou noutros países desenvolvidos”.

A quarta informação falsa mais flagrante do vídeo afirma que, quando levados ao forno, “os suplementos sintéticos queimam, enquanto os naturais não”. Mas Eric Decker, entrevistado pela Snopes, desmente: “Simplesmente não há base para nada disso. A maioria dos suplementos sintéticos é quimicamente idêntica aos suplementos naturais”. Miguel A. Lurueña, especialista espanhol em alimentação, repete a mesma ideia ao El Español: “Não tem pés nem cabeça. Se algo é fundido não depende da sua origem, mas da sua composição”.

Mas nem tudo o que surge no vídeo é mentira. Já no final do vídeo, a Blossom afirma que, nos bifes, há partes que parecem gordura mas que, na verdade, “são cola para unir pedaços de carne que não foram usadas”. Isso é verdade, mas a ‘cola’ a que se refere o vídeo não é a mesma que se usam nos trabalhos manuais: é, isso sim, transglutaminase ou ‘cola da carne’.

Segundo o Departamento de Agricultura norte-americano, citado pela Snopes, a transglutaminase é “uma substância natural derivada de bactérias fermentadas” que “liga partes de carne mais pequenas para formar uma maior”. Esse produto é considerado seguro pela Food and Drug Administration (FDA) e é muito usada pela indústria alimentar desde há dez anos para “uma melhor textura e rendimento em vários produtos padronizados de carne e aves e como um agente de reticulação de proteínas para produzir ou reformar cortes de carne”.

Outra afirmação verdadeira a surgir no vídeo é a que explica que algumas frutas e legumes são mergulhadas numa cera que pode ser retirada com água. Num artigo publicado no El País, Miguel A. Lurueña começa até por explicar que “as maçãs estão cobertas por cera de forma natural”: “As ceras estão amplamente distribuídas na natureza, exercendo principalmente um papel protetor”, sublinha.

De qualquer modo, é verdade que os fabricantes banham as frutas e os legumes com uma cera artificial antes de chegarem ao mercado. “Frequentemente, após a colheita do fruto, é aplicado um tratamento, uma operação de lavagem que é realizada com o auxílio de água clorada e escovas. Muitas vezes, a escovagem remove parte da cera naturalmente presente, de modo que, em alguns casos, um agente de revestimento é aplicado na superfície da maçã”, confirma Miguel A. Lurueña.

E isso faz mal à saúde? Não, prossegue Miguel A. Lurueña: “Apesar das mensagens alarmantes que abundam nas redes sociais, estes são compostos seguros nas doses permitidas tanto com os estudos toxicológicos que são realizados antes da sua aprovação, como as reavaliações que são realizadas. À medida que o conhecimento avança, não há nada a temer a esse respeito”, sossega o divulgador de ciência.