Tudo mudou em apenas dois anos. A propriedade alentejana de 2.400 hectares que pertence à família desde 1994 — e cuja origem remonta ao século XVIII — sofreu uma transformação profunda às mãos de Luísa Amorim, a filha mais nova do já falecido magnata português Américo Amorim. Depois de dedicar anos aos projetos de vinho do grupo no Douro, com a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, e no Dão, com a Quinta da Taboadela, Luísa Amorim lançou-se num projeto que garante ser pessoal, fruto de um sonho antigo. Na Serra do Mendro, junto à Vidigueira, o projeto Herdade Aldeia de Cima começou a ser revitalizado em janeiro de 2017 com a recuperação de um monte em ruínas e o respetivo armazém, que agora serve de adega ainda por inaugurar — a primeira vindima, com uvas compradas, acontece em 2019.

Há muito que os destinos de Luísa Amorim estão entrelaçados com o vinho. Em 2005 ficou à frente da gestão da Quinta Nova, no Douro, e começou uma empresa do zero, mas a afinidade pelo néctar era coisa do passado: “Na nossa casa sempre se falou de vinho e se abriram garrafas vindas de todo o mundo. Era frequente recebermos produtores devido ao negócio da cortiça”, explica ao Observador. Avançar com um projeto pessoal, depois de tanto tempo no sector, foi uma vontade que ganhou mais força em 2017, na sequência do falecimento do pai, Américo Amorim. “Quando uma pessoa está ligada ao Alentejo e ao negócio do vinho há sempre a vontade de fazer um vinho próprio. A doença e a morte do meu pai puxaram por mim, pelo que decidi concretizar essa vontade. E a vontade foi maior em 2017 do que noutra altura qualquer, foi quando me deu o clique. Achei que era agora.”

Estando este património familiar [propriedade em questão] afeto a mim não faria sentido que fosse um projeto do grupo Amorim. É antes um projeto emocional, pequeno e pessoal.” Luísa Amorim passou largas temporada no Alentejo na companhia do pai, pelo que as memórias são uma força motriz da Herdade Aldeia de Cima.

Luísa Amorim na companhia do marido, Franciso Rêgo, e da equipa da Herdade Aldeia de Cima © Mariana Abreu

A particularidade do projeto não se esgota num único aspeto, mas as vinhas plantadas em patamares em terras de xisto, a fazer lembrar os socalcos do Douro vinhateiro, ajudam a contar a sua história. É caso inédito na paisagem do Alentejo: a Vinha dos Alfaiates, assim batizada, compreende 14 hectares plantados, mas a ideia é chegar aos 20 hectares já em 2020 através da plantação, em curso, de mais três pequenas vinhas na vasta propriedade — a Vinha da Família, junto à adega, a de Sant’Anna e a da Aldeya.

As vinhas em altitude na Serra do Mendro, que separa o Alto do Baixo Alentejo, foram plantadas em patamares tradicionais entre outubro de 2018 e janeiro de 2019 por uma equipa vinda do Douro. Os patamares foram feitos a partir de curvas de níveis já existentes, onde a altitude varia entre os 300 e os 380 metros. Dentro de alguns anos, garante o enólogo do projeto, deverão ser vindimados os primeiros vinhos nascidos em “socalcos” alentejanos. De referir que nesta vinha, dividida em 18 microterroirs, encontram-se cinco castas tintas (Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Alfrocheiro e um pouco de Baga) e uma branca (Antão Vaz).

Luísa Amorim faz questão que todas as uvas trabalhadas sejam portuguesas, mesmo as compradas, as quais devem ser, tanto quanto possível, alentejanas. Ao todo, a equipa que contratou está a trabalhar com mais de 10 castas indígenas, algumas pouco conhecidas — as uvas compradas foram colhidas em terroirs mais frescos e com altitude (Estremoz, Castelo de Vide e Vidigueira).

HAC Reserva Branco 2017 (15 euros); HAC Reserva Tinto 2017 (15 euros), Alyantiju Branco 2017 (32 euros) e Alyantiju Tinto 2017 (49 euros) © Mariana Abreu

O projeto que Luísa Amorim gere em conjunto com o marido Francisco Rêgo arrancou precisamente com vinhos de uvas adquiridas a granel, sendo que todos são topos de gama. Por enquanto há quatro vinhos, dois grandes reservas e dois reservas — Alyantiju tinto 2017, Alyantiju branco 2017, Reserva tinto 2017 e Reserva branco 2017, respetivamente (os nomes dos grandes reservas estão diretamente relacionados com a cultura árabe no Alentejo). Todos os rótulos saem para o mercado em agosto com um mínimo de dois anos em garrafa e estão à responsabilidade da equipa de enologia composta por Jorge Alves e António Cavalheiro, com o apoio de Joaquim Faia na viticultura.

Não fizemos isto sozinhos. Há muito empenho e muito trabalho de toda uma equipa. Mas ajuda quando se sabe o que se quer”, explica ainda Luísa Amorim. “Não consigo estar nos vinhos como se está numa farmácia. As vinhas vão evoluindo, as tendências no mundo também. O vinho tem de ter obrigatoriamente paixão e inspiração”, diz ao Observador.

No futuro outras referências, nascidas de uvas próprias, serão acrescentadas ao portefólio da casa, mas nunca em número excessivo. Para Luísa Amorim este é um projeto pequeno e assim deverá manter-se, ela que objetivamente quer focar-se num determinado perfil de vinho, à semelhança, diz, do que se bebia nesta região na década de 80, ainda antes do domínio das castas estrangeiras. A produção é integrada e mais tarde será convertida em biológica.

© Mariana Abreu

A nova adega, toda ela pintada de branco, tem capacidade para a produção de 100 mil garrafas e está dotada de diferentes equipamentos: das francesas tinajas de terracota às ânforas Turtles, produzidas em Itália, das cubas de cimento aos balseiros de carvalho francês. A traça original foi mantida e os dois silos enormes que à entrada da adega se erguem em direção aos céus ainda estão pintados de fresco. O edifício está dividido em diferentes áreas, as quais compreendem escritórios, a adega em si, um laboratório e um armazém de apoio ao engarrafamento.

A vasta propriedade que já pertencia à família Amorim — marcada tanto por terrenos acidentados como por planícies — explorava apenas cortiça, negócio agora ao qual se juntam os vinhos e a produção de borregos. Luísa Amorim continua envolvida nos projetos de vinho no Douro e no Dão, ainda que este seja o único de índole verdadeiramente pessoal.